“… TÁ VENDO AQUELE EDIFÍCIO MOÇO…”

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Tá vendo aquele edifício moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado, tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Pus a massa fiz cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
Pai vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar
Esta dor doeu mais forte
Por que eu deixei o norte
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava, mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Tá vendo aquela igreja moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Lá sim valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que cristo me disse
Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar

Zé Ramalho (letra, Zé Geraldo)

É, meus amigos, a vida, de um tempo para cá, vem adquirindo contornos absurdos e situações bastante esquisitas. Dia após dia, deparamo-nos com momentos estarrecedores, difíceis de compreender, por mais que nos esforcemos.

Não dá para imaginar, por exemplo, porque pessoas que lutaram tanto para que as atuais gerações tivessem um “chão” firme para pisar, agora sejam tripudiadas, desrespeitadas pela imposição de normas estapafúrdias e, “pra” lá de desrespeitosas, obrigações a que devemos nos submeter, sem pé, nem cabeça, nos mais variados lugares públicos.

Impossível não se indignar com a postura de alguns “gestores” modernos (como se denominam) que, para obterem aprovação (duro é que, a cada dia que passa a insatisfação popular ganha corpo em todos os cantos deste país, cada vez mais injusto socialmente), esquecem a origem do aprendizado, a pura essência da teoria que agora é deixada para trás como mero enfeite, ao lado dos ensinamentos de seus mestres.

Atentem para a minha insatisfação na seguinte linha de raciocínio: como barrar o ingresso do Ex-Presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva ou do Fernando Henrique Cardoso ao Palácio da Alvorada? O mesmo ocorre em Botucatu: como proibir o nosso querido Doutor Joel Spadaro (que, infelizmente, já foi impedido de entrar no PS da sua UNESP numa determinada ocasião) de adentrar as dependências da Faculdade de Medicina? E mais: o que dizer se alguém impedir a entrada do Doutor Emílio Carlos Curcelli no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas, onde, inclusive, ele atuou como um dos mais dedicados e competentes dirigentes?

Pois bem, caros amigos, essas aberrações estão acontecendo neste mesmo Pronto Socorro. Acreditem: figuras expressivas da nossa comunidade, que marcaram época e se dedicaram integralmente para que o nosso HC fosse a exuberância que hoje é, e muitos (muitos mesmos) outros colegas funcionários de diversos setores aqui do Campus, estão sendo impedidos de entrar neste complexo hospitalar quando precisam dar suporte a alguns familiares.

Em cada um dos acessos ? quele posto de atendimento emergencial, tem um vigilante, vinte e quatro horas por dia. Aliás, confesso que, num desses dias em que também fui impedido de entrar naquele ambiente para saber sobre a saúde da minha irmã, tive a sensação de estar do lado de fora de um presídio, tal o sistema de vigilância ostensiva. Que absurdo! Porém, não tenho dúvida nenhuma que esses “vigias” se submetem a seus superiores para “atuarem” dessa maneira.

Evidentemente, direitos e deveres iguais para todos é o que prevê a nossa Constituição Federal. Longe de mim, querer desmerecer o direito de cidadãos simples, até porque ninguém procura um Pronto Socorro para fazer piquenique, chupar jabuticabas, comer “paçoquinha”, fazer palavras cruzadas ou tomar uma cervejinha. Todos devem ter o mesmo tratamento.

Vou mais longe, agora faço uma pergunta para você que está lendo este meu desabafo: se um dia a sua esposa (ou alguém da sua família) se deslocar até um PS com seu filho ou neto – que provavelmente está enfrentando um sério problema de saúde – e você fosse avisado posteriormente desse dissabor, como absorveria um não vindo desses vigilantes? Aceitaria numa boa ou “peitava” quem viesse pela frente? Difícil “né”! Infelizmente, saí da linha. Estamos caminhando exatamente como diz aquela música Funk muito tocada em épocas passadas: ”tá tudo errado, tá tudo errado…”.

Claro que não concordei com essas novas regras adotadas pela nova gestão do Pronto Socorro da UNESP (a bem da verdade, nem sei quem é o Diretor atual daquele importante setor do nosso HC) tanto que, menos de uma semana depois desse “abuso” a que fui exposto, me sentei com o Superintendente do HC Doutor Emílio Carlos Curcelli e fiz um apelo em nome de todos aqueles que tiveram a mesma “receptividade” que eu, visando acabar com essa autêntica ofensa aos sentimentos do cidadão.

Eis que para a minha alegria, afinal, não esperava outra atitude do amigo Emílio, recebi a promessa de que uma reavaliação dos conceitos utilizados no PS da UNESP será discutida nos próximos dias.

Enfim, desabafos ? parte, ofereço uma linda música (CIDADÃO), do “monstro” Zé Ramalho, com a qual iniciei este meu repúdio, a todos aqueles que se acham “dono do mundo” a ponto de bloquear a entrada de pessoas desesperadas numa unidade de saúde, como se isso fosse capaz de justificar todo esse “modernismo” que, lamentavelmente, vem ganhando forças nos mais variados postos de serviços ao público, ou melhor, como se essas aberrações escondessem toda a incompetência que vem norteando o dia a dia da maioria desses tais “diretores da modernidade”.

É profundamente lamentável repudiar determinadas posturas adotadas por uma instituição que me acolhe profissionalmente há quase 45 anos e que, inclusive, sempre foi a salvação da saúde dos munícipes de mais de uma centena de cidades da nossa vasta região. Mais lastimável ainda é sentir que entre nós ainda existem pessoas que não têm a mínima noção da nossa real estada por este mundo incerto e passageiro.

De maneira bastante carinhosa abraço quatro leitores dos meus contos semanais, que, jamais podem encontrar “portas fechadas” aqui na nossa “Faculdade” pelo muito que fizeram por “nóis”: meus amigos, Professores Cecílio Linder, Newton Dezotti, José Carlos Souza Trindade e Luiz Antonio Vane.

Rubens de Almeida – Alemão
alemao.famesp@gmail.com