Estudo da Unesp de Botucatu alerta para fatores de risco da vaginose bacteriana

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Estudo da Unesp de Botucatu alerta para fatores de risco da vaginose bacteriana 24 abril 2026

Pesquisa desenvolvida em Botucatu, com participação da Faculdade de Medicina da Unesp, identificou alterações na microbiota vaginal e reforça a importância do acompanhamento ginecológico preventivo.

Um estudo com participação de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista, revelou que mulheres que se relacionam sexualmente com outras mulheres podem apresentar risco aumentado de desenvolver vaginose bacteriana.

A pesquisa, divulgada pelo Jornal da Unesp, analisou a microbiota vaginal de participantes e identificou diferenças importantes na composição bacteriana quando comparadas a outros grupos. Segundo os pesquisadores, essas alterações podem favorecer o surgimento da vaginose bacteriana, condição causada pelo desequilíbrio das bactérias naturalmente presentes na vagina.

A vaginose bacteriana é a infecção vaginal mais comum em mulheres em idade reprodutiva e pode provocar sintomas como corrimento com odor forte, desconforto e irritação. Em alguns casos, no entanto, a condição pode ser assintomática.

De acordo com os especialistas, a condição também pode aumentar o risco de outras infecções sexualmente transmissíveis e trazer complicações, especialmente durante a gestação.

O estudo desenvolvido com participação da FMB de Botucatu reforça a necessidade de ampliar as pesquisas sobre saúde da mulher, principalmente em grupos ainda pouco abordados em estudos clínicos e epidemiológicos.

Os pesquisadores destacam que o acompanhamento ginecológico regular e o diagnóstico precoce são fundamentais para prevenir complicações e garantir a saúde íntima feminina.

A pesquisa integra uma linha de investigação voltada à saúde sexual e reprodutiva, colocando a FMB/Unesp entre os centros de referência em produção científica na área.

Os resultados são oriundos de um projeto que vem sendo realizado há 12 anos por pesquisadoras do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp (FMB) em parceria com o Departamento de Patologia Básica da Universidade Federal do Paraná. O estudo, conduzido inteiramente por mulheres, é intitulado “Cuidando da saúde da mulher que faz sexo com mulher” e teve apoio do Centro de Saúde Escola (CSE), unidade auxiliar da FMB.

Riscos para a saúde sexual e reprodutiva das mulheres

Durante o estudo, foram coletadas amostras vaginais de 109 participantes: metade mulheres que tiveram relações sexuais apenas com mulheres (54) e a outra parte de mulheres que tiveram relações sexuais apenas com homens (55). Cerca de 90% das voluntárias estavam abaixo dos 40 anos de idade no momento da inscrição. Além disso, ambos os grupos eram homogêneos numa lista de quesitos que incluía etnia, renda familiar e outros fatores.

As cientistas utilizaram na pesquisa o sequenciamento do gene do RNA ribossômico 16S (rRNA), um método considerado padrão-ouro para identificar e diferenciar bactérias. Há diversos estudos que utilizam tal ferramenta molecular para avaliar a microbiota vaginal, mas poucos se concentraram na população específica de mulheres que fazem sexo com mulheres. E quando se leva em conta a população de mulheres que relataram envolvimentos exclusivamente femininos, o número de estudos conhecidos é ainda menor.

As análises do material coletado não evidenciaram diferenças significativas na incidência de ISTs, como HPV, HIV, clamídia e candidíases vaginais entre os dois grupos. Por outro lado, as pesquisadoras constataram, em cerca de 40% das mulheres que se relacionam com outras mulheres, um problema denominado vaginose bacteriana, que se caracteriza pelo desequilíbrio da microbiota vaginal. No grupo das mulheres que se relacionam com homens, o percentual de pessoas afetadas foi apenas de 14%.

A enfermeira e pesquisadora da FMB Mariana Alice de Oliveira Ignácio, que é uma das autoras do artigo, explica que uma microbiota vaginal considerada saudável, em geral, apresenta predominância dos Lactobacillus sp. Estas bactérias são consideradas benéficas produtoras de peróxido de hidrogênio, que inibem patógenos e auxiliam na prevenção de infecções. “Quando fatores causam o desbalanço dessa microbiota e a queda ou até extinção desses lactobacilos, podem ocorrer prejuízos para a saúde sexual e reprodutiva da mulher”, explica ela.

Para qualquer mulher cisgênero, a alteração na microbiota pode resultar em risco aumentado para ISTs, doença inflamatória pélvica (DIP), parto prematuro e ruptura das membranas amnióticas antes do início do trabalho de parto (RPM). Além disso, a chamada vaginose bacteriana costuma vir acompanhada de odor desagradável e aumento do corrimento vaginal, o que também impacta no bem-estar físico e psicológico das mulheres.

“Esse foi um grande achado da pesquisa, que corrobora com artigos já produzidos internacionalmente que mostram que mulheres que se relacionam com outras mulheres apresentam essa alteração de microbiota com frequência”, diz Ignácio. Ainda não existem, no entanto, estudos que justifiquem o desequilíbrio dentro do grupo.

Sem focar na causa, as cientistas procuraram entender ainda quais fatores poderiam estar associados à maior ocorrência de vaginose bacteriana em mulheres que se relacionam com mulheres. Os fatores mapeados incluem o uso de brinquedos sexuais e também a baixa renda familiar; este último pode estar associado a um menor acesso aos serviços de saúde. “O estudo mostra a importância de que os profissionais de saúde dediquem uma atenção especial para as mulheres que se relacionam com mulheres, porque esse grupo pode apresentar alterações que às vezes passam despercebidas durante as consultas, devido ao desconhecimento destes fatores de risco”, diz Ignácio. Ela reitera que esse artigo é apenas o primeiro dentre uma série de resultados que o grupo pretende divulgar com base nos estudos realizados na última década.

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