Escutas telefônicas dão indícios de compra de voto e ‘rachadinha’ em Bauru

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Escutas telefônicas dão indícios de compra de voto e ‘rachadinha’ em Bauru 10 dezembro 2021
Foto: TV Tem

A reportagem da TV TEM teve acesso aos documentos do inquérito policial que investiga denúncias de corrupção, cooptação de eleitores e prática de “rachadinha” envolvendo o ex-vereador Luiz Carlos Bastazini, o Carlinhos do PS (PTB), que foi preso no último dia 29 de novembro quando ainda ocupava uma cadeira na Câmara de Bauru (SP).

No inquérito policial são apontados trechos de captação de escutas telefônicas onde há fortes indícios das práticas de troca de favores em busca de votos e também do suposto esquema de “rachadinha”.

Foi com base nesses detalhes da investigação, além dos materiais apreendidos, que a Justiça determinou a conversão da prisão temporária em preventiva de Carlinhos e outros cinco suspeitos que foram detidos na Operação da Polícia Civil na última terça-feira (7).

Em dos trechos transcritos no documento do inquérito, Carlinhos pede para a pessoa com quem conversa que faça um cadastro para ser cobrado depois das eleições:

Luiz Carlos Bastazini: “Agora você marca no seu cadastro aí”.

Interlocutora: “Que?!”.

Luiz Carlos: “Marca no seu cadastro”.

Interlocutora: “Para que no meu cadastro?”.

Luiz Carlos: “Para depois cobrar na eleição”.

Em outro trecho das ligações interceptadas descrito no documento, o ex-vereador fala sobre a indicação de cargos públicos:

Luiz Carlos Bastazini: Não, não estou ameaçando ninguém, o que eu estou falando, o que eu não posso é perder o cargo’. (…) e eu tenho que ajudar o cara, porque o cara me ajudou na campanha. (…) não, tem que dar, que eu tenho que dar, já está combinado com o cara. Eu combinei dois com o cara, vou levar R$2,5 mil para o cara?

Também tem indícios da prática de “rachadinha” em outro trecho:

Luiz Carlos Bastazini: Não, não, não. É depende, depende na época, não vai chegar, você não vai. No ano que vem, se tudo ocorrer bem, se eu for ficar. Você que vai por a mão no bolso. e nós vamos falar você tem que dar tanto, acabou, não é metade (…) Agora ano que vem, ganhamos, você vai ficar lá onde você está, você vai ficar, você vai ganhar o seu salário, ai nós vamos falar para você ó: você vai ter que dar tanto.”

De acordo com o delegado responsável pelas investigações, Gláucio Stocco, as provas são contundentes de que o ex-vereador e os assessores formavam uma organização criminosa.

“Nós pudemos, a partir das investigações, concluir que a havia uma organização criminosa chefiada pelo agora ex-vereador Carlinhos do PS juntamente com seus assessores que consistia em indicar cargos nas repartições públicas e por meio dessas indicações praticar a “rachadinha” que sustentava essa organização criada com o objetivo de angariar votos por meio de troca de favores.”

Ainda de acordo com o delegado, o inquérito foi concluído e encaminhado para o Ministério Público, mas as investigações continuam com a perícia em materiais apreendidos como celulares, computadores e outros eletrônicos, além da eventual participação de outras pessoas nesse esquema ou esquemas semelhantes.

Comissão processante

Na última sessão da Câmara, a segunda-feira (6), os vereadores aprovaram a criação da Comissão Processante contra o então vereador Carlinhos do PS, que havia pedido afastamento do cargo até fevereiro do ano que vem.

Porém com a renúncia dele protocolada horas antes da primeira reunião da CP nesta quarta-feira (8), os vereadores se reuniram nesta quinta-feira (9) e optaram por manter os trabalhos da comissão depois de um parecer jurídico apresentado nesta tarde.

No parecer apresentado pela consultoria jurídica da Câmara, o entendimento é que ex-vereador Luiz Carlos Bastazini já está inelegível e perdeu os direitos políticos. O documento analisa que leis já impõem essa sanção para parlamentares que renunciam ao mandato depois da instauração de procedimentos de investigação para a perda do mandato.

O relator da CP da Rachadinha, o vereador Eduardo Borgo, diante desse parecer, adiantou a conclusão do relatório e se manifestou a favor do arquivamento da comissão. Apesar de apresentar a conclusão, o vereador pediu um prazo pra formalizar o relatório.

Depois da apresentação do relatório na comissão processante, o texto vai ser enviado a mesa diretora que precisa colocar o documento em votação em plenário. Os parlamentares por maioria simples devem decidir pelo arquivamento ou prosseguimento da CP.

Indiciamento por três crimes

O inquérito policial, que já foi concluído e encaminhado ao Ministério Público, aponta três crimes cometidos pelos seis investigados: concussão (obtenção de vantagem indevida em face dos cargos públicos), organização criminosa e lavagem de dinheiro.

De acordo com a polícia, o vereador indicava ocupantes de cargos públicos e depois obrigava os funcionários a dividir o salário com ele, prática criminosa conhecida como “rachadinha”. Com o dinheiro, o vereador supostamente comprava votos de eleitores em troca de favores.

Também nesta terça-feira, a Justiça acatou o pedido da Polícia Civil e converteu a prisão temporária dos seis investigados em prisão preventiva. Segundo a polícia, o pedido foi feito porque o prazo da prisão temporária, que já havia sido prorrogada por cinco dias na última sexta-feira (3), terminaria nesta quarta-feira (8).

Com a decisão, Carlinhos do PS e as outras cinco pessoas, que estavam na cadeia de Avaí, foram levados para a sede da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), onde foram formalmente indiciados e na sequência transferidos para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru.

O delegado Gláucio Stocco também confirmou que vai pedir à Justiça a quebra de sigilo bancário dos suspeitos.

Outra situação é em relação a vários materiais esportivos que também estavam com o vereador, como bolas, redes e uniformes. O delegado está levantando também porque o parlamentar tinha uniformes escolares da rede estadual de educação e da rede municipal de ensino da cidade de Guaratinguetá.

Já o dinheiro apreendido na casa do ex-vereador, cerca de R$ 63 mil, foi depositado em uma conta judicial e as cestas básicas e medicamentos também encontrados no imóvel foram doados para o Fundo Social de Solidariedade para encaminhamento para famílias em situação de vulnerabilidade.

Depoimentos

No âmbito da investigação policial, três vereadores da Câmara de Bauru (SP) foram intimados nesta quarta-feira pela Polícia Civil para prestar depoimento sobre o caso. Além disso, os ex-prefeito e vice, Clodoaldo Gazzetta (PSDB) e Toninho Gimenes também foram ouvidos.

Segundo a polícia, os vereadores Pastor Bira (Podemos), Chiara Ranieri (DEM) e Eduardo Borgo (PSL) foram chamados porque em discursos na tribuna teriam falado sobre situações que envolveriam as irregularidades cometidas pelo vereador investigado.

Cooptação de eleitores e ‘rachadinha’

No dia 29 de novembro foram cumpridos mandados por policiais da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic). Um deles na casa do parlamentar, onde os policiais encontraram R$ 63 mil em dinheiro, cestas básicas, contas de terceiros e uniformes de futebol.

Ainda segundo a polícia, o vereador tinha o cadastro de 20 mil bauruenses com os números dos títulos eleitorais. As investigações apontam que ele distribuía cestas básicas e chegava a pagar contas de água e luz em troca de votos. Carlinhos do PS está em seu quarto mandato do vereador.

O delegado explicou que as investigações começaram há cinco meses a partir de denúncias iniciais apresentadas pelo presidente da Emdurb, Luiz Carlos da Costa Valle. Segundo ele, Carlinhos teria cobrado a demissão dos servidores para novas contratações indicadas por ele.

 “O presidente da Emdurb foi cobrado pelo vereador a partir do momento que o novo Poder Executivo assumiu. E todos os cargos em comissão foram cortados para serem recontratados, segundo o critério da nova administração”, explica o delegado.

Ainda segundo o delegado, a partir da denúncia, a Polícia Civil evidenciou que o vereador tinha direito a indicar cargos na Emdurb. Com a indicação e a conivência do Poder Executivo, o servidor ingressava no cargo e era obrigado a integrar a “rachadinha” do salário com o agente político, informou a polícia.

Durante as buscas na casa do vereador, a Polícia Civil descobriu uma lista de possíveis eleitores com o favor que cada um solicitou ao vereador, além dele indicar funcionários para cargos públicos.

Fonte: portal g1

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