Diretor da unidade, Cláudio Lucas Miranda, explicou em entrevista à Prever FM as alterações estabelecidas pelo Ministério da Saúde, que ampliam as possibilidades de doação e atualizam critérios de segurança.

O Hemocentro do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB) já está seguindo as novas regras para doação de sangue estabelecidas pelo Ministério da Saúde, que entraram em vigor em 30 de setembro. As mudanças envolvem critérios de idade, procedimentos estéticos, exames médicos, uso de medicamentos e condições de saúde que podem interferir na liberação dos doadores.
As alterações foram detalhadas pelo médico Cláudio Lucas Miranda, diretor do Hemocentro de Botucatu, durante entrevista ao programa Primeiro Jornal, da Prever FM. Segundo ele, a atualização da regulamentação acompanha os avanços tecnológicos registrados nos últimos anos e busca ampliar o número de pessoas aptas a doar, sem comprometer a segurança das transfusões.
O médico explicou que a legislação anterior estava em vigor desde 2017 e que a nova portaria trata especificamente do ciclo do sangue, desde a seleção dos doadores até o processamento e a liberação dos hemocomponentes utilizados nos pacientes.
A regulamentação foi publicada em julho, permitindo que os hemocentros brasileiros tivessem um período de adaptação antes da entrada em vigor das novas exigências.
Tatuagens e procedimentos estéticos têm redução no prazo de espera

Uma das principais alterações envolve pessoas que fizeram tatuagens, colocaram piercings ou passaram por procedimentos como micropigmentação e aplicações estéticas.
Até então, o período de impedimento para a doação era de seis meses. Com a nova regulamentação, o prazo geral caiu para quatro meses, podendo ser reduzido para apenas sete dias quando o procedimento é realizado em estabelecimento com alvará da Vigilância Sanitária e são atendidos os critérios de segurança exigidos.
Durante a entrevista, Cláudio Lucas Miranda explicou que a comprovação da regularidade do estabelecimento será importante para a avaliação do candidato à doação.
“Normalmente os alvarás de vigilância sanitária ficam afixados em locais visíveis nos estúdios. Então ele teria que bater uma foto desse alvará e levar pra gente”, explicou.
O diretor ressaltou que, caso o candidato não consiga comprovar a regularidade do estabelecimento, será aplicado o prazo de quatro meses.
“Se houver qualquer dúvida da nossa parte ou ele não conseguir comprovar que aquele estúdio de fato tem esse alvará da vigilância, a gente vai colocar aí uma inaptidão para 4 meses conforme determina a portaria”, afirmou.
Segundo o médico, a redução dos prazos foi possível graças à evolução dos procedimentos de triagem e dos exames realizados nas bolsas de sangue.
Doadores poderão continuar após os 69 anos

Outra mudança importante envolve a idade máxima para doação. Pelas novas regras, pessoas que já possuem histórico de doações poderão continuar doando mesmo após completar 69 anos, desde que sejam consideradas aptas em avaliação médica individual.
O diretor explicou que o Hemocentro de Botucatu conta com profissionais responsáveis por analisar as condições de saúde desses candidatos.
“A gente tem a nossa própria equipe médica que faz essa avaliação desse potencial doador”, disse.
A liberação depende da análise clínica, considerando as condições individuais e a segurança do procedimento. Para quem pretende doar pela primeira vez, permanecem os limites etários estabelecidos na regulamentação.
Endoscopia, colonoscopia e viagens também entram nas mudanças
Pessoas que realizaram exames como endoscopia e colonoscopia tiveram o período de impedimento temporário reduzido de seis para quatro meses.
Outra alteração envolve viagens para regiões com transmissão de malária, especialmente determinadas áreas das regiões Norte e Centro-Oeste.
Segundo Cláudio Lucas Miranda, o período de espera após o retorno dessas localidades, que anteriormente era de três meses, passou para 30 dias nas situações previstas pela nova regulamentação.
O diretor também explicou que a investigação laboratorial da malária passou a integrar obrigatoriamente os procedimentos de segurança dos serviços de hemoterapia.
As mudanças estão relacionadas ao aprimoramento dos métodos de identificação de doenças transmissíveis pelo sangue.
Uso de canetas emagrecedoras não impede automaticamente a doação

O uso de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras, incluindo os análogos de GLP-1 e GIP, também foi abordado durante a entrevista.
De acordo com o diretor, pessoas que utilizam esses medicamentos exclusivamente para emagrecimento podem ser consideradas aptas à doação, desde que atendam aos demais critérios clínicos.
Entretanto, o motivo do tratamento precisa ser informado durante a triagem, especialmente quando existe diagnóstico de diabetes.
“Sempre que temos um doador ou potencial doador em uso de canetas emagrecedoras, a pergunta crucial é: você está usando essa caneta exclusivamente para questões de emagrecimento?”, explicou.
O médico destacou que o uso do medicamento, isoladamente, não determina a aptidão. A equipe também precisa avaliar as condições de saúde do candidato, eventuais efeitos adversos e a doença que motivou a prescrição.
O uso de anabolizantes e esteroides também foi mencionado como uma das situações que exigem atenção durante a triagem clínica.
Segurança das transfusões foi prioridade na elaboração das regras
Apesar da flexibilização de diferentes critérios, Cláudio Lucas Miranda ressaltou que a segurança dos pacientes que recebem transfusões continuou sendo a principal preocupação do Ministério da Saúde.
Segundo ele, a atualização foi discutida durante aproximadamente dois anos pela rede de serviços de hemoterapia, levando em consideração os avanços científicos e tecnológicos.
“O maior quesito considerado na publicação dessa nova portaria foi de fato a segurança transfusional”, destacou.
O diretor explicou que os exames laboratoriais estão cada vez mais avançados, permitindo maior precisão na investigação de agentes infecciosos presentes no sangue coletado.
Em Botucatu, segundo ele, o processamento das doações inclui exames especializados, como o NAT, utilizado na investigação de infecções transmissíveis pelo sangue.
O médico também reforçou a importância da sinceridade durante a entrevista realizada antes da coleta.
“O momento da triagem clínica é talvez o momento mais importante da doação de sangue”, afirmou.
Nessa etapa, profissionais capacitados fazem perguntas sobre condições de saúde, uso de medicamentos, procedimentos recentes e possíveis situações de exposição a infecções.
O objetivo é proteger tanto quem está doando quanto os pacientes que poderão receber o sangue.
Embora as bolsas passem por exames laboratoriais, a avaliação clínica continua sendo indispensável, pois os testes não eliminam todos os riscos associados à omissão de informações.
Hemocentro espera ampliar participação da população

A expectativa é que as novas regras contribuam para aumentar o número de pessoas que podem doar sangue e, consequentemente, melhorar a manutenção dos estoques.
Durante a entrevista, o diretor apresentou dados sobre a participação da população brasileira nas doações.
“Hoje a gente sabe que para ter segurança nos estoques, a gente teria que ter em torno de 4% da população fazendo a doação de sangue”, afirmou.
Segundo Cláudio Lucas Miranda, a participação atual está próxima de 1,8%, percentual que considera insuficiente para garantir maior tranquilidade aos serviços de hemoterapia.
O médico avaliou que a atualização dos critérios poderá contribuir para ampliar esse índice, especialmente em períodos de maior necessidade.
“Estamos divulgando essas informações para tentarmos sair de 1,8% de doadores e talvez chegar a 3% ou 4% da população, dando uma segurança melhor para os nossos estoques, principalmente no final do ano que se aproxima”, declarou.
Intervalos entre as doações permanecem
Apesar das mudanças nos critérios de seleção, os intervalos mínimos entre as doações continuam os mesmos.
Homens podem doar sangue a cada dois meses, respeitando o limite de quatro doações por ano. Para mulheres, o intervalo mínimo permanece em três meses, com limite de três doações anuais.
Pessoas de 16 e 17 anos também podem doar, desde que tenham autorização dos responsáveis legais.
Todos os candidatos passam por avaliação clínica antes da coleta, e a aptidão depende do cumprimento dos critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde.
Onde doar sangue em Botucatu
O Hemocentro funciona no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu e recebe doadores durante a semana e aos sábados.
- Local: Sala de coleta do Hospital das Clínicas de Botucatu.
- Segunda a sexta-feira: das 8h às 16h30.
- Sábados: das 7h às 12h.
- Telefone: (14) 3811-6041.
Os interessados podem entrar em contato com a unidade para esclarecer dúvidas sobre os novos critérios, especialmente em situações envolvendo medicamentos, doenças preexistentes ou procedimentos médicos recentes.
Com a atualização das regras, o Hemocentro de Botucatu busca ampliar o acesso à doação e reforçar os estoques de sangue, mantendo a avaliação individual dos candidatos e os procedimentos necessários para garantir a segurança das transfusões.
Fonte: entrevista com Cláudio Lucas Miranda, diretor do Hemocentro do HCFMB, ao Primeiro Jornal, da Prever FM, e informações do Ministério da Saúde.