Landell de Moura: o inventor do rádio foi Padre em Botucatu há mais de 120 anos

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Landell de Moura: o inventor do rádio foi Padre em Botucatu há mais de 120 anos 16 agosto 2026

Padre Roberto Landell de Moura atuou na Igreja Matriz da cidade em 1905, pouco depois de obter patentes nos Estados Unidos para aparelhos de comunicação sem fio

Muito antes de o rádio se tornar um dos principais meios de comunicação do Brasil, um padre e cientista brasileiro realizava experiências para transmitir a voz humana sem o uso de fios. Roberto Landell de Moura, considerado um dos pioneiros mundiais das telecomunicações, também teve parte de sua trajetória ligada a Botucatu.

Registros históricos indicam que Landell de Moura atuou como padre na Igreja Matriz de Botucatu entre março e novembro de 1905. Algumas publicações o apresentam como pároco, enquanto documentos relacionados à história do município mencionam sua passagem como coadjutor ou substituto temporário do vigário. Portanto, diferentemente de algumas versões divulgadas, sua permanência comprovada na cidade ocorreu em 1905, e não durante todo o período entre 1905 e 1908. Memorial Landell de Moura

A passagem por Botucatu aconteceu em um momento decisivo de sua vida. Landell havia retornado dos Estados Unidos, onde conseguiu três patentes relacionadas a sistemas de transmissão sem fio. Ele tentava obter apoio para transformar suas experiências em equipamentos que pudessem ser produzidos e utilizados em maior escala.

Padre, cientista e inventor

Nascido em Porto Alegre, em 1861, Roberto Landell de Moura estudou para o sacerdócio em Roma e também se dedicou a áreas como física, química e eletricidade. Depois de retornar ao Brasil, passou por diferentes paróquias e desenvolveu experiências relacionadas à transmissão da voz e de sinais a distância.

Em 1901, o padre recebeu no Brasil a patente nº 3.279 para um aparelho destinado à transmissão fonética a distância, com ou sem fios. Posteriormente, viajou aos Estados Unidos e obteve outras três patentes, concedidas em 1904, para um transmissor de ondas, um telefone sem fio e um telégrafo sem fio. A existência dessas patentes é registrada, entre outras fontes, em documentos da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Landell é frequentemente chamado de “inventor do rádio” no Brasil. Historicamente, porém, a formulação mais precisa é considerá-lo pioneiro da transmissão da voz por ondas eletromagnéticas ou da radiotelefonia. Enquanto os primeiros sistemas associados ao italiano Guglielmo Marconi transmitiam sinais telegráficos, Landell buscava enviar sons, palavras e música sem fios.

Relatos históricos apontam que ele realizou experiências públicas em São Paulo ainda no final do século XIX e no início de 1900. Uma das demonstrações teria ligado a região de Santana à Ponte Grande, na capital paulista. Sua trajetória como precursor da transmissão da voz sem fio também é reconhecida em publicação recente do Vatican News.

Pedido de apoio feito durante passagem por Botucatu

Enquanto estava em Botucatu, Landell de Moura fez uma de suas últimas tentativas de conseguir recursos públicos para continuar as pesquisas.

No final de 1905, ele encaminhou uma petição à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo solicitando auxílio financeiro para prosseguir com os estudos e colocar em prática seus sistemas de telegrafia e telefonia. O pedido foi apresentado durante uma sessão realizada em dezembro daquele ano, mas não recebeu o apoio necessário.

A solicitação chegou a ser noticiada pelo jornal Correio de Botucatu. Segundo levantamento do jornalista e biógrafo Hamilton Almeida, o periódico informou, na edição de 21 de dezembro de 1905, que o padre afirmava ser possível transmitir mensagens e voz a grandes distâncias por meio de ondas luminosas ou aéreas. O próprio jornal local defendeu que o auxílio fosse concedido.

O pedido, entretanto, acabou arquivado. Sem financiamento, Landell não conseguiu produzir seus equipamentos em escala nem continuar as experiências como pretendia. Um estudo apresentado pela Rede Alfredo de Carvalho de História da Mídia registra que a solicitação feita a partir de Botucatu foi uma tentativa de obter recursos para desenvolver seus sistemas de comunicação. Rede Alcar

Incompreensão e equipamentos destruídos

A trajetória do padre-cientista também foi marcada pela falta de apoio e pela desconfiança. Relatos biográficos sustentam que parte de seus equipamentos foi destruída por pessoas que interpretavam suas experiências científicas como algo incompreensível ou contrário à religião.

As versões sobre o local e as circunstâncias desse episódio apresentam diferenças. Alguns registros o situam em Campinas, onde Landell havia exercido atividades religiosas e realizado estudos, e não durante sua permanência em Botucatu. Por isso, não há base documental suficiente para afirmar que a transferência para a cidade ocorreu diretamente como consequência da destruição dos aparelhos.

Depois de deixar Botucatu, Landell atuou em Mogi das Cruzes entre 1906 e 1907. Em 1908, passou por Caconde e Tapiratiba antes de retornar ao Rio Grande do Sul, onde continuou exercendo o sacerdócio.

Reconhecimento veio décadas depois

Roberto Landell de Moura morreu em Porto Alegre, em 30 de junho de 1928, aos 67 anos. O reconhecimento público por suas experiências e invenções cresceu somente décadas depois.

Seus documentos e manuscritos foram preservados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Entre eles está o memorial descritivo do aparelho de transmissão fonética a distância que deu origem à patente brasileira de 1901. Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul

Reconstruções posteriores de seus equipamentos demonstraram que os aparelhos eram capazes de transmitir sons, embora com limitações técnicas próprias da época.

A passagem por Botucatu foi breve, mas colocou a cidade em um capítulo importante da história das telecomunicações. Foi daqui que um padre-inventor, já detentor de patentes internacionais, voltou a pedir ao poder público uma oportunidade para desenvolver tecnologias que antecipavam a comunicação pelo rádio.

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