Dos venenos aos remédios: como o Cevap ajudou a implantar ideias inovadoras na Unesp

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Dos venenos aos remédios: como o Cevap ajudou a implantar ideias inovadoras na Unesp 11 abril 2026

Criado como proposta integrativa, Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos tornou-se referência internacional e participou ativamente da trajetória de consolidação da Universidade

Por: Leandro Rocha

Quando a Unesp foi criada, em 1976, reunindo institutos isolados distribuídos pelo Estado de São Paulo, o desafio era construir uma identidade comum e integrativa. A Universidade nascia ampla em território, mas ainda precisava afirmar e agregar sua capacidade científica. Produzir conhecimento relevante, fora dos grandes centros tradicionais, era o maior desafio desse processo.

No fim da década de 1980, em meio à consolidação institucional, surgiu na Faculdade de Medicina do câmpus de Botucatu uma proposta que parecia inovadora e ao mesmo tempo desafiadora: estudar venenos animais com o objetivo de transformá-los em medicamentos.

O embrião do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da Unesp (Cevap) começou de forma modesta, mas com o apoio integral de cinco unidades universitárias da Unesp: Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) – câmpus Botucatu, Instituto de Biociências de Botucatu (IBB), Instituto de Biociências de Rio Claro (IBRC) e Faculdade de Ciências Farmacêuticas – câmpus Araraquara. Não havia estrutura, os recursos eram escassos e a desconfiança de alguns gestores estava presente. Houve questionamentos sobre prioridade orçamentária e sobre a própria pertinência do tema. Antes mesmo de existir formalmente, o Centro precisava demonstrar que era necessária a sua existência. Um serpentário improvisado e sucessivas negativas marcaram os primeiros anos do projeto.

A consolidação não foi linear nem muito fácil. Em diferentes momentos, o projeto enfrentou incertezas institucionais e restrições orçamentárias que colocaram em dúvida sua continuidade. Como recorda o professor Benedito Barraviera, um dos fundadores do Centro, foi preciso transformar limitações em estratégias de sobrevivência e responder às críticas com produção científica consistente. A continuidade não foi automática: cada artigo publicado, cada estudante formado e cada produto desenvolvido funcionavam como resposta e argumento institucional.

Essa trajetória é revisitada no livro “Dos Venenos aos Remédios – Trinta anos de resiliência, empreendedorismo & inovação” (Unesp/Cevap), recém-lançado. No prefácio da obra, professor Barraviera sintetiza a experiência acumulada ao longo dessas décadas ao afirmar: “Em ciência e educação, projetos não sobrevivem sem continuidade, e esta obra nos mostra como preparar o terreno para que novas ideias e conquistas cresçam e perdurem.”

Criado oficialmente em 1993, o Centro consolidou-se ao longo dos anos seguintes como Unidade Complementar da Unesp, modalidade Instituto de Pesquisa e Inovação. Estruturou grupos de pesquisa e criou o periódico científico Journal of Venomous Animals and Toxins including Tropical Diseases (JVATiTD), apresentado como o primeiro periódico científico 100% digital do Brasil, hoje indexado nas principais bases de dados internacionais. A iniciativa, pioneira em seu formato, simbolizou a vocação do Centro para antecipar tendências e ampliar a inserção global da Unesp na pesquisa de fronteira.

Para Marcelo Morales, secretário de Pesquisa e Formação Científica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação à época do depoimento do livro, o Centro antecipou um modelo que só mais tarde se consolidou como política pública estruturada. “Enquanto o mundo corria atrás de soluções, o Cevap já trilhava a ponte entre o laboratório e a vida, entre a descoberta e o cuidado”. Ao reconhecer essa capacidade de conectar bancada e aplicação clínica, Morales associa o Cevap ao conceito de ciência translacional (da bancada ao paciente) antes mesmo de sua consolidação formal no país.

Na esfera institucional da Universidade, a leitura converge para o mesmo ponto. Para Pasqual Barretti, atual diretor-presidente da Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp) e reitor da Unesp entre 2021 e 2024, o êxito do Centro decorre da combinação entre inovação e compromisso público. “Desde sua criação, o Cevap soube articular ousadia científica com sensibilidade social, transformando a investigação em descobertas e, sobretudo, em benefícios tangíveis para a sociedade”. A avaliação reforça que a consolidação do Cevap não se restringe à produção acadêmica, mas se expressa na geração de impacto social concreto.

O reconhecimento também se projeta no debate sobre autonomia tecnológica. Marco Antonio Zago, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), afirma na obra que “a história de sucesso é a garantia de que o Cevap será, num futuro próximo, o elemento fundamental no cenário da indústria brasileira de medicamentos”. Ao situar o Centro na cadeia estratégica de desenvolvimento farmacêutico nacional, Zago amplia sua relevância para além do ambiente universitário.

Já Carlos Frederico Graeff, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp, destaca que a consolidação do Cevap como referência nacional em ciência translacional, produção de biofármacos e formação de pesquisadores resulta de uma governança resiliente, sustentada por parcerias estratégicas e compromisso público. Para ele, essa cultura institucional explica a capacidade do Centro de atravessar períodos de escassez e se afirmar como modelo organizacional dentro da universidade pública.

Mais do que produzir ciência aplicada, o Cevap formou gerações de pesquisadores que passaram a atuar em universidades, institutos e órgãos reguladores, ampliando sua influência para além da Unesp. A fábrica-escola dedicada à produção de amostras de biofármacos para pesquisa clínica, implantada três décadas após os primeiros improvisos, tornou-se símbolo dessa maturidade: integração entre bancada, hospital e indústria.

Ao completar 50 anos, a Unesp revisita sua trajetória de consolidação e expansão científica integrada. A história do Cevap acompanha esse percurso e ajuda a explicá-lo. Segundo o professor Márcio de Castro Silva Filho, diretor científico da Fapesp: “Ciência e inovação não se constroem apenas com recursos, mas sobretudo com visão, coragem e resiliência”. Em uma Universidade que chega ao meio século de existência, o Cevap demonstra que inovação não nasce de estruturas prontas, mas da capacidade e coragem de persistir, inovar e responder aos desafios, especialmente quando  não há garantias de sobrevivência.

Jornal da Unesp

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