Idoso completa 100 anos e família faz homenagem

O senhor Manoel Ferreira, aposentado da prefeitura de Botucatu, completa nesta terça-feira, 31 de janeiro, um século de vida. São 100 anos, com lucidez. A comemoração com a família aconteceu no último domingo, 29. Para homenagear o aposentado, os familiares reuniram informações da história de vida dele e um dos netos agrupou tudo em um texto, que você confere aqui.

História de uma vida

Meu nome é Manoel Ferreira, nasci em 31/01/1917 em uma fazenda de nome Fazenda dos Cardosos que pertenceu aos meus avós, localizada no Pátio Oito em Botucatu. Logo depois mudamos para a Fazenda Lageadinho onde morava com meus pais; Agostinho Ferreira Belmira da Conceição, e também meus irmãos e irmãs Armelinda, Antônio, Alice, Rosa, José Natal, Maria Albertina e Jaime a caçula. Anos depois, meu tio Jaime da Conceição, me trouxe para morar na cidade e assim poder fazer companhia ao meu avô, Sr. Albino da Conceição. Infelizmente hoje todos são falecidos, apenas eu sou vivo.

Aos seis anos de idade fui levado para o Monte Selvagem para poder iniciar meus estudos na Escola Rural, minha primeira professora foi a senhora Emília Maranhão a qual tinha um respeito e carinho tão ou igual a minha mãe. Era uma senhora de cor negra, muito bondosa e que me deixa saudades daqueles dias, passei quatro anos estudando na escolinha rural, onde ajudava Dona Emília em diversas atividades. Após o término escolar, nossa família mudou-se para outra Fazenda de nome Aracatú.

Me recordo de um Senhor Italiano que morava no sítio que meus avós e pais trabalhavam, ele bebia muito e sempre dizia que iria se matar tomando veneno, mas nunca teve coragem, e como castigo  trancavam-no em um ranchinho que existia no quintal, sem comida e nem água, eu como ficava com dó, sempre levava comida e água escondido de meus familiares, pois senão o castigo seria eu. Mas toda vez ele me agradecia dizendo você é um Dio (Deus em italiano), assim todos começaram a me chamar por Dio como meu apelido.

Aos 14 anos comecei a trabalhar na roça realizando todo tipo de serviço para poder ajudar a criar meus irmãos e irmãs, logo após um bom tempo iriamos retornar ao Monte Selvagem. Quando completei 17 anos eu já era o chefe da casa, e comecei a trabalhar em uma plantação de café de um alemão conhecido por Roblen. Com 18 anos voltei para Botucatu, onde fui trabalhar como ajudante de caminhão com meu tio Manoel da Costa. Nesse período, foi quando estourou a revolução de 1932, foram tempos difíceis.

Alguns anos depois fui trabalhar na Chácara do Dr. Padovan, cuidando do gado e tirando leite isso foi durante um período curto de apenas 3 meses, pois logo após passei a ser carroceiro tirando areia para ajudar um dos meus primos que já não me lembro o nome mais, logo fui extrair madeira no bairro da Mina, hoje com uma população bem grande de habitantes, fui também auxiliar de transporte de mercadorias. A seguir iniciei a carreira de padeiro na Padaria do Ré, que se localizava ao lado do cinema do paratodos, onde aprendi a fazer pães e todo tipo de doce, acabei trabalhando em outras padarias também, como a Padaria Esmeralda e Padaria Record, todas localizadas no centro da nossa cidade hoje.

O proprietário da padaria, Sr. Luiz Fontes, e eu nos tornamos compadre, já que ele e sua senhora Dona Nicota batizaram o meu filho Adércio, Ali trabalhei um longo período, mas ocorreu um incêndio e acabaram fechando o estabelecimento. Meu último emprego como padeiro foi na paradaria dos Ventrellas, onde fiquei um bom tempo. Naquela época ser padeiro era difícil, os fornos eram, tocados a lenha, o que causava um calor muito forte e deveria ser controlado para causar prejuízos nas fornadas dos pães, mas foram anos muito bons e de muito aprendizado, depois de um longo dia de trabalho saia do serviço e ia ao sítio dos Carvalhos buscar leite, e andava por muito tempo. Na volta ainda trazia algumas lenhas para acender o fogão a lenha. Logo após esse período, passei a ser funcionário municipal em Botucatu quando o Sr. Emílio Peduti ainda era o prefeito municipal.

Quem me encaminhou para o emprego na Prefeitura foi o Sr. Humberto Popolo, conhecido como Chubé, era de uma família tradicional com nome forte que também era proprietário das Empresas Popolo, vizinho da paradaria dos Ventrellas. O Sr. Popolo foi homenageado nomeando o bairro da conhecida Cohab I um dos maiores bairros da nossa cidade. Quando Peduti ainda era prefeito, aproveitava seus cinemas para passar filmes nas ruas da cidade, e a população adorava os cineminhas.

Filmes de faroeste, do Tarzan entre outros, utilizávamos a carroceria do caminhão aonde ficávamos segurando a tela, naquele tempo poucas pessoas tinham dinheiro para ir ao cinema, Infelizmente o Sr. Emílio acabou falecendo antes do término do seu mandato. Na gestão do Sr. Amaral de Barros passei a ser fiscal de renda fiscalizando os trabalhos que eram realizados nas ruas de Botucatu, como vazamento de água muito comum na época, buracos nas ruas, que na época eram em sua maioria de terra e fiscalizava a vendas de produtos em caminhões e na feira livre do Largo do Paratodos. Logo em seguida fui transferido para o Matadouro Municipal onde eu encontrei muito serviço a ser feito. Nesse tempo o Sr. Craveiro era o administrador. Quando o Prefeito Lico foi eleito me designou como novo administrador do Matadouro Municipal, então passei a morar no local aonde trabalhava por muitos anos, e quando sai da casa do matadouro, retornei para a casa onde moro até os dias de hoje. Somando os anos de trabalho nas padarias e na prefeitura foram 42 anos de serviços prestados. Trabalhei ainda por pouco tempo no Mercadinho do Rosário, entregando compras nas costas em cestos de vime.

Aos 22 anos me casei com Maria Aparecida Rodrigues, do fruto desse casamento tivemos 7 filhos, 4 homes e 3 mulheres. Nós todos morávamos na mesma casa que pertencia ao amigo Sr. Jurandi Trench. Um fato interessante quando ainda era funcionário municipal ajudei a apagar um incêndio que destruiu o Cine Espéria, que na época era o lugar mais chique da cidade, lugar onde ocorria jogatinas e grandes bailes, o prédio ficou totalmente destruído, o local do antigo prédio é hoje a Fonte do Bosque. Durante muitos anos participei da Irmandade de São Benedito, participando de festas e procissões, até os dias de hoje eu sou vicentino, sempre atuei nas conferências no atendimento das famílias necessitadas, com trabalhos colaborativos para angariar fundos para a construção do salão de festas e da Casa Paroquial, e sempre com ajuda dos outros vicentinos, ajudamos na criação da Paroquia tendo a frente meu amigo Mario Pierine que idealizou a formação dessa Paroquia.

Participamos de muitas festas no Asilo Padre Euclides, comandando os churrasco para arrecadar fundos para um melhor atendimento dos idosos. Passei por várias profissões apenas por ter boa vontade e gostar de trabalhar. Fui sapateiro, (acabei construindo até um carrinho de pipocas para um comprador de Piracicaba) acostumado na lida com couro também fabricava arreios pois tinha carroça e charretes por mim mesmo elaboradas por mim mesmo. Sempre aproveitei horas de folgas para fabricar gaiolas com bambu e arames

Logo após os meus 50 anos, adquiri uma propriedade na Região Rubião Junior, onde construí um sitiozinho, me lembro que íamos de charrete para lá, e sempre acompanhado de meu filho Adelmo Ferreira, levavamos sempre uma marmitinha. Foram anos de dedicação com aquela terra, tempos bons aqueles. Com mais de 60 anos vendi meu sítio em Rubião e comprei um terreno na Mina, onde construí meu ranchinho, com dificuldades também, pois na época realizar o transporte do material de construção, era complicado, pois a distância era muito grande e as Casa de Materiais da cidade não poderiam levar o material até o local. Minha solução foi comprar material na cidade de Santa Maria da Serra.

Nos dias atuais a Mina é um bairro grande, mas naquele época eram apenas poucos ranchos e moradores, e como nunca dirigi um carro, dependia sempre dos ônibus. Graças Deus, com todas as dificuldades, consegui concluir a construção. Tenho que agradecer a muita gente pela ajuda recebida durante a mesma em especial ao Rivaldo Ribeiro, que sempre me auxiliou, ele gostou tanto da ideia, que ele também construiu um rancho na Mina.

Lembranças boas das festas de Fim de Ano, eu me vestia de Papai Noel, fazíamos entrega de presentes em bairros pobres de Botucatu, na casa de nossos vizinhos haviam muitas crianças e sempre íamos visitar as casa do Sr. Celestino, Sr. Haroldo Serrão, Sr. Armando Giraldi entre outras casas, hoje um pouco dessa tradição acabou ficando para trás. Mas não sei porque, mas essa espirito natalino ainda é tradição minha família.