Veterinários e cirurgiões vasculares de Botucatu fazem parceria para operar cachorra com doença rara

A busca pela cura de um membro da família de Silvia Benedicto foi capaz de superar a distância e criar uma parceria inusitada entre profissionais da medicina veterinária e humana. Dona de Gaya, uma filhote de golden retriever, a moradora de Caraguatatuba, no litoral norte paulista, viu a cachorra adoecer e sofreu por não encontrar um diagnóstico.

Ela conseguiu ajuda em Botucatu (SP), a 400 quilômetros de distância, onde não só descobriu que o animal tinha um problema de má formação nas veias e artérias, como também encontrou a solução pelas mãos de oito veterinários e três cirurgiões vasculares.

Juntos, eles uniram conhecimentos das duas áreas e colocaram em prática um procedimento cirúrgico inédito para eles no dia 20 de agosto, na unidade de pesquisa experimental da Faculdade de Medicina de Botucatu.

A peregrinação de Silvia e Gaia em busca de respostas teve início depois que a cachorra apresentou constantemente falta de apetite e febre, em julho de 2018. Ela passou a ser tratada com o diagnóstico de animal com a doença do carrapato devido aos sintomas parecidos, mas não houve melhora.

Diante do quadro, Silvia pediu ajuda à enteada, que faz residência veterinária na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu. Gaya passou por diversos exames no hospital veterinário da universidade e depois foi deixada em uma clínica particular, até que veio o diagnóstico: fístula arteriovenosa hepática, que é uma anomalia que afeta veias e artérias do corpo.

“Foi um caminho angustiante, quem tem animal entende”, disse Silvia.

Em animais, a doença é considerada rara e no caso da Gaya, devido à gravidade, não havia um tratamento de fácil acesso. Em humanos, a doença é comum e equivale à uma má formação vascular, que pode ser resolvida com um procedimento cirúrgico.

Como no Brasil ele não é comum na medicina veterinária, médicos vasculares entraram em cena para realizar a operação e tentar salvar a golden retriever.

Mobilização

A responsável por começar a iniciativa que promoveu a união de conhecimentos foi Daniela Ferreira, veterinária da clínica particular onde Gaya ficou enquanto aguardava diagnóstico. Ela se sensibilizou com a situação e foi atrás de uma solução.

“Olhar um cachorro e falar para o dono que não tem o que fazer é muito difícil. O que temos que buscar enquanto médicos é ir até onde a gente pode. Se não existe nada que possa ser feito, precisamos pensar além e ver se realmente não há alguma outra coisa que possamos fazer para tentar salvar ou pelo menos aliviar a dor do paciente”, disse.

A veterinária fez contato com médicos vasculares e também outros veterinários, que apoiaram a causa. “Eu me sensibilizei, conversei com outros colegas da equipe e começamos a viabilizar material e local”, disse Marcone Lima, um dos cirurgiões que participou da operação.
“Eles enquanto veterinários não tinham know-how [habilidade], porque é um procedimento que se faz em humanos, nós também não sabíamos como funcionava a anatomia do cachorro. Então nos reunimos para conversar e entender. Foi uma troca”, disse Marcone.

A cirurgia mobilizou 11 profissionais e, para eles, o procedimento em um animal foi algo inédito.

Gaya, que completa um ano neste domingo (1º), permanece se recuperando em Botucatu, na casa de Carolina Latini, enteada de Silvia, e deve retornar para Caraguá nesta semana. “Ela está super bem e ativa, praticamente como era antes”, conta Carolina. Para a dona, a união em torno da cura de Gaya foi um gesto de solidariedade.

“O carinho deles com ela é lindo de ver, o que eles fizeram é impagável. A Gaya é como se fosse uma filha pra mim, então eu tenho muita gratidão por todos esses profissionais”, disse Silvia.

Fonte: G1