Dona Orelina: A incrível história de fé da mulher com o dom para fazer o bem

 

Fotos: Acontece Botucatu

Nascida no Sergipe em 1930, dona Maria dos Santos viveu grande parte da vida na Rua Turma Seis em Vitoriana, distrito de Botucatu. Mas por esse nome, praticamente ninguém vai saber quem é, já que a mulher de 86 anos ficou conhecida apenas por um apelido. Dona Orelina.

O apelido, que muitos pensam ser o seu nome verdadeiro, veio ainda na infância. A apesar da idade avançada, ela conta com riqueza de detalhes. A voz mansa e o jeito simples de falar enriquecem a conversa.

“Foi meu ‘padinho’ que colocou esse apelido. Na minha casa todo mundo era Maria. Tinha Maria Francisca, Maria Josefa, tudo Maria. Daí me batizaram por Maria dos Santos e meu ‘padinho’ me apelidou assim. Ninguém sabe que sou Maria dos Santos”, revela Orelina.

Itabaiana Grande, município do agreste sergipano, foi o local exato onde nasceu Dona Orelina. Ali viveu sua infância e parte da adolescência, até se casar. A partir daí começou uma peregrinação até chegar a Vitoriana, sempre com muita luta e esforço, que fez ela se emocionou ao contar a longa trajetória que a trouxe até aqui.

“Depois que me casei fui embora para São Paulo e de lá fui para Socorro. Depois fui para Ilha Bananal e depois disso Mato Grosso. Daí meu filho veio pra cá e arrumou serviço na Usina da Barra Bonita. Não tinha dinheiro pra vir todo mundo, então primeiro vieram dois filhos e meu marido. Eu fiquei lá com mais duas meninas. Eles trabalharam, arrumaram dinheiro e foram buscar a gente. Foi difícil ficar separado, era muita saudade e sofrimento. Daqui nunca mais saí, só saio quando o Nosso Senhor me chamar”, disse Orelina, já com os olhos marejados ao lembrar o esforço para manter a família unida.

O dom de benzer

Poucas pessoas conheciam essa história de vida, já que a fama da aposentada é outra. Foi benzendo as pessoas que a ela virou Dona Orelina, a benzedeira de Vitoriana. Ela conta que esse dom a acompanha praticamente desde o seu nascimento.

“Pois é, fio. Uma vez eu fiquei doente, quando era bem pequena e minha mãe me levou em um homem que benzia o povo lá em Socorro. E ele contou pra minha mãe que iria me benzer, mas que eu tinha um dom de nascimento. Ele disse: Ela vai fazer caridade pro povo, vai fazer o bem. Me lembro disso”, recorda.

Mas foi um tempo depois que Maria dos Santos teve sua primeira experiência marcante. Já com a família toda na Ilha Bananal, hoje estado do Tocantins, às margens do rio Araguaia, Orelina disse que sua vida mudou ao conseguir ajudar um menino que, segundo ela, sofria de ‘lombriga’ (ascaríase, doença parasitária causada pelo verme Ascaris lumbricoides).

“Tinha um menino de uma vizinha que tinha ataque disso. Ele dava cada pulo e ficava se batendo no chão. A mãe dele pegava uns galhos de árvore e batia nas pernas para ele voltar ao normal e ele sofria muito. Um dia eu estava perto dele, ele deu um pulo e caiu. Daí meu Anjo da Guarda me disse para fazer a caridade e pediu para não deixar ela bater no menino. Ela saiu para pegar os galhos, mas antes disso eu peguei ele nos braços, coloquei em cima da cama e alisei a barriguinha dele e dormiu. Quando ela voltou perguntou do filho se referindo a ele como moleque sem vergonha. E eu disse que ele não era isso. Mandei ela ir embora para a casa dela e disse que ele estava dormindo e quando acordasse eu levava ele embora. Ele acordou muito tempo depois, melhor e nem sabia onde estava. Levei ele embora e muito depois a mãe dele me perguntou: O que a senhora fez com ele? Eu respondi que nada, apenas que o Divino Pai Eterno mandou fazer uma oração pra ele e que era pra ela nunca mais bater nele, que ele nunca mais ia ter acesso de lombriga”, relembra Orelina.

Ao mesmo tempo que conta com satisfação suas histórias, também tem uma preocupação. “Quando eu falo assim, conto uma história como essa da Ilha Bananal, vão pensar que essa velha aqui é mentirosa, mas eu não sou não, é tudo verdade”, completa.

No pequeno altar em sua humilde casa, imagens que mostram sua devoção e revelam uma mulher muito religiosa. “Sou católica e ei de ser até Deus me chamar. E sou devota de Nossa Senhora Aparecida, com muito amor”. Explica sorridente.

Boa prosa

Diariamente muitas pessoas passam por ali, ficam de dois a três minutos apenas, tempo que dura a oração com suas folhinhas verdes, que chegam a secar durante a reza, e vão embora. Mal sabem que ali, além da ‘benzedeira’, tem uma senhora de 86 anos com uma enorme disposição de conversar e contar suas histórias, que são maravilhosas.

Com a saúde em dia, como ela mesma diz, e com um cachimbinho de fumo que possuiu há décadas, Dona Orelina conta como é a relação com os filhos. Ela enterrou 5 dos 12 filhos que teve.

“Cinco filhos Deus levou pra junto dele. Hoje tenho 7 filhos, 4 homens e três mulheres, todas casadas, graças a Deus. Minha filha que mora aqui em Vitoriana vive falando pra eu ir morar ali com ela, meu genro, que é um amor de pessoa também fala, mas eu digo que não. Tenho outra filha que mora em Botucatu e que disse que queria me levar pra ficar tranquilhinha lá com ela, mas eu digo que não. Daqui da minha casinha só saio quando o Divino Pai Eterno me chamar”, diz.

Aos 86 anos, segundo suas contas, e tendo batalhado de forma muito dura pela vida, é justamente sobre a morte que ela dá um último recado. “Às vezes me perguntam se tenho medo de morrer ou se vou morrer logo. Mas eu digo que todo mundo sabe, nasceu, um dia vai morrer. Você pode estar alegre e satisfeito com sua vida na terra, mas chegou a horinha que Deus marcou, não tem como, nós vamos embora” finaliza a conversa Maria dos Santos, a Dona Orelina de Vitoriana.