O túmulo do rock’n’roll

Por Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza

Um dos fenômenos culturais mais peculiares do mundo pré-pandêmico foi a exaltação de slogans contendo palavras como “liderança”, “empreendedorismo”, “meritocracia”. Abordar esses conceitos em termos éticos e culturais está muito além do propósito de meu modesto texto. Mas as urgências diárias me obrigam a catar algumas pérolas nesse vasto oceano.

Com o ocaso dos milenarismos religiosos e ideológicos, novos altares foram erguidos, e inúmeras almas se consagraram aos rituais de autoajuda . Não causa surpresa que a origem desse termo faça referência à dispensa de frentistas em postos de gasolina nos Estados Unidos, que instituiu o autosserviço (literalmente, self-service ).

Como todas as religiões, esta tem suas bíblias, novenas e devocionários. Também suas rupturas e atualizações. No “antigo testamento”, aprendíamos diretamente como fazer amigos e influenciar pessoas. Mas os novos evangelhos têm suas parábolas, apólogos e metáforas: preciso descobrir “quem mexeu no meu queijo”. Como os coelhos, os mitos se reproduzem (“Eu mexi no seu queijo”, “quem mexeu no meu rato?”) e enfrentam heréticos e apóstatas, como aqueles que trocam os livros por um bom naco de gorgonzola.

“No princípio era o Verbo…”, repete-se o Fiat Lux em João (1, 1-14), e mesmo a nova e popular liturgia não ignora a força da palavra . Ainda que esta seja “foda” (termo de origem incerta introduzido na língua portuguesa entre os séculos XVII e XVIII com o sentido de “cópula”). Segue a pregação: A arte sutil de ligar o foda-se, Seja Foda, Enfodere-se… “… e o Verbo estava com Deus, e o verbo era Deus(…) e o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.
So many books so little time … mas resta um espaço para falar da liderança. No novo paraíso seremos todos líderes, empreendedores felizes (quiçá dizimistas) junto aos nossos milionários gurus. E não só no mercado editorial, mas também nas palestras em que fiéis executivos se acotovelam para ouvir lições edificantes, seja de Amyr Klink, Anitta ou do astronauta-ministro Pontes.

Que resta aos infiéis a quem a boa nova não chegou? Aos selvagens que precisam ser catequisados? Os Jesuítas apontaram o caminho, mostrando aos índios as semelhanças entre seus Deuses e os Santos Católicos. Descobrimos que toda forma de rebeldia e espontaneidade refletem tendências (quem diria?) da liderança e do empreendedorismo. Assim, enquanto catamos os cacos da vida em quarentena, podemos nos edificar com o livro de Jamil e Joilson Albuquerque: “Como um Rolling Stone: Entenda a liderança eficaz de Mick Jagger” (Citadel Grupo Editorial. Porto Alegre, 2019). Ali, pelo método exegético do teólogo Napoleon Hill, se revela que nosso Anhangá Roqueiro era de fato um líder beatífico e um apóstolo empreendedor. Pelas palavras se seus autores, “descobriremos como melhorar nossa performance pessoal em uma leitura agradável e instigante”…. e porque não dizer, edificante, beatificante?

Para ajustar a leitura teológica, precisamos de alguns dados históricos. A canção “Like a Rolling Stone” não é da banda homônima, mas do compositor e Prêmio Nobel de Literatura Bob Dylan. A letra ( How does it feel / To be without a home / Like a complete unknown / Like a rolling stone ) fala de alguém no fundo do poço, que se sente inútil como uma pedra que rola. Deve ter um lance de empreendedorismo e liderança, e enfoderamento e queijo, mas essa interpretação é muito complexa para um humilde infiel.

Diz-se que, irritado em um bar da Rua da Consolação, Vinícius de Moraes soltou o famoso e injusto insulto de que “São Paulo é o túmulo do samba”. Discordo, mas uma coisa é certa: a autoajuda é o túmulo do rock .