“Dentista: os desafios e as lembranças de um profissional experiente em Botucatu”

 

“Sempre falei que ia ser dentista, não sei porque”, começa a contar Walter Theodoro Barbosa, 81 anos, dentista aposentado, sobre seus quase 50 anos de profissão.

Talvez fosse o destino, já que ele nasceu no dia de Tiradentes e este é um dos seus conhecidos trocadilhos. Também foi por sua habilidade e dedicação.

Neste dia 25 de outubro, Dia do Dentista Brasileiro, o Acontece Botucatu traz o relato deste profissional que cuidou da boca e dos dentes de muitos botucatuenses e inspirou outros tantos a se tornarem dentistas.

Barbosa foi da segunda ou terceira turma da FOB, Faculdade de Odontologia de Bauru, da USP. “Começamos em 1965, terminamos o curso em 1968 e a colação de grau foi no começo de 1969”.

 

Com um empréstimo, conseguiu alugar uma sala em cima da Casa Royal, na Rua Amando de Barros. Depois comprou um consultório antigo de um colega e equipamentos novos e lá começou a trabalhar em 20 de junho de 1969.

Naquela época, segundo ele, existiam em Botucatu “6 ou 7 dentistas e os práticos”. Barbosa lembra que inovou na cidade trazendo atendimento com hora marcada e Pediatria.

“Para implantar a hora marcada foi um problema, o pessoal não estava acostumado e ninguém dava valor para o dente-de-leite”. Também foi responsável por montar o serviço dentário no Senac, em 1971.

Conquistando clientela cada vez maior, conseguiu quitar o empréstimo em 1972, se casou e reformou a antiga oficina de rádios do seu pai, na Rua Quintino Bocaiúva esquina com João Passos, para instalar o consultório onde atuou até 2018. E sempre fazendo de tudo.

“Cliente chegava e tinha que resolver, tinha que fazer de tudo: dentística, cirurgia, endodontia, até o que eu não gostava”, conta. Quando os especialistas chegaram, Barbosa passou a encaminhar os serviços, afinal “cada um tem que saber seus limites”.

Foram tantas pessoas e famílias que passaram por sua cadeira, que a memória não dá conta. Cita o Brigadeiro Silva, pai do cantor Lulu Santos e o ex-modelo Ranimiro Lotufo, além de professores da Unesp.

Lembra de um trabalhador de uma fazenda, que ele fez “de canino a canino” e não podia pagar nada mas lhe rendeu uma grande satisfação pessoal e de um garoto que encontrou na rua com um problema no dente da frente e ele se ofereceu para consertar. Anos depois, um rapaz o encontrou e perguntou “o senhor não lembra de mim, sou aquele menino..”.

“Isso é o que vale”, afirma Barbosa emocionado. “Nunca deixei de atender ninguém porque não tinha como pagar. E isso foi um negócio que herdei do meu pai”, enfatiza. Respeito pelos clientes foi uma de suas características e “responsabilidade, ser honesto” é o que aconselha para novos dentistas.

“Na minha profissão fui um vencedor”, garante Barbosa. Conta orgulhoso que ficou sabendo recentemente que algumas restaurações que fez há 20 anos ainda estão intactas. A única frustração é que nenhuma das suas 4 filhas quis seguir. O consultório do dentista ainda está montado. “Não sei o que vou fazer, talvez doar”, diz ele. Ou é a forma de guardar as lembranças da carreira.