25 julho 2026
Morador de Botucatu percorreu a Via Transilvânica em quase 70 dias, enfrentando florestas isoladas, animais selvagens e uma das rotas de trekking mais desafiadoras da Europa.

O empresário Vagner José de Oliveira Rosa, de 67 anos, morador de Botucatu, acaba de concluir um dos maiores desafios de sua trajetória como caminhante. Em quase 70 dias, ele percorreu os 1.400 quilômetros da Via Transilvânica, na Romênia, uma das mais novas e desafiadoras rotas de trekking da Europa, cruzando montanhas, florestas, vilarejos isolados e regiões conhecidas pela rica história medieval e pelas lendas ligadas ao Conde Drácula.
A aventura foi realizada ao lado do italiano Graziano, de 74 anos. Juntos, caminharam, em média, 20 quilômetros por dia, carregando mochilas de aproximadamente 11 quilos e enfrentando uma rotina marcada por disciplina, planejamento e contato intenso com a natureza.
Segundo Vagner, a Via Transilvânica é muito diferente dos tradicionais caminhos de peregrinação europeus. Mais de 70% do percurso acontece dentro de áreas de mata fechada, longe dos grandes centros urbanos e da estrutura turística convencional.
“Esse caminho na Romênia é bem isolado, e eu sempre gostei de fazer as coisas sozinho. Mas a Via Transilvânica me atraiu demais por ser totalmente diferente dos outros. Mais de 70% é no meio de bosques. Você não tem cidade toda hora, e a questão dos animais selvagens, como os ursos e os cães pastores, exige companhia por uma questão de segurança”, relata.

Mais de 26 mil quilômetros caminhados pelo mundo
A caminhada na Romênia não foi a primeira aventura do botucatuense. Ao longo de mais de duas décadas dedicadas ao trekking, Vagner já acumula cerca de 26 mil quilômetros percorridos em diferentes países.
Mesmo com toda a experiência, ele afirma que a Via Transilvânica exige preparo físico, planejamento e respeito às condições da rota.
A rotina durante quase 70 dias foi simples: acordar cedo, organizar o equipamento, conferir mapas, caminhar por horas, procurar abrigo em pequenas comunidades e repetir o processo diariamente.
Entre castelos medievais e a lenda do Drácula
Antes do início da travessia, Vagner aproveitou para conhecer alguns dos principais pontos turísticos da Romênia. Entre eles está o famoso Castelo de Bran, mundialmente conhecido por sua associação à lenda do Conde Drácula.
“A gente sempre associa a Via Transilvânica ao Drácula, mas, na verdade, ele viveu pouco tempo numa cidadezinha do caminho. O Castelo do Drácula tem todo aquele clima alusivo ao personagem, é muito interessante e vale a pena ir.”
Outro local que chamou a atenção do empresário foi o Castelo de Peleș, considerado um dos mais belos da Europa.
“Antes dele, porém, passamos no Castelo de Peleș, que é maravilhoso. É todo decorado, com salas cheias de armaduras e paredes revestidas em madeira. É lindíssimo.”
Ao longo da caminhada, a paisagem alternava entre castelos históricos, pequenas aldeias, fazendas, igrejas centenárias e longos trechos completamente cercados por florestas.

Ursos, cães pastores e atenção constante
O maior desafio da viagem, entretanto, foi conviver com a presença constante da fauna selvagem. A Romênia possui uma das maiores populações de ursos-pardos da Europa, além de cães utilizados por pastores para proteger rebanhos. Para minimizar os riscos, Vagner e Graziano caminharam durante toda a viagem com apitos presos ao peito e spray de pimenta sempre à mão.
Em diversos trechos havia placas alertando para a presença de ursos. Durante a caminhada, Graziano conseguiu fotografar um dos animais. Em outro momento, um caminhante romeno que acompanhou a dupla por alguns dias registrou um urso em vídeo.
“Dá aquele friozinho na barriga, mas, ao mesmo tempo, você tem vontade de encontrar o urso”, brinca Vagner.

Estrutura limitada exige planejamento
Outro aspecto marcante da Via Transilvânica é a escassez de infraestrutura. Em muitos povoados existe apenas um pequeno comércio, semelhante a uma quitanda, sem restaurantes, farmácias ou hotéis.
Em alguns dias, a única alternativa foi contar com a hospitalidade de moradores locais, que alugam quartos simples para caminhantes. Essa limitação faz com que todo o planejamento seja fundamental.
Água, alimentos de alto valor energético, roupas para baixas temperaturas e equipamentos de emergência precisam caber em uma mochila de apenas 11 quilos.
Tecnologia ajudou a superar a barreira do idioma
A comunicação também foi um desafio. Vagner não fala inglês e seu companheiro italiano dominava apenas o básico de outros idiomas. Segundo ele, boa parte da comunicação aconteceu utilizando uma mistura de português, espanhol e francês, além do auxílio constante do Google Tradutor.
“Eu falo um pouco de ‘portunhol’ e de francês. Foi assim que eu e o Graziano nos comunicamos. O Graziano é italiano, então o romeno é um pouco mais próximo da língua dele. Dava para entender alguma coisa, mas o principal mesmo era o Google Tradutor.”
Enquanto isso, no Brasil, a filha Marina Rosa, de 36 anos, ficou responsável por registrar toda a aventura nas redes sociais. Vagner gravava vídeos durante o percurso e enviava o material sempre que encontrava sinal de internet. Marina editava os conteúdos, acrescentava legendas e publicava tudo em uma página criada especialmente para acompanhar a expedição.
Segundo ela, o objetivo sempre foi inspirar outras pessoas.
“Nosso principal objetivo ao compartilhar a caminhada era inspirar as pessoas. Mostrar que, independentemente da idade, ainda é possível se desafiar, viver grandes experiências e correr atrás dos sonhos.”

Exemplo de qualidade de vida
Aos 67 anos, Vagner mantém uma rotina intensa de cuidados com a saúde. Além das caminhadas diárias, que variam entre quatro e oito quilômetros, ele frequenta academia três vezes por semana e pratica pilates regularmente. Segundo ele, essa preparação permite enfrentar desafios como a Via Transilvânica e manter qualidade de vida.
“Eu faço porque tenho prazer em cuidar da minha saúde. Vejo gente muito mais jovem que eu e que está bem pior, porque não faz exercício. Minha motivação é saber que tenho um próximo caminho me esperando lá na frente para eu estar preparado para a aventura.”
Agora, de volta a Botucatu, o empresário já pensa no próximo destino. A travessia da Via Transilvânica passa a integrar uma lista de mais de 26 mil quilômetros percorridos pelo mundo, consolidando Vagner como um dos caminhantes brasileiros mais experientes em grandes rotas internacionais e mostrando que idade e espírito aventureiro podem caminhar lado a lado.









