28 janeiro 2026
Pesquisadores reunidos na Unesp de Botucatu alertam para avanço da resistência do fungo causador da aspergilose e defendem políticas públicas inéditas de prevenção

O uso crescente de fungicidas agrícolas no Brasil está no centro de um alerta que preocupa pesquisadores da área da saúde e do meio ambiente. O fungo Aspergillus fumigatus, responsável pela aspergilose invasiva — uma infecção grave que atinge principalmente pessoas imunossuprimidas — vem desenvolvendo resistência aos poucos medicamentos antifúngicos disponíveis atualmente, colocando em risco tratamentos médicos considerados essenciais.
Hoje, existem apenas quatro classes de antifúngicos no mercado. Diante desse número limitado, o surgimento de linhagens resistentes pode trazer consequências severas para a saúde pública global nos próximos anos.
Essa preocupação resultou na elaboração do Documento de Botucatu, uma moção científica aprovada em dezembro de 2025 durante uma reunião plenária realizada na Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, em Botucatu. O encontro reuniu 51 especialistas, sendo 21 pesquisadores estrangeiros. Um dos principais articuladores da iniciativa é o engenheiro agrônomo e fitopatologista Paulo Ceresini, da Faculdade de Engenharia da Unesp de Ilha Solteira.
O documento apresenta recomendações para enfrentar a resistência antifúngica no Brasil e no mundo, fundamentadas no conceito de One Health (Uma Só Saúde), que entende a saúde humana como indissociável da preservação ambiental e do equilíbrio entre as espécies.
A base científica do documento é um artigo assinado por Ceresini como primeiro autor e publicado recentemente na revista especializada One Health. O estudo aponta que o Brasil figura entre os maiores consumidores globais de fungicidas agrícolas, especialmente os da classe dos triazóis. Esses compostos vêm sendo amplamente aplicados nas lavouras há cerca de 30 anos e, ao mesmo tempo, constituem a principal linha de tratamento contra infecções fúngicas graves em humanos.
Segundo os pesquisadores, a exposição contínua do Aspergillus fumigatus aos triazóis no ambiente agrícola funciona como uma pressão seletiva. As linhagens sensíveis aos fungicidas são eliminadas, enquanto aquelas que apresentam mutações genéticas naturais capazes de garantir resistência sobrevivem e se multiplicam. O resultado é o aumento da circulação de fungos resistentes a medicamentos que antes eram eficazes.
Fora do meio agrícola, o A. fumigatus pode ser identificado como uma mancha de coloração verde-acinzentada, com aspecto aveludado. Diferentemente da maioria dos fungos, ele se adapta bem a ambientes secos, o que explica sua presença em locais como dutos de ar-condicionado. Seus esporos são pequenos, leves e facilmente dispersos pelo ar, tornando-o um contaminante comum em ambientes fechados, como escritórios e hospitais. Na natureza, também é encontrado em matéria orgânica em decomposição.
Na maior parte dos casos, o fungo é inofensivo. A inalação diária de seus esporos é comum e normalmente não causa problemas em pessoas saudáveis. No entanto, em indivíduos com o sistema imunológico comprometido — como transplantados, pacientes com leucemia ou pessoas que tiveram covid-19 — a aspergilose pode evoluir rapidamente e levar à morte.
Estimativas indicam que o Aspergillus fumigatus seja responsável por cerca de 600 mil mortes por ano em todo o mundo. O cenário pode se agravar caso as linhagens resistentes passem a afetar também pessoas sem comorbidades.
No Brasil, dados apresentados durante o encontro em Botucatu mostram um crescimento expressivo dos casos fatais: aproximadamente 200 mortes em 2022, contra 800 em 2024. No mesmo período, o consumo de triazóis na agricultura saltou de 20 mil para 160 mil toneladas anuais desde a introdução dessa classe de fungicidas no início dos anos 2000.
“A correlação não comprova causalidade, mas é um sinal de alerta muito importante”, resume Ceresini.
Documento propõe medidas inéditas de enfrentamento
O Documento de Botucatu representa um consenso científico inédito sobre o tema. Entre as principais recomendações estão a coleta sistemática e auditável de dados sobre resistência antifúngica, com acesso público às informações, e a criação de um sistema nacional de monitoramento para detectar a presença de fungos resistentes no ar e no solo.
“Hoje não existe um sistema desse tipo, nem no Brasil nem em outros países. O documento é um marco nesse sentido”, destaca Ceresini.
A moção também sugere que agências reguladoras passem a exigir avaliações de risco mais rigorosas antes da liberação de produtos agrícolas que possam estimular resistência a medicamentos usados na medicina humana. Além disso, defende a ampliação da capacidade dos hospitais para diagnosticar infecções fúngicas e identificar resistência aos antifúngicos, bem como a realização de campanhas educativas voltadas a agricultores, profissionais da saúde, estudantes e à população em geral.
Atualmente, os Ministérios da Saúde, do Meio Ambiente e da Agricultura e Pecuária trabalham na elaboração da nova edição do Plano Nacional de Enfrentamento da Resistência Antimicrobiana (PANBR), que irá orientar as políticas públicas do setor pelos próximos cinco anos. Os pesquisadores reunidos em Botucatu defendem que, desta vez, a resistência antifúngica — historicamente negligenciada — seja tratada de forma clara e objetiva no documento.
O Documento de Botucatu foi publicado no âmbito do Failsafe, uma parceria internacional voltada ao enfrentamento da resistência a antifúngicos, financiada pela agência britânica UK Research and Innovation (UKRI). A iniciativa busca fortalecer a capacitação de pesquisadores em países de baixa e média renda.
O Conselho de Pesquisa Médica da UKRI escolheu Paulo Ceresini para liderar a frente brasileira do projeto, justamente por sua formação em agronomia e fitopatologia. O financiamento, aprovado em apenas três meses, totalizou £ 250 mil, permitindo a contratação de três pós-doutorandos, dois doutorandos, dois mestrandos e uma estudante de iniciação científica.
A equipe contou com a participação de docentes da Unesp nos câmpus de Dracena, Ilha Solteira, Jaboticabal e Botucatu, além de pesquisadores da UFSCar, câmpus Lagoa do Sino, e parcerias com produtores agrícolas para a realização das coletas no estado de São Paulo.
Durante um ano, os pesquisadores realizaram amostragens em diferentes regiões paulistas. Os resultados ainda não foram publicados, pois a equipe está na fase final de análise e sequenciamento do DNA das linhagens do fungo, processo que deve ser concluído até fevereiro. Trabalhos semelhantes foram realizados em paralelo por pesquisadores das universidades de Manchester, no Reino Unido, e da Geórgia, nos Estados Unidos.
“Dediquei os últimos vinte anos ao estudo da resistência a antifúngicos na agricultura, nunca tinha trabalhado diretamente com patógenos humanos”, relata Ceresini. “Mas era exatamente essa intersecção que o projeto buscava.”
O protagonismo de um agrônomo em uma pesquisa de impacto direto na saúde pública reforça a importância da abordagem One Health. Diante de desafios como a resistência a antibióticos e o avanço de doenças transmitidas por vetores, pesquisadores alertam que compreender a relação entre seres humanos, ambiente e outros organismos vivos deixou de ser uma escolha — tornou-se uma necessidade.
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