O Repique da inflação de junho – Por Paulo André de Oliveira

Por Paulo André de Oliveira

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, ficou em 1,26% em junho, maior valor desde 1995, registrando alta em relação aos 0,4% de maio, segundo divulgou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A expectativa é que para o mês de julho a inflação recue para 0,35%.

A inflação pode ser definida como a alta generalizada e contínua dos preços por um determinado período de tempo. O IPCA é considerado o termômetro oficial da inflação no país, pois seu principal objetivo é monitorar a variação nos preços dos produtos de mercado para o consumidor final (varejo).

Por essa razão, é utilizado em muitos reajustes de contratos e negociações salariais. Além disso, as variações do IPCA estão atreladas a outras variáveis importantes da economia brasileira, como a taxa básica de juros e a taxa Selic, que podem refletir diretamente nos investimentos. O IPCA é calculado mês a mês, por meio de uma pesquisa dos preços cobrados efetivamente ao consumidor, em pagamentos à vista. Ela é realizada em estabelecimentos comerciais, domicílios, com prestadores de serviços e concessionárias de serviços públicos entre o 1º e o 30º (ou 31º) dia de cada mês.

Não são todos os produtos e serviços que são pesquisados e nem todos têm a mesma importância para o cálculo da inflação. São atribuídos pesos a cada produto ou serviço que ponderam o índice de inflação. Estes pesos surgem de uma outra pesquisa feita a cada 5 ou 10 anos chamada Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) que verifica como as pessoas gastam a sua renda em diversas categorias. Cada categoria possui um peso diferente no cálculo: alimentação e bebidas (23,12%); artigos de residência (4,69%); transportes (20,54%); comunicação (4,96); despesas pessoais (9,94%); habitação (14,62%); saúde e cuidados pessoais (11,09%); vestuário (6,67%) e educação (4,37%). Assim, se hipoteticamente apenas o grupo de alimentos de bebidas tivesse aumentado 2% em um mês e todos os demais preços não tivessem se alterado, a inflação seria de 0,46% para aquele mês. O IPCA mede a inflação para famílias com renda mensal entre 1 e 40 salários mínimos, que residem nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza e Belém, além do Distrito Federal e da cidade de Goiânia.

A alta do nível de preços ocorre principalmente por excesso de demanda ou por redução da oferta. Em junho, tivemos redução de oferta por conta da greve dos caminhoneiros e de outros fatores como reajuste de preços administrados pelo governo e do clima. Os preços administrados pelo governo (água encanada, energia elétrica, combustíveis) são insensíveis às condições de oferta e de demanda, porque são estabelecidos por contrato, ou por um órgão público. O leite, por exemplo, foi influenciado pelo clima; aumentou de preço porque há menos pasto para as vacas, o que reduz a produção de leite. Os fazendeiros que quiserem manter a produção terão aumento de custo para suplementar a alimentação dos animais.

O repique inflacionário do mês de junho deve se dissipar nos próximos meses e a inflação permanecerá comportada, porque aquilo que gera inflação tem também seu efeito inverso de forma perversa ou virtuosa.

A escassez de demanda deve segurar os preços como já vem ocorrendo a diversos meses com a queda da renda das famílias decorrente principalmente do desemprego, não dando margem para reajuste dos preços competitivos, mesmo que os preços administrados pelo governo aumentem de valor. Esta é a forma perversa de se manter a inflação sob controle.  Outra forma de se manter a inflação comportada é pelo aumento da oferta, ou seja, com mais produção e competividade entre os produtores, com mais investimento, negócios e renda. Esta é a forma virtuosa.

Sem dúvida, preferimos a forma virtuosa de controle de preços, contudo é a mais difícil. Depende de se criar e manter um ambiente favorável à produção, principalmente no contexto institucional (leis e normas que regem a sociedade). A forma perversa de controle da inflação é uma consequência por não se conseguir implantar a forma virtuosa, penalizando o padrão de vida da sociedade brasileira.

Paulo André de Oliveira é economista e Professor da FATEC