Uso de fungicidas agrícolas pode comprometer tratamentos contra infecções graves em humanos, aponta estudo de Botucatu

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Uso de fungicidas agrícolas pode comprometer tratamentos contra infecções graves em humanos, aponta estudo de Botucatu 01 fevereiro 2026

Documento de pesquisadores reunidos na UNESP alerta para resistência do fungo Aspergillus fumigatus aos poucos antifúngicos disponíveis

O uso intensivo de fungicidas na agricultura pode estar comprometendo a eficácia de medicamentos utilizados no tratamento de infecções graves em humanos. O alerta foi divulgado pelo Jornal da Unesp, com base em um documento científico elaborado por pesquisadores brasileiros e internacionais reunidos na Unesp.

De acordo com o estudo, o problema está relacionado ao aumento da resistência do fungo Aspergillus fumigatus aos antifúngicos disponíveis para uso clínico. Esse microrganismo é comum no ambiente e pode causar a chamada aspergilose invasiva, infecção potencialmente fatal, especialmente em pacientes com o sistema imunológico comprometido.

A preocupação com o tema motivou o Documento de Botucatu, uma moção pública de alerta aprovada em dezembro de 2025 durante um encontro entre 51 especialistas, 21 deles estrangeiros, na Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, em Botucatu (SP). Um dos líderes dessa iniciativa é o engenheiro agrônomo Paulo Ceresini, especialista em fitopatologia da Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira (SP).

Os pesquisadores apontam que a exposição contínua do fungo a determinados fungicidas agrícolas, em especial os da classe dos triazóis, favorece a seleção de linhagens resistentes. Como consequência, esses mesmos fungos passam a não responder adequadamente aos medicamentos utilizados em hospitais, reduzindo as chances de sucesso no tratamento.

Segundo dados apresentados durante o encontro, a aspergilose ganhou força no Brasil nos últimos anos — foram cerca de 200 vítimas fatais em 2022 versus 800 em 2024 —, o que acompanha uma tendência observada internacionalmente. O uso de triazóis na agricultura brasileira também subiu de 20 mil toneladas anuais para 160 mil toneladas desde a introdução dessa classe de fungicidas no começo dos anos 2000.

“A correlação não prova causalidade, obviamente, mas ela é um sinal de alerta importante”, resume Ceresini. 

O levantamento destaca ainda que existem apenas quatro classes de antifúngicos eficazes atualmente disponíveis, o que torna o avanço da resistência um fator de grande preocupação para a saúde pública. Segundo o documento, o cenário pode resultar em infecções mais difíceis de tratar e em maior risco de mortalidade.

Conhecido como “Documento de Botucatu”, o material propõe a adoção de políticas públicas voltadas ao monitoramento da resistência antifúngica no meio ambiente, além de uma avaliação mais criteriosa do uso de fungicidas na agricultura. Entre as recomendações estão a criação de sistemas de vigilância e a integração entre os setores da saúde e da produção agrícola.

O estudo reforça a necessidade de ações coordenadas para conter o avanço da resistência antifúngica e preservar a eficácia dos tratamentos disponíveis para infecções humanas graves.

Fonte: jornal da Unesp

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