Centenas de botucatuenses fazem homenagem a Tinoco

“Foi uma das maiores emoções da minha vida”. Disse José Perez ou, simplesmente, Tinoco, um dos maiores cantores sertanejos do Brasil, ao ser homenageado em Botucatu neste domingo (4) e que completou, recentemente, 91 anos de idade, sendo 75 deles dedicados a musica. Ao lado do irmão Tonico fez a mais duradoura dupla sertaneja da música raiz. O homenageado é nascido no Município de Botucatu, especificamente, no Bairro do Guarantã, que hoje pertence a Pratania.

Cerca de 1.700 pessoas, entre amigos e fãs estiveram presentes na homenagem que teve início ? s 10 horas com a 17ª Missa Sertaneja celebrada pelo Padre Orestes Gomes, na Igreja Nossa Senhora Menina, na Vila Maria. Impagável a cena em que a madrinha dos sertanejos, Inezita Barroso, entrou na igreja, cantando um dos seus maiores sucessos: “Lampião de Gás”. A entrada de Inezita causou grande comoção na igreja.

“Participar dessa homenagem a Tinoco é gratificante para qualquer artista. Eu que o conheço há tanto tempo e por inúmeras vezes o apresentei em meus programas com seu irmão Tonico, não poderia deixar de estar presente em Botucatu, cidade por quem tenho um carinho todo especial e muitos amigos. Por tudo que foi, que é, e o que será, o Tinoco merece tudo isso e muito mais. Acho que a dupla Tonico e Tinoco foi o que de mais importante aconteceu na história da música sertaneja brasileira”, disse Inezita. Após o término da missa aconteceu a “queima do alho” com almoço caipira e renda total revertida ao Tinoco.

O fotógrafo e cinegrafista David Devidé que tem um extenso acervo sobre a vida de Tinoco, com entrevistas e filmagens, falou sobre a homenagem. “Podemos dizer que Botucatu viveu um dia muito especial com essa homenagem prestada a Tinoco. Eu que tenho acompanhado a trajetória do cantor como fã e amigo há muitos anos me senti gratificado vendo minha cidade rendendo homenagens a esse cidadão brasileiro que muito fez pela nossa música raiz. Estou feliz vendo ele feliz”, colocou Devidé.

Ramiro Viola que faz dupla com Pardini, um dos organizadores do evento, salientou que foi prestada uma homenagem ao maior representante da verdadeira música raiz do Brasil. “Foi um dia inesquecível e ele merece isso, por tudo que fez pela nossa música”, colocou Ramiro Viola.

{n}Drama do cantor{/n}

Em entrevista ao {n}Jornal Acontece{/n}, o cantor lembrou momentos marcantes da carreira. Disse que não guardou dinheiro e sempre procurou ajudar as duplas do em início de carreira, que vinham do interior e não tinham dinheiro para comer ou local para dormir. “Acolhi muita gente, que chegava com uma mão na frente e outra pra trás, mas não vamos falar em nomes, não adianta”, disse. “Quem gostava de dinheiro era o Tonico, eu não. Tudo o que eu ganhava era pros amigos, pra família. Dinheiro foi feito pra ajudar o próximo e não guardei quase nada. Quando o Tonico morreu um pouco de mim foi com ele”, emenda.

Ele falou da carreira. “A gente mal sabia ler e escrever e rodava o Brasil inteiro pra divulgar o trabalho e fazia as “moda” que saísse do coração, em cima dos “tema” da vida. A gente passava fome em viagens, bebia água do rio, dormia ao relento. Naquela época não tinha nem estrada, a gente ia de trem, de canoa, de carro-de-boi, mas a gente era feliz. Era Deus que colocava e tirava a gente dos “lugar”. Foi assim por muito tempo até que deu uma melhorada na situação, mas nunca “fomo” rico, não. Nossa riqueza era a música”, diz.

A morte da esposa, que lutou muitos meses contra um câncer, foi a maior perda do cantor. “Foi muito dolorido superar tudo. Fiquei endividado com muito empréstimo no banco. O tratamento era muito caro, mas o pior foi a dor no coração, a dor de perder minha companheira, com quem vivi junto quase 60 anos. Se lágrima fosse dinheiro, eu “tava” rico, mas lágrima não paga dívida. Tive que arregaçar as “manga” e trabalhar mais. Tenho minha aposentadoria, tenho ganho com direitos autorais (das músicas) e ainda faço shows. Então, a gente vai levando”.

{n}Filho e empresário{/n}

Não há dúvida de que José Perez, ou, simplesmente, Tinoco é um dos maiores expoentes da cultura popular brasileira e ainda tem boa saúde, mas conta com uma agenda com poucos registros de shows e participações em programas de tevê. Quando Tonico, seu companheiro de palco (e irmão) morreu, em 1994, as pessoas se esqueceram que um dos integrantes da dupla continuou vivo e precisando de trabalho na carreira solo. Com isso, o cantor ficou em uma situação difícil, que piorou ainda mais quando teve que pagar os custos do tratamento de câncer de sua mulher Nadir, que morreu em 13 de setembro de 2010.

José Carlos Perez, filho único de Nadir com Tinoco, que acumula as funções de motorista, empresário e operador de som, diz que apesar de tudo, o cantor tem uma vida financeira estável e goza de excelente saúde. “Ele não está na miséria e vive de sua aposentadoria, direitos autorais e shows, que ainda faz. A situação da família ficou dramática por causa dos constantes gastos com o tratamento de câncer de minha mãe, que era muito caro. O plano de saúde estava em carência e não achamos esse remédio nas farmácias do Governo. Por isso, tivemos a idéia de fazer o projeto ‘Ação entre Amigos’, que rifou meu único carro, para ajudar naquele momento crítico do tratamento”, lembra Perez.

E o filho de Tinoco salienta a carência de shows. “Apesar de Tonico ter morrido em 1994, as pessoas ainda lembram-se de meu pai somente na dupla Tonico &Tinoco. Sem contar que, depois de certa idade, diminuem os convites para shows, porque as pessoas preferem contratar artistas bem mais jovens. O cachê dele diminuiu em 70%. Dez espetáculos que ele faz hoje equivalem ao valor de um único show, antes de 1994″, contou.

João Salvador Peres e João Peres, ou Tonico & Tinoco, foi uma dupla sertaneja brasileira, considerada a mais importante da história da música brasileira e a de maior referência. Em 60 anos de carreira, Tonico e Tinoco realizaram quase 1000 gravações, divididas em 83 discos. As gravadoras a que eles pertenceram já lançaram no mercado um total de 60 discos. Tonico e Tinoco venderam milhões de cópias, realizando cerca de 40.000 apresentações em toda a carreira.

Fotos: David Devidé