Palhaço Rabanete: a arte de chegar aos 80 anos fazendo rir

Conteúdo Solutudo / Por Carlos Pessoa

No sobrado construído na Avenida Dante Delmanto, pertinho ali do Café Tesouro, o entra e sai de gente acontece a todo momento. Para os menos avisados, o lugar não passa de uma casa normal de família grande. Puro engano. Na sala, os painéis recheados de fotos de diferentes épocas, não deixam dúvida: ali mora um artista.

Na casa, um senhor simpático e bem disposto, chapéu na cabeça e sorriso largo. Ao seu lado a esposa, uma senhora de belos traços, vaidosa, de olhos vivos e com uma memória de causar inveja. Durante a meia hora de conversa, o carinho entre ambos fica evidente. Ela o chama o tempo todo de “bebê”. Ele revela que nunca dorme sem premiá-la com o “eu te amo”.

Mas afinal, de quem estamos falando? Ele foi registrado como José Gonçalves Silva. Mas desde os 16 atende pelo nome que o tornaria famoso e ajudaria a fazer dele um dos artistas de maior longevidade da história do circo no Brasil. Nosso personagem é o renomado Palhaço Rabanete, que no último dia 5 de fevereiro completou 80 anos, sendo 74 deles vividos com a cara pintada e arrancando gargalhadas do público.

Como tudo começou

“Eu nasci em uma cidade, onde o defunto para ser enterrado tem que ir a pé”, brinca Rabanete, ao se referir a sua cidade natal – a pequena Irapé -, na região de Chavantes-SP. Seu primeiro contato com o picadeiro aconteceu aos seis anos de idade, após ser dado pela família biológica à criação de uma família circense.

Atuou como acrobata, trapezista e equilibrista. A facilidade em fazer graça, o transformaria aos 15 anos no palhaço Chapinha. Mas o nome não duraria muito tempo. Contratado pelo Circo Teatro Brasília, certo dia o dono o chamou para uma conversa. Antonio Matos, que também encarnava o palhaço Rabanete, em razão de um problema de saúde não poderia atuar mais. Via no talento do jovem Chapinha a oportunidade de eternizar seu personagem.

“Ele disse que a partir daquele dia eu passaria a ser o Rabanete. Levou-me para São Paulo e deixou tudo registrado na Receita Federal”.

Começava ali uma história que atravessaria gerações, fazendo graça e arrancando gargalhadas, Brasil afora. Ao longo da carreira, Rabanete apresentou-se em grandes circos como Orlando Orfei, Di Roma, Medrano, Stankowich, entre outros.

“Conheci e convivi com grandes palhaços e humoristas como Piolim, Nhá Barbina, Pipoquinha, Barnabé, Lambança. Mas não me inspirei em nenhum deles. Fiz tudo conforme meu coração mandava”.

De empregado a dono do próprio circo

Rabanete atingiu o estrelato entre as décadas de 1960 e 1970, época em que o circo-teatro arrastava multidões. “Nunca fui atrás de trabalho. Os donos de circo é que sempre me procuravam”.

A fama e o notável talento levavam as pessoas a questioná-lo se não seria a hora de deixar de ser empregado para tomar conta do próprio circo. Com cinco anos de casado resolveu ouvir os amigos e, ao lado da esposa, montou o Circo Teatro Rabanete. A nova empreitada começou em Carlópolis, na divisa entre São Paulo e o Paraná.

Apesar de pequeno – cerca de trinta metros quadrados -, o circo fez grande sucesso. Os espetáculos eram divididos em três partes: números de picadeiro, teatro e shows musicais. Rabanete se orgulha de ter conhecido e trabalhado ao lado de duplas sertanejas famosas como Pedro Bento e Zé da Estrada e Leo Canhoto e Robertinho.

Um dos grandes sucessos foi a comédia caipira “O casamento do Rabanete”, que arrastava multidões por onde era apresentada. “Esse espetáculo fez com que eu realizasse o sonho de me vestir de noiva, já que no meu casamento de verdade isso não aconteceu”, diz dona Iracema, esposa e fiel parceira.

O encontro com a mulher da sua vida

Em uma tarde de 1962, a botucatuense Iracema Pereira de Oliveira Silva, na época com apenas 16 anos, decidiu trocar o namoro sério de um ano e meio pelo charmoso palhaço com nome de hortaliça, que fazia turnê na cidade com o Circo dos Irmãos Bassioki, instalado na Vila dos Lavradores. “Fui assistir ao espetáculo. Ele veio conversar comigo e resolvemos ficar juntos. Quatro meses depois já estávamos casados”, relembra.

O pai da moça foi contrário ao casamento porque na época não era muito boa a fama dos artistas circenses. “Minha mãe teve que contratar um advogado para que meu pai assinasse os papeis e eu pudesse me casar. Na verdade eles tinham medo porque falavam que gente de circo não prestava”, recorda dona Iracema.

Tendo o “marido-palhaço” como seu grande professor, a jovem passou a dividir o picadeiro com o grande amor de sua vida. “Tudo que sei foi ele que me ensinou: trapézio, escada giratória, corda indiana, lira, contorcionismo, drama, teatro. Eu fazia sempre a atriz principal. Os números naquela época eram muito perigosos. Eu subia a doze metros de altura para descer de ponta cabeça usando apenas uma das mãos. Sofri bastante, mas fui feliz”, fala às gargalhadas.

Do casamento, que já dura 57 anos, tiveram cinco filhos (um deles na verdade um neto de 30 anos que criam desde pequeno), 10 netos e sete bisnetos.

“Demos uma casa e um carro para cada filho começar a vida, além de rancho no Rio Bonito, de papel passado. Tudo fruto do nosso trabalho no circo”, afirma Rabanete, cheio de orgulho.

Fincando raízes em Botucatu

Por volta de 1978, com a idade chegando e principalmente para atender os insistentes pedidos dos pais de dona Iracema, o casal decidiu que era hora de abandonar a vida cigana e estabelecer-se definitivamente em Botucatu. Rabanete conseguiu um emprego na Caixa Econômica Federal, onde anos depois viria a se aposentar. Mas nunca deixou de fazer graça.

“Começamos a fazer pequenos shows. A turma me conhecia no banco e me contratava para animar festas de aniversário. Muitos prefeitos também nos chamavam para aniversário de cidade. Era trabalho de segunda a segunda. Todo dia pintava o rosto de palhaço. Pintava a cara oito horas da manhã e limpava só às duas horas da madrugada”.

Apesar da família já ter recomendado inúmeras vezes para que José Gonçalves aposentasse Rabanete de vez, em função da idade avançada, o palhaço não fala em parar. “Não é uma vida fácil. O palhaço tem que estar sempre disponível. Lembro de uma ocasião em que estava com uma dor de dente terrível, que mal podia respirar. Mesmo assim tive que fazer graça para o público. Quem paga tem que ver um bom espetáculo. Muitas vezes o palhaço ri por fora e chora por dentro. Mesmo assim o circo só me trouxe felicidade. Enquanto eu tiver força, quero continuar trabalhando”.

Hoje, ao lado da esposa, Rabanete ocupa boa parte de sua agenda fazendo animação na porta de lojas. Para sua alegria, ganhou a companhia de três dos filhos, que hoje encarnam Beterraba, Berinjela e Cenourinha. Como dizem por aí, coisa de família, não é mesmo?

 

É difícil ser palhaço?

Rabanete faz questão de frisar que tudo no circo pode ser ensinado, menos a arte de fazer graça. Questionado se era difícil ser palhaço, ele responde com um texto de sua autoria que o acompanhou durante as décadas que viveu no picadeiro.

“Eu quero explicar a vocês o que é ser um palhaço.

O que é ser o que eu sou e fazer isso o que eu faço.

Ser palhaço é distribuir alegria e bom humor

e com esforço contentar o público espectador.

Muita gente diz “palhaço” quando quer xingar alguém

e esse nome pronuncia com escárnio e desdém.

Como se o palhaço fosse criatura inferior,

mas de uma coisa fiquem certos, que para ser um bom palhaço,

precisa ter alma forte e também nervos de aço.

É preciso, além de tudo, ter um grande coração

para sentir isso que eu sinto, grande amor à profissão.

O palhaço, meus amigos, não é nenhum repelente.

O palhaço não é bicho, palhaço também é gente.

O palhaço também tem suas noites de vigília,

pois na barraca modesta, ele tem sua família.

Se o palhaço está sofrendo ninguém deve perceber

pois o palhaço nem tem o direito de sofrer”.

*Para contratar Rabanete e sua trupe basta ligar (14) 997080206.