
O Ministério da Fazenda publicou em julho um número que passou quase despercebido fora do setor cripto. Entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, os brasileiros declararam à Receita Federal aproximadamente R$ 1,58 trilhão em operações de compra e venda de criptoativos. Desse total, R$ 1,13 trilhão, ou seja, 71,7%, foi em stablecoins. Não em bitcoin, não em altcoins especulativas. Em moeda digital atrelada ao dólar.
O dado muda a leitura sobre o que o brasileiro realmente faz com criptoativos. A narrativa popular é a do especulador à caça de valorizações rápidas. O que os dados da Receita mostram é diferente: um país que usa o mercado cripto principalmente para ter acesso ao dólar de forma rápida, barata e sem burocracia.
A principal stablecoin nesse movimento é o USDT. A Tether concentrou 88,7% de todo o volume declarado em operações com stablecoins no período, o equivalente a cerca de R$ 1 trilhão em transações. A referência atual da conversão de usdt para real fica em torno de R$ 5,13 por unidade, com o dólar comercial próximo de R$ 5,10.
Por que o brasileiro usa stablecoin e não simplesmente compra dólar
A pergunta faz sentido. O Brasil tem mercado de câmbio legal, corretoras, e é possível comprar dólar em espécie ou em fundos cambiais. O USDT resolve o mesmo problema com algumas vantagens que o sistema tradicional não oferece.
A primeira é a velocidade. Uma transferência internacional via banco pode levar dois a três dias úteis, passar por correspondentes e gerar tarifas em cada etapa. Uma transação em USDT chega ao destinatário em minutos, a qualquer hora, incluindo fins de semana e feriados.
A segunda é a acessibilidade. Abrir uma conta em corretora internacional tem barreiras: documentação, depósito mínimo, tempo de aprovação. Comprar USDT numa plataforma brasileira leva alguns minutos e pode começar com valores baixos.
A terceira é a utilidade dentro do ecossistema cripto. Trader que sai de uma posição em bitcoin e não quer converter para reais a cada operação fica em USDT. Empresa que recebe pagamento do exterior em cripto mantém em USDT até decidir o que fazer. Freelancer que presta serviço para cliente fora do Brasil recebe em USDT e converte quando o câmbio está favorável.
O que mudou em 2026 na regulação
Desde fevereiro de 2026, as operações com stablecoins atreladas a moeda estrangeira passaram a ser enquadradas como operações de câmbio pelo Banco Central, com base na Resolução BCB nº 521. A mudança tem duas implicações práticas.
A primeira é o reporte obrigatório. A partir de julho de 2026, as transações precisam ser declaradas à Receita Federal conforme a DeCripto, a nova Instrução Normativa que alinha o Brasil ao padrão internacional da OCDE. Quem já declarava pela sistemática anterior da IN 1.888 não sente grande diferença prática, mas quem operava sem declarar entra num radar muito mais rigoroso.
A segunda é a possível incidência de IOF. O enquadramento cambial abre caminho para que a Receita exija o IOF-Câmbio sobre conversões de real para USDT, com alíquota de 3,5%. O tema ainda está em discussão jurídica, e há argumentos consistentes de que stablecoins não são moeda no sentido legal, o que poderia afastar a cobrança. Por ora, o que está claro é que operar com USDT no Brasil em 2026 exige atenção fiscal que não era necessária dois anos atrás.
Os números que explicam a dominância
Em 2019, as stablecoins representavam 3,5% do volume total de criptoativos declarados no Brasil. Em 2022, eram 79,7%. Em julho de 2023, chegaram a 94,3% de tudo o que foi declarado à Receita naquele mês. A participação recuou um pouco com a valorização de outros ativos em 2024 e 2025, mas estabilizou entre 76% e 80% do volume mensal, conforme os dados publicados pelo Ministério da Fazenda em julho de 2026.
Novembro de 2024 marcou o recorde de transações: 18,2 milhões de operações com stablecoins num único mês, num total de 31,9 milhões de operações em todo o mercado cripto declarado. Quase seis em cada dez transações daquele mês foram em stablecoin.
O que esses números dizem, no fundo, é que o Brasil cripto não é um país de especuladores de altcoin. É um país que encontrou no USDT uma forma prática de manter reservas em dólar, fazer pagamentos internacionais e proteger patrimônio da volatilidade cambial do real, tudo dentro de um ecossistema digital que o sistema bancário tradicional ainda não replicou com a mesma eficiência.
Como funciona a conversão na prática
Para quem ainda não operou com USDT, o processo é direto. Numa plataforma regulamentada no Brasil como a Binance, o usuário deposita reais, compra USDT ao câmbio do momento e passa a ter dólares digitais na carteira. A conversão inversa segue o mesmo caminho: vende os USDT no par USDT/BRL e saca os reais via Pix.
Em resumo, o USDT já se consolidou no Brasil como uma porta de entrada digital para o dólar, combinando liquidez, velocidade e acessibilidade.