A cidade nova IV – O entulho

{i}(Perguntam-me que história é essa dos morros 1 e 2 de entulho. Além de acrescentar que há um terceiro, incluo duas fotos que os ilustram a todos, para que se entenda, inclusive a evolução dos ditos cujos. Aí estão.){/i}

É um pouco como aquele conto judaico, do bode na sala, sabe qual? Em vez de bode na sala (que por sinal ainda nem existe), tenho morros de entulho que preciso quase que galgar para entrar e sair. Quando chove, então, depois deste último que é só só feito de terra, é uma beleza. Fico imaginando quando tudo isto for um lugar habitável, daqueles que se varrem e limpam e permanecem limpos por pelo menos uma hora – e dá-me um certo prazer antecipar essa visão.

Essa história do bode na sala, conselho de rabino sábio, é uma das preferidas da minha filha mais nova. Passou meses do ano passado pedindo que lha contasse uma e outra vez, e eu cansada querendo avançar para outras histórias, e ela insistindo como só ela sabe fazer, até que eu cedia e contava-a de novo. E de novo. E de novo. Essa minha filha tem um dedo lá na frente, é bom ficar atenta ao que sente. Sobretudo quando insiste.

São coisas assim a que chamam premonições. Quem as tem, diz serem um fardo. Passa-se a vida antecipando o que já se sabe irá acontecer, e depois perde-se tempo decidindo decidir… o que já se sabe. A bem da verdade, um terrível de um contra senso, uma perda de tempo homérica.

Uns perguntam-me pelo entulho, outros dizem-me que entregue – que na entrega não há sofrimento. Que não tenha medo. E eu nada posso a não ser entregar, e entregar-me, com menor ou maior capacidade dependendo do dia, da hora, do momento; assim que consigo, acontece: um fluxo de escrita percorre-me de cima abaixo, preciso urgentemente sentar-me aqui e destilar todas essas palavras aflitas por saírem de mim. Querem fazê-lo de qualquer jeito, e a minha tarefa é ordená-las. Num todo que despareça caótico, que simule lógica, que faça com que eu mesma leia e me acalme, respire mais sossegada e chegue ? conclusão de que tenho algum domínio sobre mim. Só por uma questão de tranquilidade e foco – eu já sei que domínio é outra coisa.

Às vezes, dá-se através da escrita, a premonição. Como uma onda que viesse do futuro, e se captura no presente, indecifrável mas precisa. Como um feixe luminoso, milhões de nós puro brilho, súbito rasgar do véu em que se refugia o Tempo. Como uma rede lançada ao mar, na volta cheia de peixes prateados, que refulgem enquanto estão dentro d’água e assim que saem são espuma a dissolver-se no papel.

De tempos em tempos, relê-se o que se escreveu e descobre-se que já se sabia. E aí é a dissolução num oceano de encantamento, surpresa, incredulidade plena e completa. Ainda assim, os que têm esse dom mantêm que é terrível. Porque a vida vai carregando-os estrada afora, sem que se deem conta, apesar de todos os sinais que recebem. As premonições todas ao alcance, e eles alegres e saltitantes, desavisados como deve ser, para que nada pareça mesmo normal. Porque não pode mesmo parecer normal, senão como administrar, pergunto-me eu?

E é dessa forma que estes morros olham pra mim, e eu pra eles, interrogando-nos mutuamente qual a extensão do que eu já sabia, do que minha filha já sabia, do que todos já sabíamos antes de começarmos novas jornadas, sem saber mas sabendo exatamente aonde nos conduzem. Pisco-lhes o olho, feliz de estar a caminho, de mãos dadas com o destino, entregue e inteira como me pedem que seja e eu mesma desejo, mais do que qualquer outra coisa.

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