José Amaro Faraldo: o botucatuense que foi figura fundamental na conquista da Unesp/Botucatu

Protagonista nesse momento histórico para Botucatu com a vacina, a FMB/Unesp completou 58 anos e contou a participação decisiva de Faraldo em sua implantação

Neste domingo, dia 16 de maio, Botucatu terá um dia histórico com a vacinação em massa da população em um ensaio clínico. A Unesp, com a Faculdade de Medicina, tem um papel de protagonismo nessa conquista.

Este ano a FMB/Unesp completou 58 anos, sendo uma trajetória que mudou a história do município. Vários personagens construíram essa história, cada um com sua devida importância, mas uma figura em especial, por ser botucatuense, será lembrada aqui: José Amaro Faraldo.

Jornalista e estudante de Direito, participou da luta por essa grande conquista na segunda metade dos anos 1950. Faraldo teve uma importância fundamental na implantação da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, instituto de ensino superior público, do qual se originou a atual Faculdade de Medicina de Botucatu.

Nesse momento de protagonismo da Unesp em Botucatu com a vacina, vamos viajar no tempo. Conheça abaixo o histórico de uma das maiores personalidades da história de Botucatu. O texto é do jornalista Armando Delmanto, retirado do Blog do Delmanto.

JOSÉ AMARO FARALDO – “UM LÍDER QUE USOU A POLÍTICA, SEM SER POLÍTICO”

Arquivo familiar

“Nasceu em Botucatu no dia 15 de janeiro de 1927, passou sua infância e adolescência na Vila Aparecida, onde residia sua família. Seu pai Antônio e sua mãe Mariangela, seus irmãos: Antônio, Carlos, Judite e Marlene.

Foi telegrafista na antiga Estrada de Ferro Sorocabana. Depois foi jornalista escrevendo para vários jornais de grande circulação, como “A Época” e a “Folha de São Paulo”.

Como jornalista ganhou prestígio e conseguiu muitos amigos importantes. Entre esses amigos estava o dr. Jânio da Silva Quadros, Governador do Estado de São Paulo, do qual foi valioso colaborador. Esse moço que qualifico de líder botucatuense, tinha um desejo e tudo fez para conseguir realizá-lo, ou seja: o de se criar em Botucatu uma Faculdade de Medicina, no prédio que tinha sido construído para abrigar um hospital para a cura da tuberculose em Rubião Júnior.

Trabalhando como jornalista, também estudava, cursou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco onde veio a se formar Bacharel em direito. Voltou para Botucatu, onde passou a residir e trabalhar. Casou-se com dona Maria de Lourdes Fernandes, a 5 de setembro de 1959. Tiveram os seguintes filhos: Ana Lúcia; Maria Inez; Luiz Sérgio; Cláudia Regina; José Henrique; Solange Aparecida e Luiz André. Conversei com sua família, todos foram unânimes em elogiá-lo, seus olhos brilhavam de alegria ao narrar as qualidades e feitos do esposo e pai.

Era incansável no: trabalho e para espairecer, gostava de passeios de automóvel, pelo município de Botucatu, nos quais levava toda a família. Viajou também em decorrência de seu trabalho.

Amava sua profissão e a exercia com galhardia e competência.

Tinha inteligência e memória fora do comum.

Recitava de cor qualquer artigo dos códigos de leis.

Advogou causas trabalhistas de ferroviários, de professores da Unesp, do Dr. Ressac – Diretor do Instituto Butantã, em razão de ter-se especializado em Legislação Trabalhista. Agora passamos a contar seus feitos para Botucatu.

Como já dissemos ele tinha o desejo de que se criasse em Botucatu uma Faculdade de Medicina, no prédio construído para ser hospital para tratamento de tuberculose, pois a doença estava sendo controlada e havia poucos casos.

Quando expunha esses planos às autoridades, alguns achavam que era impossível realizá-los. Mas uma autoridade acreditou nos planos dele, foi o Dr. Zeferino Vaz, Diretor da Faculdade Paulista de Medicina e depois o 1º Diretor da UNICAMP.

O idealista não media sacrifícios para alcançar seus objetivos, às vezes gastava dinheiro de seu bolso para esse fim.

Em certa feita trouxe às expensas, o Dr. Zeferino Vaz, de avião de São Paulo a Botucatu, para que ele fizesse uma vistoria no local e tirasse conclusões se seria realizável o plano. Deu certo, o Dr. Zeferino Vaz interessou-se, trabalhou no assunto e nossa Faculdade de Medicina foi fundada em 1958.

Era Prefeito de Botucatu, na época desse acontecimento, o Sr. Emílio Peduti, que divergia dos planos desse jornalista e advogado, mas que pouco tempo antes de sua morte, chamou-o para com ele harmonizar-se. Graças ao trabalho desse jornalista e advogado, hoje temos em Rubião Junior esse grande complexo de Medicina da UNESP, que serve Botucatu e todo o Brasil. Mas não ficou por aí seus feitos, também trabalhou e conseguiu que fosse criada em Botucatu a Junta de Conciliação do Trabalho, órgão de grande utilidade e que facilitou a agilização nos Processos Trabalhistas. Com a criação da Junta, veio também a favorecer o Arcebispado, que na época atravessava dificuldades financeiras.

Como a Junta necessitava de um prédio para instalar-se, esse jornalista e advogado tratou o Contrato de Aluguel do Prédio da Cúria Arquidiocesana para à Junta, que naquele local funcionou até este mês de abril de 1991, quando se mudou para o prédio da rua Major Matheus, onde funcionou o Grupo Escolar “Dom Lúcio Antunes de Souza” reformado para sua instalação, com inauguração marcada para os dias de festejos do 136º. Aniversário de Botucatu.

Em sua profissão de advogado, ajudou também as pessoas carentes que precisavam de advogado e não tinham recursos para pagar os honorários. Advogava as causas deles gratuitamente. Quando um governador do Estado de São Paulo, ameaçava tirar a UNESP de Botucatu, lutou e assegurou sua permanência em nossa cidade. Sua preocupação com a UNESP nunca parou, e um fato interessante é o de que nunca foi convidado a ocupar um cargo nessa instituição pela qual tanto trabalhou. Parou de trabalhar em 13 de novembro de 1983, data em que faleceu.

Em sua tumba, lá no Cemitério “Portal das Cruzes” está escrito o seu nome: JOSÉ AMARO FARALDO.

CONCURSO LITERÁRIO “ACONTECEU EM BOTUCATU”

1º. Lugar – EDGARD DEVIDE”

(J.B. – 24/07/92).

Conheça abaixo a narrativa da conquista da Unesp (Fonte: História Unesp)

A criação da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, instituto isolado de ensino superior público, do qual se originou a atual Faculdade de Medicina de Botucatu, deveu-se a inúmeros fatores não constituindo um acontecimento isolado.

Em 1939, o então prefeito de Botucatu, Joaquim do Amaral Gurgel reúne prefeitos da região e solicita ao interventor federal no Estado a construção de um hospital para tuberculosos pobres em Rubião Jr, “…lugar de excelente clima, muito procurado pelas pessoas fracas e necessitadas de repouso ou em luta contra a tuberculose.”.

Em 1944, a professora de geografia e história do antigo Instituto de Educação Cardoso de Almeida, Eunice Almeida Pinto Chaves, descreve o distrito de Rubião Jr:

“Fazendo parte do conjunto da cidade, porém distante seis quilômetros, está a estação de Rubião Jr, considerada como um prolongamento ou subúrbio de Botucatu, sendo ligada à célula mater por vias férreas e de rodagem. Este subúrbio tem duas fisionomias próprias, uma residencial (por ser estação climática) e outra operária… Nessa estação encontra-se o morro de Rubião Jr (antigamente conhecido por morro de Capão Bonito) com 900 m de altitude aproximadamente, e considerado ponto culminante do município”. “… com sua vida pacata, proporciona aos enfermos as necessárias condições de repouso”

Finalmente, em 1950, firmou-se o contrato de construção do Sanatório para Tuberculosos, sendo responsável pela construção a firma botucatuense Adolpho Dinucci & Filho, do imigrante italiano Adolpho Dinucci.

A descoberta da quimioterapia já favorecia, desde 1946, o atendimento da tuberculose em ambulatórios, e a construção desenvolveu ritmo lento, deixando aos políticos botucatuenses a necessidade de encontrar uma solução para o “elefante branco”, como passou a ser chamado o edifício inacabado.

Neste momento da história deste lugar, surgem 3 figuras que irão conjugar o mundo da política com o universo acadêmico e desta mistura, tentar fazer brotar a solução: um jovem botucatuense, o jornalista e estudante de direito José Amaro Faraldo, um professor da USP, o prof.,Dr. Zeferino Vaz e o político Jânio da Silva Quadros.

José Faraldo acreditou na viabilidade da idéia de utilização do hospital em construção para abrigar uma faculdade de medicina, o prof. Zeferino Vaz realizou em 2 de maio de 1958 o pioneiro estudo para implantação de uma faculdade de medicina em Botucatu e Jânio Quadros tinha a caneta para pincelá-la de cores.

Com a intensa participação da sociedade botucatuense e dos seus quadros políticos, com a liderança política da Câmara Municipal de Botucatu e do prefeito Emilio Peduti, desenvolveu-se uma forte campanha, que culminaria com a assinatura da Lei 4991, de 25 de novembro de 1958, que criou a Faculdade de Medicina de Botucatu. Contudo a forte pressão contrária da Universidade de São Paulo e questões de política partidária impediram que esta faculdade fosse instalada.

No entanto, o desenvolvimento e a transformação dos cursos médicos, especialmente em São Paulo  e estudos de professores da USP resultariam no projeto de lei n.299, de 26 de abril de 1962. Este projeto propunha  a criação da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu .

Participaram da elaboração deste projeto de lei, como assessores do reitor da USP, prof. Ulhôa Cintra, os professores Jairo Ramos, João Alves Meira, Adamastor Corrêa, Euclides Onofre Martins e Guimarães Ferri.

Com a apresentação do projeto da FCMBB,  governador Carvalho Pinto diria ao reitor da USP: “O espírito público de Vossa Magnificência…encontrou, realmente, o caminho que permite o deslinde de uma das mais tormentosas questões da atual administração”

A FCMBB – Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu será criada em 22 de julho de 1962, no governo Carvalho Pinto.

A faculdade foi instalada em 26 de abril de 1963, sob a direção do prof. Dr. João Alves Meira, com a assessoria e coordenação local do prof. Dr. Mário Rubens Guimarães Montenegro.

A aula inaugural foi proferida pelo prof. Nicanor Letti, na sala da Cadeira de Anatomia, com o seguinte título: “Tendências Atuais do Ensino de Anatomia”
Referências Bibliográficas

ANTONINI, Inês G. Sanear a cidade e segregar a pobreza: estudo das práticas sociais em Botucatu-SP, 1890-1920, Belo Horizonte: UFMG, 1985. 199p. Dissertação (Mestrado em Ciência Política), FAFICH, Universidade Federal de Minas Gerais, 1985.
BRETAN,I.M.A.N. FACULDADES PARA BOTUCATU (SP):processo histórico de demandas sociais e políticas pela expansão do ensino superior no Estado de São Paulo – 1947 a 1963. Dissertação de Mestrado,FCL/UNESP-Campus de Assis,1995.
CHAVES, Eunice A.P. O município e a cidade de Botucatu. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA, X, 1944, Rio de Janeiro. Anais… Rio de Janeiro, v.III, 1952, p.584-622.
DELMANTO, Armando. Memórias de Botucatu. Botucatu: Vanguarda de Botucatu, 1990. 195p.
DONATO, Hernani. Achegas para a história de Botucatu. 3 ed. Botucatu: Banco Sudameris Brasil, 1985. 366p.
FACULDADE DE MEDICINA DE BOTUCATU. Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP-1963-1988. FUNDUNESP, 1988.
RAMOS, Jairo, Problemas do ensino médico. Rev. Associação Médica Brasileira, v.1, n.3, p.331-338, set. 1954.
SÃO PAULO. Governo do Estado de São Paulo. II. Plano de ação do governo 1963-1966. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1962. 343p.