‘Chegaram a procurar meu corpo’, diz sobrevivente que teve o carro ‘cravado’ em rodovia após ser levado por enxurrada

O motorista que teve o carro “cravado” de frente no canteiro da Rodovia Marechal Rondon (SP-300), em Botucatu (SP), durante a tempestade que atingiu a região na segunda-feira (10), descreveu o momento em que foi levado pelo rio e como sobreviveu ao incidente.

O trecho é o local onde um caminhoneiro morreu depois de ter o veículo “engolido” por uma cratera que se abriu na pista. A rodovia foi interditada e deve ser parcialmente liberada nesta sexta-feira (14). Enquanto isso, motoristas precisam utilizar rotas alternativas.

O sobrevivente Jhonatas Moraes contou ao G1 que até os bombeiros não imaginavam que ele havia conseguido sair daquela situação. “Chegaram a procurar o meu corpo”, comentou Jhonatas, antes das equipes de resgate descobrirem que ele estava vivo.

Jhonatas disse que saiu de São Manuel e seguia para o aeroporto de Guarulhos, por volta das 3h30, para um compromisso profissional. O químico relatou que passou o primeiro pedágio em Botucatu e não percebeu que a rodovia já tinha se transformado em um rio.

“Já havia rompido a represa e transbordado o rio, mas ninguém sabia, eu fui o primeiro. Como chovia muito, eu não tive a percepção de que estava passando um rio no meio da estrada. Só lembro que eu senti uma grande pancada e quando eu me dei conta, eu estava no meio do rio”, lembra Jhonatas.

Segundo o motorista, ele ainda tentou ligar o carro duas vezes no meio da enxurrada porque não sabia a dimensão do ocorrido. No entanto, o veículo não funcionava e, quando ele olhou para fora, percebeu que precisava agir.

Até então, Jhonatas explicou que a cratera ainda não estava aberta ou, pelo menos, não estava visível. Ele também disse que não chegou a ver quando o caminhão que foi arrastado chegou no local.

“Eu já tinha lido em algum lugar que o ideal não é sair do carro. Mas eu não achei tão seguro ficar no veículo, então minha escolha foi sair. Eu abri a porta e já foi entrando muita água, estava batendo um pouco para cima do joelho. Aí me veio outra dúvida: para onde eu vou?”, conta.

O motorista disse que decidiu ir na direção em que o carro dele estava sendo levado pela enxurrada porque conseguia ver a profundidade no trecho. Jhonatas seguiu a pé até o pedágio, que fica a cerca de 1,5 quilômetro do local onde estava.

‘Escolhas felizes’

“Eu tive escolhas muito felizes. Se eu não saísse do carro, eu ia ser arrastado e ia parar onde o carro parou. Eu conversei com os bombeiros e me deram duas opções: ou eu ia morrer afogado dentro do carro ou eu ia tentar sair e ia ser arrastado pela correnteza naquela parte mais profunda”, revelou.

Jhonatas também contou que o cenário era desesperador, pois a água tomava o trecho de Botucatu no momento da tempestade. Segundo ele, todos os fatores contribuíram para que a cena fosse amedrontadora, mas ele conseguiu manter a calma.

“O cenário era caótico. O barulho do rio era medonho. A escuridão poderia ter tirado toda a minha paciência, mas Deus me deu a calma necessária”, lembra.

Desespero da família

O químico perdeu o carro e tudo o que estava dentro dele, inclusive o celular. Por isso, ele teve dificuldades em ligar para família e dizer que estava bem. No pedágio, os telefones só faziam ligação interna e o sinal do celular que emprestaram para ele não estava funcionando.

Em seguida, ele foi levado ao posto da Polícia Rodoviária para registrar um boletim de ocorrência. De lá, ele pegou um táxi e voltou para São Manuel.

Segundo o motorista, durante todo esse período, a família dele estava desesperada e viu na televisão as imagens do carro dele. Por isso, os parentes chegaram a ligar no aeroporto para ver se ele tinha conseguido pegar o voo.

A família só descobriu que ele estava bem quando Jhonatas chegou na casa da sogra, em São Manuel, por volta das 10h.

Jhonatas não teve “nenhum arranhão” por conta do acidente, somente o corpo dolorido pela pancada ao entrar com o carro no rio. Nas redes sociais, ele postou um relato contando a experiência e agradecendo à nova chance. Jhonatas conta que, à noite, a família se reuniu para jantar e celebrar a vida.

“Alguns dizem que vi a morte. Eu afirmo que vi a vida na sua essência”, escreveu Jhonatas.

Mortes e estragos em Botucatu

A tempestade que atingiu Botucatu na madrugada de segunda-feira (10) provocou grandes estragos. O prefeito da cidade, Mário Pardini (PSDB), decretou estado de calamidade.

Durante as chuvas, carros foram engolidos por crateras, casas desmoronaram e ruas ficaram alagadas. Quatro mortes foram registradas na cidade e mais de 150 pessoas ficaram desabrigadas.

Uma das vítimas que morreu era o motorista do caminhão arrastado pela cratera aberta na Rodovia Marechal Rondon, mesmo local onde o motorista Jhonatas teve o carro arrastado e cravado no canteiro.

Em outro acidente, um carro com três pessoas foi arrastado pela enxurrada no distrito de Vitoriana, também em Botucatu. Os corpos das duas mulheres foram encontrados próximo ao veículo, no Rio Capivari, e o de um homem foi localizado horas depois.

Segundo a Defesa Civil, choveu 270 milímetros durante toda a segunda na cidade. A prefeitura cancelou o carnaval para usar a verba na reconstrução da cidade. O Fundo Social de Solidariedade está recebendo doações para ajudar as famílias afetadas.

Fonte: G1