Capa Prever FM

Prever FM

Estudo analisou dados de mais de 279 mil brasileiros e identificou que pessoas que avaliaram a saúde bucal como ruim apresentaram duas vezes mais chances de relatar a doença

Uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu (FMB) identificou uma associação importante entre as condições de saúde bucal e a doença renal crônica (DRC). Pessoas que relataram uma saúde bucal ruim apresentaram cerca de duas vezes mais chances de ter a doença renal quando comparadas àquelas que avaliaram a condição da boca como boa.

As informações foram divulgadas pelo Jornal da Unesp nesta quarta-feira (26). O trabalho integra o doutorado de Lilian de Oliveira Silva Macêdo, no Programa de Pós-Graduação em Fisiopatologia em Clínica Médica da FMB. A pesquisa é orientada pelo médico nefrologista Luis Gustavo Modelli de Andrade, docente do programa e chefe do setor de transplante renal do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde. Foram analisadas informações de 279.382 brasileiros, representando, de forma ponderada, uma população superior a 209 milhões de pessoas.

Saúde bucal ruim dobra as chances

Na comparação com pessoas que classificaram a própria saúde bucal como boa, aquelas que a consideraram regular apresentaram 1,63 vez mais chances de relatar doença renal crônica.

Entre os participantes que avaliaram a saúde bucal como ruim, a chance foi 2,02 vezes maior, mesmo depois de ajustes estatísticos envolvendo fatores como idade, sexo e comorbidades, entre elas hipertensão e diabetes. Os resultados foram publicados na revista científica BMC Public Health.

Outros aspectos relacionados à boca também foram avaliados. Pessoas que relataram perda de dentes superiores e inferiores apresentaram chance 30% maior de ter DRC. Já aquelas com dificuldade intensa ou muito intensa para se alimentar devido a problemas bucais tiveram aproximadamente o dobro de chance de apresentar a doença.

A frequência da higiene bucal também apareceu na análise. Segundo o estudo, quem relatou escovar os dentes três vezes ao dia apresentou uma redução de até 66% na chance de ter doença renal crônica, associação que aponta a higiene bucal como possível fator de proteção.

Relação ainda precisa ser aprofundada

Apesar dos resultados, os pesquisadores destacam que o estudo aponta uma associação e ainda não permite afirmar que problemas bucais sejam diretamente responsáveis pelo desenvolvimento da doença renal.

Segundo Luis Gustavo Modelli de Andrade, os resultados levantam a possibilidade de uma relação de causa e efeito, mas novos estudos serão necessários para confirmar essa hipótese. A pesquisa, entretanto, já deverá influenciar o acompanhamento realizado pelo serviço, que passará a considerar a saúde bucal como uma variável na avaliação de pacientes com DRC.

Acesso ao dentista também preocupa

O levantamento também mostrou dificuldades no acesso ao atendimento odontológico. Entre os entrevistados, 49,4% haviam procurado um dentista no último ano, enquanto 42,8% estavam há mais de um ano sem consulta e 7,7% afirmaram nunca ter passado por avaliação de um especialista.

Entre aqueles que receberam atendimento odontológico, apenas 22,6% utilizaram serviços públicos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a importância de aproximar o acompanhamento da saúde bucal do tratamento de doenças crônicas, principalmente por meio de prevenção, orientação sobre higiene e acesso ao atendimento odontológico.

A doença renal crônica provoca perda progressiva e irreversível do funcionamento dos rins e costuma ser silenciosa em suas fases iniciais. Hipertensão arterial e diabetes estão entre seus principais fatores de risco.

Veja mais

Oferecimento

Apoiadores