Palhaço Rabanete lembra sua vida no picadeiro

Fotos: Valéria Cuter – arquivo pessoal

José Gonçalves da Silva, mais conhecido como “Palhaço Rabanete” no auge dos seus 74 anos é um dos profissionais circenses de maior longevidade no País. Atualmente aposentado e afastado do picadeiro é casado com a ex-atiradora de facas e equilibrista Iracema, que conheceu no Circo Internacional Medrano em 1962. Pai de quatro filhos (dois homens e duas mulheres), tem 10 netos e 04 bisnetos.

Em um papo descontraído em sua casa na Avenida Dante Delmanto, na Vila Ferroviária, ao lado da mulher Iracema e do filho Enilson, Rabanete contou um pouco de sua trajetória de vida nômade como artista de circo, onde começou a atuar com seis anos de idade. No picadeiro fez um pouco de tudo, atuando como acrobata, trapezista, equilibrista, mas especializou-se na difícil arte de fazer rir, como palhaço.

{n}O começo{/n}

“Nasci no circo e comecei a atuar com pouco mais de seis anos e tive uma vida no picadeiro. Fiz um pouco de tudo, pois no circo, seja de pequeno, médio ou grande porte o artista, nos bastidores tem que aprender a fazer várias coisas, inclusive ser vendedor de produtos fabricados no próprio circo, como pipoca, cachorro quente, amendoim e tantos outros produtos. Cada um dá sua parcela de contribuição como uma grande família”.

{n}Vida nômade{/n}

“O circo não passava muito tempo numa praça (cidade) e com isso a gente conheceu muitas cidades. A maior dificuldade do artista é com o estudo das crianças que tem que se inscrever na escola em uma cidade diferente a cada mês. Não saberia te dizer por quantas cidades passei ao longo dessas décadas todas como artista. Hoje estou sossegado morando num sobrado, mas não deixei minhas origens. Tenho uma empresa de entretenimento chamada Circo Teatro Rabanete onde faço apresentações em festas ou lojas comerciais, mas só trabalho com minha família, que além do Rabanete tem o Beterraba, o Berinjela e o Cenourinha”.

{n}Ladrão de mulher{/n}

“Essa história de que o palhaço é ladrão de mulher tem fundamento. Nos tempos áureos quando o circo chegava numa cidade os artistas, principalmente, os palhaços eram muito assediados e alguns acabavam se envolvendo com mulheres das cidades que passavam a acompanhar o circo. Muitas deixavam o conforto de suas casas e com casamentos marcados para ir viver com os palhaços em cômodos de lona. Por essa razão se diz que o palhaço é um ladrão de mulher. A minha eu não roubei, encontrei no circo mesmo”.

{n}Imprevistos circenses{/n}

“Se eu falar aqui todos os imprevistos que passei no circo daria para escrever mais do que um livro. No circo não existe monotonia e a todo momento está acontecendo um fato inusitado. Já vi o circo inteiro ser levado por vendaval, animais atacando domadores ou artistas se acidentando com gravidade. Espetáculos com público acima da própria capacidade do circo ou a total falta dele. È doloroso para o artista ver o circo vazio, mas tem que enfrentar e fazer o número como se estivesse lotado. A vida no picadeiro é mágica, fascinante, mas muito difícil. O artista circense sempre vive a temporada atual sem ter idéia onde vai viver na temporada seguinte”.

{n}Circo de animais{/n}

“Já trabalhei em circos que tinham animais como atração, mas eu nunca aceitei trabalhar com animais no picadeiro e olhe que já tive contratos com grandes circos como Orlando Orffei, Circo Di Roma, Medrano, América, Robatinni, Circo Wolf, Circo Stankowich, entre outros, até montar o Circo Teatro Rabanete nos anos 60, que tinha atrações circenses e shows com duplas que ficaram famosas como Chitãozinho e Xororó, Cesar e Paulinho, Teodoro e Sampaio, Gilberto e Gilmar ou as mais conhecidas (na época) como Zilo e Zalo, Pedro Bento e Zé da Estrada, Leo Canhoto e Robertinho, Lio e Léu, Jacó e Jacozinho, entre outras”.

{n}Circos acabando{/n}

“Ainda temos grandes circos no Brasil, mas nunca será como antes, nem acredito que o circo irá acabar. Sempre haverá aquele teimoso que vai de cidade em cidade buscar um local para armar a lona, principalmente em cidades de pequeno e médio porte, com um número reduzido de abnegados profissionais apresentando artistas em início ou no final de carreira. Hoje os espetáculos circenses estão ocupando espaço em teatros e televisões e deixando o picadeiro de chão batido”.

{n}Arte de fazer rir{/n}

“Muitas vezes o palhaço que faz o público rir está chorando por dentro vivendo um drama pessoal que não pode demonstrar. Entra no picadeiro e tem que fazer o público rir. Ninguém quer saber se o palhaço está com dor de dente, se está com a coluna atacada ou se tem um filho ou parente próximo com uma enfermidade grave. Ele tem que fazer rir, mesmo se estiver chorando por dentro. Essa é a missão que nos foi confiada por Deus”.