A racionalidade e a percepção econômica

Por Paulo André de Oliveira

De uma forma simplificada, uma economia de mercado (capitalismo) funciona pelo conjunto de decisões individuais de consumo. Até a década de 1970, estudos de economia tinham como pressuposto que essas ações eram tomadas de maneira racional. O estudo feito pela Economia Comportamental (EC) passou a abordar as influências cognitivas que impactam as decisões econômicas.

Por exemplo: aversão à perda (sentimos mais quando perdemos algo de menor valor do que quando ganhamos algo); comportamento de manada (tomamos decisões com base no que a maioria está escolhendo); contabilidade mental (estimamos nossos gastos por departamento saúde, beleza, lazer e não como uma conta única); dor do pagamento (sentimos mais quando pagamos em dinheiro do que com cartão de crédito, porque não vemos o dinheiro ir embora); entre outros que valem a pena conhecer. A EC emprega principalmente a experimentação para desenvolver teorias sobre a tomada de decisão pelo ser humano. Apesar de um comportamento racional ser mais fácil de prever, esses modelos apresentam falhas.

Um problema importante na teoria econômica tradicional é que os economistas descartam qualquer fator que não influenciaria o pensamento de uma pessoa racional. Mas infelizmente para a teoria, muitos fatores considerados irrelevantes importam. Os economistas criaram um problema para eles mesmos ao insistir que as pessoas agem racionalmente o tempo todo. Um consumidor racional não compraria uma porção maior do que quer que seja que ele irá jantar na terça-feira porque estava com fome no domingo enquanto fazia as compras.

A fome no domingo não deveria ser relevante para a escolha do tamanho da sua refeição na terça-feira.  A teoria econômica sempre pensou que, diante das opções, os agentes econômicos escolheriam racionalmente a melhor. A empresa saberia o melhor investimento, o consumidor saberia quais os melhores produtos para comprar e o que fazer com o seu salário. O Prêmio Nobel de economia de 2017, Richard Thaler e outros economistas começaram a mostrar que não é bem assim.

A economia comportamental explica por que as pessoas priorizam o consumo no presente em vez de economizar para a aposentadoria, por exemplo. Isso porque é muito mais próximo e palpável o prazer presente em vez do possível sofrimento no futuro. Os indivíduos fazem uma contabilidade mental e tendem a dar peso maior para o presente em relação ao futuro. Para o indivíduo, é mais difícil abrir mão de um benefício presente (o consumo) do que de um benefício futuro (a aposentadoria), ainda que racionalmente ele saiba que deve poupar.

A EC explica o movimento de manada nos mercados financeiros, quando o mercado está em alta, mais pessoas decidem investir em ações. Não é racional pensar que, como os preços das ações estão subindo recentemente, vão continuar a subir. Mesmo assim, esse é um fenômeno recorrente. As pessoas acham que o que está acontecendo agora vai continuar a acontecer no futuro. Então, quando o mercado está subindo, as pessoas acreditam que nunca vai cair.

Outro caso clássico: você preferiria ganhar R$ 50,00 com certeza, ou jogar cara ou coroa e ter 50% de chance de ganhar R$ 100,00? Se escolheu a primeira opção, pode ter certeza de duas coisas: primeiro, que você faz a mesma escolha da maioria das pessoas e, segundo, que sua escolha foi irracional. Para a economia clássica, as duas opções são iguais. Mas quando você faz um experimento, vê que as pessoas escolhem ganhar os R$ 50,00 com certeza.

O estudo do comportamento econômico ganha cada vez mais utilidade para as empresa e governos, porque o que se considera não é que as pessoas são irracionais, mas que a percepção econômica das pessoas vai muito além de cálculos financeiros.

Professor da Fatec