Pandemia, coletividade e imprevisibilidade

Por Luciana Queiroz 

A atual situação mundial configura um registro peculiar na existência humana. Ninguém nunca vivenciou nessa geração um conflito coletivo nessa magnitude. Ao longo da vida, experimentamos perdas, separações, lutos e adversidades complexas, então, acionamos inconscientemente mecanismos de defesa e de enfrentamento individuais.

No entanto, neste momento, mergulhados e identificados num sofrimento coletivo, somos convidados à introspecção; mesmo não focando em nossa história, questões internas estão vindo à tona, muitas vezes acessadas através de conteúdos de filmes, livros, pensamentos ou recordações.

Se faz necessário compreender, permitir e acolher as manifestações das emoções em nosso psiquismo, Sentimentos de insegurança, medo, raiva, desânimo e preocupação em excesso são inerentes à pandemia e às incertezas oriundas dela.

Acostumados a viver de expectativas diante de programações prévias, repentinamente nos foi tolhido o direito de escolha. Não há como marcar viagens, festas, encontros, passeios; estamos sem datas e previsões do que ocorrerá.

Irvin Yalom, psiquiatra e escritor americano (autor de “Quando Nietzsche chorou”), em seu livro “ De frente para o Sol”, aborda a questão da finitude. Relata como a imprevisibilidade da vida e o medo da morte ativa construções de fantasias no imaginário humano. A angústia frente ao desconhecido tal qual a morte, é um sentimento pertencente à coletividade.

Inegavelmente , diante do quadro, nos foi dada a grande oportunidade de transformações e inovações em nosso funcionamento psíquico, por exemplo o aumento da capacidade de resiliência e autopreservação.

Do ponto de vista da neurociência, estamos em processo de desenvolvimento de diferentes conexões neuronais, advindas de experiências como o isolamento, confinamento, além de novas habilidades relacionadas à condicionamentos agora exigidos (atenção e cuidados com o uso da máscara, gel, higienização das mãos e objetos, manter distância das pessoas).

É importante que cada um saiba reconhecer suas limitações, necessidades e possibilidades. Portanto, que possa identificar quando precisa de ajuda profissional a fim de organizar essa avalanche de aspectos interligados psiquicamente.

LUCIANA QUEIROZ, Atua como psicóloga clínica em Botucatu há 22 anos, graduada na Unesp/Assis, Aprimoramento Profissional Unesp/Botucatu, Formação em Psicoterapia Dinâmica Breve Unesp/Bauru, Extensão em Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientae em São Paulo.