Área histórica da Fazenda Lageado passa por avaliação de especialistas

Por meio de uma parceria entre a Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Associação Brasileira de Ensaios Não Destrutivos (Abendi), pesquisadores e representantes de empresas estão fazendo um amplo levantamento das condições da área histórica da Fazenda Experimental Lageado. O objetivo do esforço conjunto é compor um diagnóstico completo do local, incluindo terreiros de café, tulha, o casarão que abriga o Museu do Café e demais edificações do entorno, para permitir a elaboração de projetos de recuperação da área.

A área histórica da Fazenda Experimental Lageado, tombada Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), foi um dos pontos comprometidos pelas fortes chuvas que castigaram Botucatu em fevereiro deste ano. As dificuldades financeiras enfrentadas pela Unesp e a grave crise econômica pela qual o país vem passando, têm dificultado a recuperação do espaço, que segue fechado à visitação pública.

“Não podemos correr o risco de perdermos alguma parte desse patrimônio”, afirma o professor Carlos Frederico Wilcken, diretor da FCA. “Temos buscado recursos por meio de projetos e solicitações de colaborações. E uma das iniciativas se dá agora graças aos contatos com o arquiteto botucatuense Guilherme Michelin, docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que mobilizou especialistas e empresas para esse levantamento do estado da área histórica do Lageado”.

Michelin participou da criação e é o atual coordenador da Comissão Técnica do Patrimônio Cultural da Associação Brasileira de Ensaios Não Destrutivos (Abendi), que reúne pesquisadores vinculados a diversas universidades brasileiras para estudar a relação de métodos de ensaios não destrutivos para desenvolver ações de diagnóstico e intervenção no patrimônio cultural edificado.

Ensaios não destrutivos são técnicas de inspeção e análise utilizadas na ciência e na indústria para avaliar as propriedades de um material, componente ou sistema, sem causar danos ao que é objeto do exame. Os ensaios não destrutivos utilizam técnicas como ondas eletromagnéticas, acústicas, ultrassom, radiografia e outras.

Segundo Michelin, o intuito dessa Comissão é desenvolver novos métodos e adequar métodos e equipamentos comuns na indústria e na própria construção civil, mas que ainda são pouco utilizados na preservação do patrimônio. “Não podemos quebrar indiscriminadamente uma obra ou edificação tombada porque a materialidade é algo importante para nós. Existem equipamentos e métodos que podem nos fornecer dados para que possamos fazer um diagnóstico efetivo e tratar apenas os problemas pontuais, intervindo o mínimo possível. É óbvio que se conseguiria resolver isso de uma forma rápida, desmontando tudo e refazendo tudo, mas quando se trata de patrimônio isso é impossível”.

Composta por pesquisadores com formações diversas, vinculados a instituições como Unicamp, USP, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal de Pelotas/RGS, Universidade Federal do Pará, arquitetos profissionais especializados em restauro e algumas empresas de equipamentos, além da própria Unesp, a Comissão também pretende auxiliar a estabelecer normatizações e desenvolver trabalhos que possam ajudar efetivamente a conservação do patrimônio cultural. A Fazenda Lageado foi escolhida como o primeiro estudo de caso da Comissão.

“Aqui o patrimônio é riquíssimo”, atesta Michelin.

“Temos trabalho a ser feito com edificações, com documentação e com os chamados bens integrados, ou seja, os que não fazem parte da estrutura de uma construção, mas que são diretamente vinculados a ela integrando um determinado conjunto, como obras de arte, bens móveis e outros. Queremos entender a situação atual de tudo isso e com esses dados fazer um diagnóstico coerente e, a partir dele, oferecer soluções pontuais, com o menor custo, da melhor forma, no menos tempo possível”.

Tecnologia de ponta

Nos dias 12 e 13 de agosto, a Fazenda Lageado foi visitada por uma equipe da Faro Technologies, empresa que desenvolve e fabrica soluções de última geração para fazer capturas, medições e análises em 3D de alta precisão em vários setores, como fabricação, construção, engenharia e segurança pública.

A equipe da Faro realizou um escaneamento a laser em 3D na área histórica com um equipamento de última geração, que emite até 1 milhão de raios laser por segundo, captados e transformados em uma nuvem de pontos coloridos que cria um elemento tridimensional de altíssima qualidade, fornecendo a geometria perfeita de uma área e de suas edificações.

“Utilizamos aqui o que há de mais avançado no mercado, um scanner com alcance de 350 metros e precisão de 1 milímetro. Para a área de construção e restauro esse nível de precisão e definição é muito importante. Esse procedimento vai gerar dados que poderão ser usados de várias formas para auxiliar projetos de preservação do patrimônio cultural aqui do Lageado”, conta Adriano Scheuer, gerente de contas sênior da Faro para o segmento de Arquitetura, Engenharia e Construção.

Segundo Guilherme Michelin, o produto do escaneamento será de uma utilidade imensa para o diagnóstico da situação da área e a realização de outras ações futuras.

“É como se eu pudesse levar essa área para dentro do meu computador. Se eu tiver alguma dúvida não preciso vir medir, já tenho o levantamento completo no meu computador, incluindo fotografias em 360º. Ele também pode se transformar num equipamento para a gestão do patrimônio, agregando a instalação de sensores em pontos determinados, permitindo acompanhar tudo o que acontece na área”.

Ele também destaca a economia de tempo e de recursos financeiros. “Se fossemos fazer manualmente esse trabalho de levantamento, eu precisaria de uma equipe grande trabalhando por, no mínimo, três meses e jamais conseguiria a qualidade e a precisão que esse equipamento fornece. Com o equipamento da Faro, o trabalho foi feito em um dia e meio, com uma qualidade impossível de ser alcançada pelos métodos tradicionais”.

Antes da Faro, como parte dos mesmos trabalhos de diagnóstico, a área histórica da Fazenda Lageado já foi visitada por um geólogo da USP de São Carlos que coletou informações com um drone para serem analisadas e cruzadas com as levantadas pelo scanner 3D. No início de setembro, outra empresa parceira deve realizar mais testes na área.

“Entendemos que esse pode ser um caminho muito interessante. Todos os pesquisadores e profissionais do mercado que integram esse grupo da Comissão Técnica estão trabalhando com muito prazer, por se tratar de uma área pública no sentido mais amplo”, destaca Michelin. “Quando a FCA abre esse espaço para a visitação pública ela permite que as pessoas tenham carinho, afeição pela área que faz parte da cultura e da história de Botucatu. As empresas e estão encaminhando seus pesquisadores e seus equipamentos para efetuar os testes aqui de uma forma parceira, sem custos para a Unesp”.

A partir do diagnóstico completo do estado da área histórica, será possível pensar nos passos seguintes e nas formas de captação de recursos. Mas, segundo Guilherme, o mais urgente é estabilizar a área para que os danos não avancem.

“Estamos terminando essa fase de captação dos dados. Vamos executar o diagnóstico na sequência e começar os processos de intervenção que obviamente começa pela estabilização do problema, para que as pessoas possam voltar a frequentar a área. Aqui temos um risco que precisa ser contido primeiramente. Por isso entendemos que é necessário gastar um tempo maior no projeto e no planejamento para fazer ações menores, mais rápidas e mais assertivas”.

Botucatuense e antigo parceiro da Fazenda Lageado, Michelin sabe o que a área significa para a cidade em termos de cultura, lazer e turismo. E faz um apelo. “É preciso paciência, além do carinho, do cuidado e do auxílio da comunidade como um todo. Isso é muito importante para nós. Estamos aqui trabalhando de maneira efetiva para reabrir essa área para todos, com toda a segurança para o público”.