Ex-vereadora de Piracicaba Madalena Leite é assassinada em casa

Madalena tinha 64 anos e se tornou a primeira travesti eleita vereadora na história da cidade. Corpo foi encontrado em casa com sinais de violência.

 

A ex-vereadora Madalena Leite foi encontrada morta no início da madrugada desta quarta-feira (7) em Piracicaba (SP). Segundo as informações da Polícia Militar, o corpo foi encontrado na casa dela com sinais de violência. Madalena tinha 64 anos e se tornou a primeira travesti eleita vereadora na história da cidade.

A Polícia Militar informou que o corpo de Madalena foi encontrado por volta de meia-noite e meia no imóvel, no bairro Vila Sônia, com ferimentos no rosto.

Segundo o boletim de ocorrência, um vizinho localizou o corpo no sofá da sala. Ele relatou aos policiais que tinha a chave do imóvel, já que sempre frequentava a casa dela, mas ao chegar no local, encontrou o portão da frente somente encostado. Em seguida, ele acionou a polícia.

A polícia ainda não tem suspeitos para o crime. A família da ex-vereadora permitiu a entrada da equipe da EPTV, afiliada da TV Globo, na casa. Na sala, um quadro com uma foto da Madalena da época em que era vereadora foi encontrado todo quebrado, além de papéis espalhados pelo chão. A polícia ainda apura a motivação do crime.

O corpo foi encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML). O caso foi registrado como homicídio e encaminhado para o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) de Piracicaba.

Quadro com foto da ex-vereadora Madalena encontrado quebrado na casa dela, em Piracicaba, após assassinato — Foto: Felipe Boldrini/EPTV

Quadro com foto da ex-vereadora Madalena encontrado quebrado na casa dela, em Piracicaba, após assassinato — Foto: Felipe Boldrini/EPTV

A irmã de Madalena, Maria de Fátima Ferraz, disse que desde o início da semana percebeu que ela estava diferente, mas não tem suspeitas do que estava acontecendo.

“Eu mesma, esses dias atrás, perguntei: ‘Madalena, você está meio assim… está acontecendo alguma coisa? Fala comigo’. Mas ele não se abria”, relatou.

Vizinhos de Madalena ficaram abalados com o crime e pediram justiça pela vítima, considerada um ícone na cidade e conhecida por seu trabalho comunitário de décadas.

“Até ontem a gente estava aqui brincando com ela. Não tem o porquê acontecer isso com ela. Porque era uma pessoa muito excelente, ajudava a molecada aqui do bairro, fazia festa”, contou a vizinha Maria Lucimar Almenara.

“Que Deus tenha ele onde ele está, em um bom lugar, porque ele merece. Não sei quem foi a pessoa maldosa para fazer isso. Não tinha boca para nada aquele coitado”, lamenta a vizinha Lídia Silva.

O velório teve início às 13h e o enterro, às 15h30, no Cemitério da Vila Rezende, com restrições devido à pandemia, segundo familiares.

1ª vereadora travesti de Piracicaba

Madalena foi eleita vereadora no pleito de 2012, quando recebeu 3.035 votos e teve o segundo melhor desempenho do PSDB nas eleições. À época, ela já somava 25 anos como líder comunitária e era considerada um ícone na cidade, chamando a atenção por andar pelas ruas usando roupas e acessórios femininos.

Madalena trabalhou desde a adolescência como cozinheira e faxineira em casas de família e repartições públicas. Como líder social, foi presidente do centro comunitário do bairro Boa Esperança e foi candidata a vereadora quatro vezes (1988, 2004 e 2008 e 2012), obtendo os votos suficientes para se eleger no último.

Madalena ficou famosa em Piracicaba pela irreverência e pelo visual: negra, com quase 1,80 metro de altura, nasceu em um corpo masculino, mas já usava roupas femininas desde adolescente. Quando questionada sobre ser chamada de travesti, gay, homossexual, ele ou ela, disse que sempre quis ser conhecida por seu trabalho comunitário, e resolveu usar terno na posse de vereadora.

“Para mim tanto faz a maneira como me chamam. Quando eu me olho no espelho, vejo um homem de muita coragem. Vou usar terno e gravata na posse e quando precisar durante as reuniões. Ainda não sei se vou usar meus lenços ou fazer tranças no cabelo, mas vou continuar a ser a mesma Madalena de sempre”, disse à época enquanto escolhia o modelo para a posse.

Ela passou a ser chamada por Madalena quando tinha 15 anos, já assumida como homossexual. “Eu trabalhava de faxineira com a minha mãe em uma república chamada ‘Canecão’ e os moradores fizeram um concurso para escolher um nome de mulher para mim. Aí ganhou Madalena. Eu gostei e ficou o nome”, contou na época da eleição.

No início de 2016, Madalena pediu afastamento da Câmara por motivos de saúde. Ela informou ao G1, à época, que foi diagnosticada com câncer de próstata. O primeiro suplente, Gilmar Tano (PSDB), assumiu o posto interinamente.

Nas eleições seguintes, ainda em 2016, Madalena desistiu da candidatura à reeleição na Câmara de Piracicaba. A decisão foi informada por meio de carta, enviada à presidência do partido tucano. Ao G1, a parlamentar apontou problemas de saúde e agressões racistas e homofóbicas sofridas nas redes sociais durante a gestão no Legislativo como alguns dos motivos para não continuar na carreira política.

Fonte: G1