Fotógrafo Botucatuense André Liohn registra a luta contra o coronavírus no HC de Botucatu

Premiado internacionalmente pela cobertura de guerra, o fotógrafo André Liohn retorna a sua cidade natal para registrar o trabalho do Hospital das Clínicas

Por Martha Martins de Morais e Marcos do Amaral Jorge – Fotos de André Liohn

André Liohn é um fotojornalista nascido em Botucatu e especializado em coberturas de guerra. Em 2011, recebeu a prestigiada Medalha de Ouro Robert Capa pelo seu registro da Guerra Civil do Líbano. Ao longo da carreira, Liohn já estampou suas fotos em jornais e revistas de projeção mundial, como Der Spiegel, da Alemanha, L’Espresso, da Itália, Time Newsweek, dos Estados Unidos ou Le Monde, da França.

Morando na Itália, o fotógrafo brasileiro retornou a sua terra natal no interior de São Paulo para cobrir uma batalha diferente, mas não menos mortal: a pandemia de Covid-19 no Brasil. O Hospital das Clínicas de Botucatu é um dos espaços visitados no projeto e o ponto de partida desta entrevista. Ele compara:

“Em zonas de guerra, eu tenho muito tempo e oportunidade para estar ao lado dos soldados porque às vezes nós ficamos juntos por semanas e em situações de muito stress. Já com os profissionais da saúde é mais difícil. O tempo que eu tenho disponível para poder fotografar uma UTI, por exemplo, não supera minutos.”

O fotojornalista conversou com o Jornal da Unesp por telefone no dia 15 de abril. As imagens que ilustram esta reportagem são de autoria do próprio André Liohn.

O fotógrafo André Liohn.
O fotógrafo André Liohn

Jornal da Unesp — Como foi a chegada da pandemia à sua vida? Que impactos ela trouxe para o seu trabalho?

André Liohn — Os registros em Botucatu fazem parte de um projeto maior, que envolve a visita a outros centros hospitalares do país.

Jornal da Unesp — O foco de sua lente, entretanto, aponta para dois temas específicos e urgentes: o desgaste dos profissionais de saúde, que como nas piores guerras já enfrentam mais de um ano na “linha de frente”, e o drama das gestantes contaminadas pelo coronavírus, no país que responde por 77% das mortes desse grupo no mundo.

André Liohn — Em janeiro de 2020, eu vim a São Paulo fazer um workshop para fotógrafos brasileiros. Nessa época já começamos a ouvir sobre a Covid-19 e que a China havia tomado medidas drásticas com milhões de pessoas em isolamento social. Mesmo assim eu vim para o Brasil porque a doença não havia se tornado essa pandemia que se tornou. Em fevereiro começaram a surgir os primeiros casos na Itália, que se proliferaram de forma muito rápida. Eu fiquei com muito medo que fechassem os aeroportos e rapidamente voltei para lá. No dia seguinte eles fecharam tudo.

Neta e nora  auxiliam idoso com Covid-19 na cidade de Ariano Irpino, na província de Avellino, região de Campania, sul da Itália

O número grande de pessoas morrendo me deixou bastante preocupado. Eu tenho um trauma com doenças porque já fiquei doente algumas vezes fazendo meu trabalho. Em 2002, eu peguei o Sars e fui hospitalizado. Depois peguei dengue. Em 2013, no Congo, eu fui hospitalizado porque peguei malária cerebral e foi uma experiência muito ruim.

Em conversa com a família do mesmo paciente da imagem anterior, médico de serviço público de emergência em Ariano Irpino explica a necessidade de transportá-lo para um hospital, informando que provavelmente ele terá de aguardar por algumas horas na ambulância porque não havia leitos disponíveis naquele momento

Na Itália, o que eu notei é que as primeiras reportagens sobre Covid-19 não tinham imagens. Eram sempre representações artísticas do vírus ou imagens de celulares dos caminhões do exército transportando os corpos das primeiras centenas de pessoas que haviam morrido. Isso me incomodou muito porque é preciso mostrar o que está acontecendo para as pessoas acreditarem. Então decidi sair e trabalhar como se eu estivesse cobrindo uma crise como já havia feito em tantos outros países. No início eu fiquei com muito medo.

Jornal da Unesp — Mais medo do que quando você foi cobrir outras guerras?

André Liohn — Tanto medo quanto. Mas com a noção de saber que eu não tinha absolutamente nenhum controle sobre aquilo. Quando fui hospitalizado por malária cerebral, fiquei desacordado durante dias. Eu podia ter morrido sem sequer ter consciência do que acontecia. Eu não queria mais passar por isso de novo. Mas era o que tinha que ser feito.

“Eu visitei as casas das pessoas doentes e mostrei as suas condições, suas dificuldades, como os sintomas se manifestam, os dilemas e medos dos médicos. Fui o primeiro fotógrafo no mundo a conseguir realmente registrar o que estava acontecendo.”

Já no final de março, os casos na Itália começaram a cair um pouco por causa do lockdown super restritivo. Foi quando o Brasil começou a sofrer com a Covid-19 e eu decidi voltar. Temi que pudesse acontecer algo em escala ainda maior no Brasil. Naquele momento trabalhei na favela de Paraisópolis e nos hospitais em Santo André, em São Paulo. Fiquei dois meses e voltei para a Itália para me resguardar um pouco.

Em Paraisópolis, comunidade favelizada da zona sul de São Paulo, com população estimada de cerca de 70 mil habitantes (42.826 no Censo 2010), a falta de confiança nas autoridades públicas levou a associação de moradores a contratar por conta própria serviço de atendimento médico de urgência para pessoas com Covid-19.
Médicos do serviço de atendimento de urgência contratado em Paraisópolis enfrentam dificuldades no acesso às moradias, percorrendo a pé longas distâncias – muitas vezes transportando pacientes – onde é impossível trafegar com ambulâncias

Até ali parecia que de alguma forma nós estávamos encontrando uma solução para a pandemia porque os números estavam caindo. Mas após a passagem de ano e o Carnaval os números subiram novamente e eu decidi voltar para o Brasil. Neste momento, optei por focar o trabalho em outros temas, como o cansaço dos profissionais da saúde e as pacientes gestantes.

Homem chora diante de caixão no cemitério de Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, o maior da América Latina
Com suspeita de Covid-19, mulher vítima de infarto tem, além da dificuldade para se locomover e comunicar, sua situação agravada por morar no extremo sul de São Paulo em área de remanescentes da Mata Atlântica – uma das florestas tropicais e de maior diversidade biológica do mundo. Parelheiros é um dos maiores e menos habitados dos 96 distritos da cidade, oferecendo poucas vias de acesso, o que dificulta o trabalho do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu)
Em Santo André – cidade da Região Metropolitana de São Paulo — socorristas do Samu atendem emergência de paciente do sexo masculino, 75 anos, com suspeita de infecção por Covid-19. O paciente apresentava várias comorbidades preexistentes, como dois rins transplantados, hipertensão e diabetes. No momento da chegada da equipe médica, ele estava com baixa saturação de oxigênio

Jornal da Unesp — Foi nesse momento que você chegou ao Hospital das Clínicas de Botucatu? Como foi seu trabalho por lá e o que chamou sua atenção?

André Liohn — Eu cheguei ao Hospital de Botucatu porque meu pai precisou ser hospitalizado quando  contraiu a Covid-19 e isso me fez permanecer mais tempo na cidade. Acho que essa doença quebrou um pouco o mito de que a saúde privada é melhor do que a saúde pública, o que eu considero preconceituoso. Isso porque tanto o sistema público quanto o sistema privado praticamente colapsaram.

Na cidade de Botucatu o hospital sempre foi referência, então a população sempre se sentiu acolhida pela Faculdade de Medicina e pelo hospital. E a própria natureza da universidade, com pesquisa, desenvolvimento de metodologias e de protocolos, fez com que Botucatu tivesse, a meu ver, protocolos muito bons em relação à Covid-19. O que acho que se reflete, por exemplo, na baixa mortalidade da cidade e de contágios.

O que não significa que os médicos e profissionais da saúde estejam passando por esse período de forma fácil. Pelo contrário, os relatos que eu recebi de todos é que estão muito cansados. Muitas vezes se sentem desanimados porque embora tenha impacto na vida dos pacientes, o trabalho deles tem tido pouco efeito na prevenção de que outras pessoas venham a se contaminar. Por mais que eles se esforcem, o número de pessoas sendo internadas e morrendo é muito grande.

“No momento desta nossa conversa, estamos com média de mais de 3 mil mortes por dia. E essa sensação de estar enxugando gelo tem tirado o entusiasmo desses profissionais.”

No início da pandemia, muitos profissionais da Saúde acabaram se contaminando ou muitos inclusive contaminaram seus próprios familiares. Você tem histórias de perdas pessoais traumáticas porque essas pessoas estavam ali apenas fazendo o trabalho delas. Uma auxiliar de enfermagem, por exemplo, que trabalhava numa enfermaria sem nenhum risco, em poucas semanas viu a sua enfermaria se transformar numa UTI Covid-19. Essa funcionária não tinha treinamento, não tinha experiência, muitas vezes não tinha nem o equipamento em quantidade necessária para fazer o trabalho, correndo riscos que eles necessariamente não estavam dispostos a correr.

Jornal da Unesp — Quais foram as reportagens que você fez em Botucatu?

André Liohn — A primeira foi sobre esse cansaço psicológico, físico e emocional dos profissionais da saúde, mas com um foco nas auxiliares de enfermagem. São esses os profissionais que realmente fazem o trabalho de corpo a corpo com o paciente, dando banho ou ministrando a medicação, por exemplo.

Referência em tratamento para Covid-19, o Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Unesp é o principal hospital de Botucatu, estava com UTI lotada e pacientes em lista de espera. Auxiliares e atendentes de enfermagem, que lidam intensamente com pacientes em estágio avançado da doença, continuaram em seu trabalho. Mesmo aqueles que adoeceram retornaram ao trabalho assim que se recuperaram, continuando a ajudar a salvar vidas.

Em geral são pessoas com menor grau de escolaridade, com um curso técnico e não um curso superior. Muitos desses profissionais podem até ter sonhado um dia ter sido médico, mas às vezes por condições econômicas não estudaram. É um grupo que em geral vêm de famílias mais simples e foram contratadas recentemente em virtude da pandemia.

Eu via esses profissionais paramentados com avental, máscara, faceshields, ensopados de suor enquanto estavam dando banho no paciente. Eram às vezes três ou quatro enfermeiros para tomar conta de um paciente em um procedimento que demorava até uma hora e meia, no caso de um paciente com comorbidades.

Profissionais de saúde higienizam paciente em UTI

E agora eu estou fazendo um trabalho sobre gestantes que contraíram Covid-19. Eu quis contar essa história porque 77% das mortes de gestantes no mundo aconteceram no Brasil. É um número muito alto. Tem alguma coisa dando errado aqui

Muitas contraem a doença já no final da gestação, são hospitalizadas e precisam realizar uma cesariana entubadas e inconscientes do que está acontecendo. Fala-se muito que a Covid-19 é uma doença que mata homem velho com comorbidades, mas nesse caso estamos falando de mulheres muitos jovens, que é o perfil das gestantes, principalmente nas classes vulneráveis. Tenho acompanhado o caso de uma mulher de apenas 24 anos de idade que continua internada nesse exato momento. Ela precisou ser entubada e o filho dela nasceu com a mãe inconsciente.

A gestação para quem passou por este processo é aquele momento das nossas vidas em que a gente lembra dos pequenos detalhes. Os pequenos encontros, os pequenos momentos e situações, a hora em que a mãe descobre que está grávida, o chá de bebê, a revelação para a família. É o momento de manifestar à comunidade a alegria de que alguém novo vai chegar. Mas essas mães vão lembrar de um período de medo e de angústia, e até pode ser um período sem lembrança alguma.

Jornal da Unesp — O que você viu neste trabalho no hospital de Botucatu em relação à infraestrutura e ao lado humano dos profissionais que trabalham ali?

André Liohn — A maior parte do meu trabalho eu faço em zonas de guerra, ao lado de soldados. Em zonas de guerra, eu tenho muito tempo e oportunidade para estar ao lado deles porque às vezes nós ficamos juntos por semanas e em situações de muito stress. Então eu acabo tendo a oportunidade de me relacionar e conhecer essas pessoas profundamente. Já com os profissionais da saúde é mais difícil. Eu não posso passar semanas com eles. O tempo que eu tenho disponível para poder fotografar uma UTI, por exemplo, não supera minutos.

Tenho semanas para fotografar uma zona de guerra e no caso da pediatria onde havia bebês entubados, tinha literalmente segundos para fotografar. Então é claro que nesse processo as coisas mais óbvias, como a falta de pintura numa parede, um defeito em um equipamento, são as coisas que vão chamar tua atenção porque são mais óbvias. Você já chega ali procurando encontrar as coisas óbvias porque não existe tempo para se aprofundar muito. E eu entendo que esse limite de tempo que eu tenho é uma decisão desses profissionais para proteger os pacientes, a eles mesmos, e me proteger também.

Jornal da Unesp — No seu trabalho, seja em guerras ou hospitais, você tem acesso a lugares que poucas pessoas podem estar. No caso da pandemia, nem os familiares podem entrar em algumas áreas dos hospitais que você entrou. Você acha que seu trabalho contribui para combater esse negacionismo que a gente vê na sociedade atualmente?

André Liohn — Eu sou jornalista. Eu não me identifico como fotógrafo. Até a palavra “fotojornalista” não explica bem o que nós fazemos. Nós fazemos jornalismo fotográfico. Em vez da caneta, eu uso a foto para fazer jornalismo. O jornalismo vem antes da foto.

Em 24 de junho de 2020, a cidade de Dourados, com 210 mil habitantes, era o principal foco da Covid-19 no estado de Mato Grosso do Sul. As duas aldeias indígenas da região, Jaguapiru e Bororó, somam cerca de 20 mil habitantes e estão entre as comunidades mais afetadas pela epidemia que, além do risco de morte, também expõe seus habitantes a extremas dificuldades ecoeconômicas. Desde 15 de maio, nas comunidades indígenas de Dourados, 16 crianças de 1 a 9 anos haviam sido diagnosticadas com o novo coronavírus. A principal vulnerabilidade das populações indígenas brasileiras frente ao novo coronavírus é a falta de acesso a cuidados de saúde de qualidade.
Indígena, 40 anos, tuberculoso, residente na aldeia Bororo, no município de Dourados, queixava-se de forte dificuldade respiratória, febre alta e dores no corpo. Sem água corrente no barraco em que morava, ele e sua família usavam um pequeno riacho próximo para se banhar. Em 18/06, seu padrasto encontrou seu corpo deitado sem vida na água. Exames médicos indicaram que o homem morreu de parada cardiorrespiratória durante o banho, provavelmente causada pelo esforço de caminhar até o riacho

Agora tem uma crise muito grave hoje que é a crise de credibilidade que os jornalistas estão passando. O jornalismo sempre foi visto como um inimigo comum dos poderosos, ditadores, mentirosos e corruptos. Mas nas mídias sociais, infelizmente, encantadores de serpente conseguem convencer a população.

“Neste momento, nós temos personalidades nas mídias sociais e políticos como o Bolsonaro e seus apoiadores, que são encantadores de serpentes com a pior intenção possível, dizendo para não se vacinar porque não vai funcionar ou não vale a pena. Usam, por exemplo, o argumento de que a vacina foi desenvolvida em poucos meses.”

Todas as tecnologias hoje evoluem em uma velocidade incrível, mas a vacina precisa ficar na Idade da Pedra. Apontam como um problema algo que deveria ser celebrado como uma solução. Então assumir a responsabilidade de mostrar essa realidade é o que eu faço no meu trabalho. Eu preciso mostrar que existe uma menina de 24 anos entubada que não conseguiu ver o nascimento do próprio filho e que está com a vida em risco por causa dessa doença.

Fonte: Jornal Unesp – https://jornal.unesp.br/2021/05/02/retratos-de-batalhas-pela-vida-no-enfrentamento-da-covid-19/