História de Gabigol

Quem vê o jogador que vibra mostrando os músculos e fazendo cara de mau, nem imagina o quanto foi difícil sua primeira infância, lá no bairro Montanhão, São Bernardo do Campo, grande São Paulo. Tiroteios eram comuns na região, o que obrigou, algumas vezes, pai, mãe e sua irmã, Dhiovanna, a procurarem abrigo embaixo de mesas ou atrás do sofá, para escapar das balas. Mas eram comuns e sempre que possível, lá estava o menino jogando bola. Seus pais, Valdemir e Lindalva, logo perceberam que o filho era bastante habilidoso e com algum esforço o colocaram no time de futsal da região, o São Paulo. O menino só evoluía.

Certa feita. O time infantil do Santos subiu a serra para jogar contra o São Paulo do Montanhão. Um massacre, seis a um para o São Paulo, seis gols de Gabriel. O responsável pela equipe santista ficou encantado com aquele menino de oito anos e regressando a Santos comunicou à diretoria que em São Bernardo havia um outro raio, pronto para cair na Vila Belmiro. O responsável por tudo isso? A lenda, um dos maiores jogadores do Santos e do mundo, Zito.

Mas, de fato, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar são sempre outros, e a Vila é pródiga em produzi-los, formá-los, lapidá-los como se fossem verdadeiras pedras preciosas. Desde Pelé, como que a iniciar uma era de raios sem previsão para acabar, a Vila famosa tem dado ao mundo do futebol inúmeros talentos, alguns verdadeiramente geniais. Os meninos da Vila são muitos, a começar pelo rei que estreou como profissional aos dezesseis anos, passando pelo próprio Zito, Pepe, Coutinho, Clodoaldo, Edu, Juari, Diego, Robinho, Alex, Pita, Narciso, Elano, Paulo Henrique Ganso, Neymar, Rodrygo, Gabriel, entre tantos e tantos outros.

Nascido em 30 de agosto de 1996, fosse seu nome William Hill ou qualquer outro, Gabriel foi levado para o Santos com apenas oito anos de idade. Do futsal foi levado para o campo e nas categorias de base do clube foi sempre tratado como uma joia e marcou mais de seiscentos gols. Desde sempre os gols aconteceram e logo Gabriel Barbosa tornou-se o Gabigol. Estreou como profissional em 2013, aos dezesseis anos, com multa rescisória na casa dos cinquenta milhões de euros.

Logo que foi alçado ao profissional tornou-se titular e, quase automaticamente ganhou respeito e reconhecimento da torcida santista, que já o acompanhava desde a base. Um fato marcante ocorrido no ano 2013, foi Gabigol ter assinalado contra o Botafogo de Ribeirão Preto, o gol número doze mil da história do Santos. Em 2014, Gabigol foi artilheiro da equipe na temporada e da Copa do Brasil, repetindo a dose em 2015, com oito gols. No ano seguinte, mais uma vez teve destaque e foi o principal artilheiro do clube e campeão do Campeonato Paulista de 2016.

Pouco tempo depois, foi contratado pela Internazionale de Milão por mais de 27 milhões de euros. Após uma passagem sem destaque pelo time, foi emprestado para o Benfica, no qual teve outra passagem tímida, marcando apenas um gol em uma partida oficial pela Taça de Portugal. Aqui, creio obrigatório que façamos certas distinções; há quem se adapte de imediato a uma mudança tão drástica, e há quem sinta muita dificuldade, afinal, não se trata de uma simples mudança de clube, trata-se de se deparar com outra cultura, outro idioma, outros costumes, trata-se de ir parar em outro país e deixar para trás família, amigos, sua terra natal. Gabigol, certamente, foi um destes casos de inadaptação. Assim, Gabigol retornou ao Santos por empréstimo no início de 2018, deixando o Benfica após seis meses.

Gabigol já era bastante prestigiado no Brasil, mas não foi de imediato que reencontrou seu melhor futebol. No Santos, o retorno foi meio que em câmera lenta, mas aos poucos, o jovem talento foi encaixando. Pelas oitavas de final da Copa do Brasil, assinalou três gols frente ao Luverdense, na goleada por cinco a um completando. Este foi o primeiro hat-trick de Gabigol. Os gols começaram a surgir e Gabigol estava novamente à vontade.

A última partida de Gabigol, vestindo a camisa do Santos, foi contra o Atlético mineiro, vitória santista, três a dois. Gabriel marcou o terceiro gol do Santos na partida e saiu logo depois, dando lugar a Renato, que faria seu último jogo como atleta profissional. Em sua segunda passagem pelo Santos, Gabigol disputou cinquenta e três partidas e marcou vinte e sete gols. Terminou o ano como artilheiro da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro, feito inédito na história do futebol brasileiro. Com a artilharia do Campeonato Brasileiro, igualou-se a Kléber Pereira, Borges e Ricardo Oliveira, como um dos maiores artilheiros do Santos no século XXI.

Em janeiro de 2019, Gabigol foi anunciado pelo Flamengo. Numa operação de empréstimo sem custo, o clube da Gávea ficou responsável, contudo, pelo pagamento integral do salário do craque, quinze milhões/ano. Valeu e vale a pena. Sua passagem pelo Flamengo vem sendo excepcional. Pelo Campeonato Brasileiro de 2019, Gabigol tornou-se o maior goleador do Flamengo em uma edição do nacional, e também artilheiro da competição com vinte e cinco gols.

Ao final do Campeonato Brasileiro, Gabigol passou para a lista dos dez maiores goleadores de uma edição de Brasileirão em todos os tempos, empatando na oitava posição com Careca. O ano foi devidamente coroado com a conquista da Bola de Ouro pela revista Placar, além da premiação   como Rei da América de 2019, pelo jornal El País. Em janeiro de 2020, o passe de Gabigol foi comprado pelo Flamengo por oitenta e três milhões de reais, tornando-se a compra mais cara na história do futebol brasileiro.

Pela seleção brasileira, Gabigol foi destaque na conquista da então inédita medalha de ouro nas Olimpíadas de 2016. O menino só evolui.

Uma colaboração de Sergio Rocha