Uso excessivo de celular é comparado a compulsão

Estudos apontam que uso de eletrônicos em excesso eleva risco até mesmo de transtornos como ansiedade, depressão e TOC

Úteis e divertidas, as tecnologias digitais, por si sós, não são vilãs. Porém, sem o entendimento sobre a necessidade de controle quanto ao uso de dispositivos como smartphones e tablets, o que era para trazer benefícios pode se transformar em um grande problema.

O uso excessivo das denominadas telas portáteis tem chamado a atenção da comunidade científica e termos como “intoxicação digital” já começam a aparecer nos estudos relacionados ao tema. Em algumas destas pesquisas, inclusive, o comportamento humano ao lidar com estes equipamentos tem sido comparado a compulsões, tal como o alcoolismo, a dependência química ou a jogatina.

“O nível médio de acesso a telas é bem intenso e isso leva ao aumento até mesmo ao risco de desenvolvimento de transtornos mentais, como a ansiedade, a depressão e o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Sem o celular, estas pessoas se sentem desamparadas”, comenta a neuropsicóloga Maria de Lourdes Merighi Tabaquim, professora do curso de fonoaudiologia da FOB/USP e de pós-graduação do Centrinho.

Segundo ela, o ‘vício’ em celular afeta pessoas de todas as idades, mas crianças, cujos organismos ainda não estão plenamente desenvolvidos, podem sofrer prejuízos específicos, como atraso no desenvolvimento cognitivo e até alterações na atividade de algumas regiões cerebrais, por efeito de ondas eletromagnéticas. “Estas pesquisas sobre danos físicos não são totalmente conclusivas, mas nos dá a dimensão do risco da exposição excessiva a telas portáteis”, detalha.

1,5 mil vezes

Em 2014, por exemplo, a revista Ciência e Tecnologia realizou um levantamento com mais de 2 mil estudantes entre 14 e 16 anos. No estudo, quatro em cada 10 admitiram que se sentiam perdidos quando ficavam sem celular. E, em média, o grupo pesquisado acessava o celular por 1.500 vezes em uma semana, totalizando 3 horas 16 minutos de uso por dia – o que equivale a quase 24 horas a cada semana.

A professora também cita estudos que apontam que o nível de hospitalização de jovens por transtornos mentais tem crescido nos últimos anos – e uma das causas apontadas é a superexposição aos eletrônicos. Esta, também, tem sido elencada como fator de risco para a propensão ao suicídio entre os jovens.

“Além disso, o acesso fácil a um grande volume de informações pode comprometer a capacidade das pessoas, em geral, de exercitar a memória, o nível de atenção e concentração e a habilidade de pensar o mundo de maneira crítica. Há prejuízo, ainda, para as relações interpessoais e, quando o contato com as mídias chega a níveis extremos, até mesmo para a capacidade de exercitar a empatia”, detalha.

Como antídoto para não ser mais uma vítima do lado negativo das novas tecnologias, a neuropsicóloga orienta as pessoas a reorganizar hábitos e vigiar impulsos para, em um esforço consciente, conseguir retomar o controle sobre o uso destes dispositivos. “A tecnologia deve nos servir e não nos tornar dependente dela. É preciso começar a pensar na qualidade da nossa saúde mental”, completa.

“Já deixei de viajar pelo mesmo motivo em outra ocasião. E jamais cogito a possibilidade de ficar em um lugar sem sinal de Internet. Sem celular, parece que eu não existo. Tenho pavor de ficar sem. Fico desesperada, de mau humor”, revela ela, ‘viciada’ assumida em acessar a Internet.

O smartphone acompanha Mariana nas 24 horas do dia. Verificar mensagens e entrar em redes sociais, inclusive, são sua primeira e última atividades do dia. “Mesmo com sono, eu deixo de dormir para mexer no celular”, revela.

Reclamações

A dependência, ela confessa, já gerou reclamações até mesmo da filha, de 9 anos de idade. Embora a criança também permaneça por períodos prolongados exposta a telas portáteis, Mariana diz que precisa “sair do modo automático” para dar atenção à pequena.

“Muitas vezes, percebo que estou falando com ela, mas olhando para o celular. Então, normalmente, quando volto do trabalho, combino que vou ficar por uma hora na Internet para fazer tudo o que eu preciso. Depois, a gente passa um tempo juntas”, finaliza.

Fonte JCNet