Embraer e Boeing: o acordo possível

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As ações ON da fabricante de aviões Embraer valorizaram 4,4% nesta sexta-feira, com a notícia de um possível acordo com a americana Boeing, publicado pela jornalista Miriam Leitão, do jornal O Globo. O ativo chegou a atingir um pico de 9% no final da manhã, mas passou a maior parte do dia subindo em torno de 5%. Segundo a jornalista, a Embraer aceitou a proposta da americana para a criação de uma terceira empresa, que ficaria encarregada da operação comercial.

A operação militar da companhia brasileira, motivo de entrave nas negociações das fabricantes com o governo brasileiro, ficaria de fora do negócio. Desde a primeira notícia sobre um acordo entre as duas empresas, no dia 20 de dezembro, as ações da Embraer acumulam alta de 30%, ou cerca de 4 bilhões de reais.

“Isso parece um primeiro passo interessante. Dadas as circunstâncias [impostas pelo governo brasileiro], parece que isso é tudo que a Boeing poderia ter neste momento”, diz Richard Aboulafia, sócio da consultoria americana Teal Group, especializada em aeronáutica. Procurada, a Boeing respondeu que os modelos de parceria estão sendo estudados, mas não há nada definido.

No governo, a avaliação é de que esse seria um bom negócio para as empresas, mas que a negociação só depende do aval do governo quando atingir algum ponto que possa ser delimitado pela goldenshare (a ação especial que dá poder de veto ao governo). “Não podemos nos meter na relação empresarial, o governo só entra quando o que for discutido estiver ligado à goldenshare”, diz uma fonte.

Segundo EXAME antecipou em janeiro, as duas empresas trabalhavam para chegar um acordo ainda em fevereiro. No fim de janeiro, o executivo-chefe da Boeing, Dennis Muilenburg, disse que continua em “conversas ativas” com a Embraer. As duas empresas começaram discutir um acordo em meados de novembro, logo depois de as duas principais concorrentes de cada uma delas, a francesa Airbus e a canadense Bombardier, anunciarem uma fusão. A transação criou uma empresa definida no mercado como “pacote completo”, capaz de fornecer aviões que vão de 100 a 525 assentos — é justamente o que pretendem Embraer e Boeing.

O possível acordo firmado era um dos quatro modelos em análise pelas duas empresas, conforme EXAME antecipou. Todas as discussões levavam em conta um contrato que não desagradasse o governo brasileiro, que já havia se posicionado publicamente contra a venda completa da Embraer para uma concorrente. A alternativa favorita é justamente a que teria sido a escolhida: fazer uma cisão das divisões da Embraer em comercial, executivo e defesa, e negociar cada uma separadamente. Outra opção seria juntar todas as áreas, inclusive a militar, numa joint venture com uma nova composição acionária intermediária entre as duas empresas. Havia ainda a opção mais remota de um acordo da Boeing com o governo brasileiro para que a americana compre na bolsa até 30% das ações da Embraer, fatia que dispensaria uma oferta por 100% do negócio mas permitiria à Boeing ser a maior acionista. A quarta alternativa seria a transformação da Embraer numa holding sem o controle das subsidiárias, modelo já utilizado em outras empresas públicas, como o Banco do Brasil.

Mesmo que a área de Defesa fique de fora do negócio, é muito provável que as parcerias comerciais no setor continuem. A Boeing dá suporte comercial e operacional para as vendas do KC-390, maior avião da Embraer. “Uma possível entrada do KC-390 no Departamento de Defesa dos Estados Unidos se daria por meio da Boeing, por exemplo”, diz Shailon Ian, presidente da consultoria Vinci Aeronáutica. Atualmente, há um projeto nesses moldes para a venda do Super Tucano para o governo americano.

A Embraer é uma empresa com capital pulverizado em bolsa, da qual a União não tem ações diretas (o BNDESPar detém 5% do capital). Na prática, já está nas mãos de estrangeiros, pois quase 85% de suas ações são detidas por investidores internacionais. Mas a União tem uma ação especial criada na época das privatizações para que o governo tivesse poder de veto em temas como mudança de controle acionário. Nesse caso, a decisão, em última instância, cabe ao presidente da República.

Fonte: Exame.com