O dilema da inflação

Por Paulo André de Oliveira

 

O governo vive um dilema entre controlar a inflação e estimular a economia. A inflação que é o aumento generalizado dos preços teve sua estimativa ajustada pelo Banco Central para 5,8% para este ano, enquanto que até maio de 2021 acumulou 8,06% nos 12 meses passados. Estes índices do IPCA (índice de preços ao consumidor amplo) parecem não representar a realidade sentida.

A percepção que temos da inflação difere para cada um de nós. Poderíamos calcular a inflação pessoal anotando o valor de tudo que compramos durante um período de tempo. Na prática os índices de inflação são calculados desta forma, mas estes índices precisam refletir a inflação de todos, que possuem características de consumo diferentes decorrente de uma infinidade de razões como a renda, região, idade etc. Para ter um índice justo se pesquisa, de tempos em tempos, estas características e se atribui a cada item de consumo uma importância (ou peso) no cálculo de inflação. Por mais ajustado que seja este índice à renda e padrões de consumo da população, ainda assim será diferente da inflação de cada um.

Existem vários tipos de inflação, mas as principais são a inflação ocasionadas pelo excesso de demanda ou pela falta de oferta. Quando se tem excesso de demanda os consumidores desejam mais de um produto do que aquilo que está sendo produzido, em geral, são por estímulos como a facilidade de crédito ou alteração na renda. A falta de oferta ocorre por redução na produção, como por exemplo, uma quebra de safra agrícola devido um evento climático ou aumento de custos como o preço do petróleo.

Na pandemia, os aumento de preço tiveram razões mistas o que dificulta a ação de como combatê-la. Um elemento que contribuiu para elevação de preços foi o câmbio. Quando o dólar fica mais caro os produtos importados encarecem porque se precisa de mais reais por unidade de dólar e também os exportáveis porque eles seguem os preços internacionais. Isto quer dizer que as commodities como a carne bovina, soja e açúcar também aumentam de preço no mercado interno, pois o produtor cobra aqui dentro o que ele ganharia lá fora. O que contribuiu para elevar o dólar foi a pandemia que fez muitos investidores estrangeiros tirarem dinheiro do país, por receio dos efeitos da pandemia e pela nossa baixa taxa de juros.

Outros produtos, como o arroz por exemplo, aumentaram a procura. Parece estranho, mas quando a renda cai, uma boa parte da população aumenta o consumo de produtos básicos. Houve diminuição do consumo de outros produtos mais elaborados e não havia outro bem barato e acessível capaz de substituir o arroz na dieta das pessoas. O arroz vinha reduzindo a produção e a demanda até 2019 e com a pandemia retornou o consumo. O retorno do consumo foi muito rápido, ocasionado descompasso com a produção, e assim aumentando o preço.

A melhor forma de controlar preços é estimulando a produção. Com mais concorrência e produção, mais comportados ficam os preços. A pandemia desorganizou a produção com paradas, perda de ganhos de escala, elevação do dólar e das commodities pelo lado da oferta e novos consumos de forma desproporcional como ocorreu em equipamentos de informática e semicondutores pelo lado da demanda. Portanto, uma inflação mista, mas muito mais de custo do que de demanda.

No curto prazo, para se combater a inflação se eleva a taxa de juros. Contudo, o efeito de elevar a taxa de juros impacta mais a demanda, tornando-se mais caro comprar qualquer coisa   com algum tipo de financiamento, resfriando ainda mais o consumo das famílias que ainda está andando de lado. O lado bom sobre a oferta é que ajuda o dólar ficar mais barato segurando preço dos importados e dos exportáveis.

A dosagem da elevação da taxa de juros básica que hoje está em 4,25% cabe ao Banco Central, que sabe que o Brasil está com taxa de juros real negativa, ou seja, a taxa da aplicação financeira é menor do que a inflação. Chegar numa taxa de juros neutra, que não estimule ou desestimule a economia, deve ser o objetivo da autoridade monetária. Assim, ainda temos uma boa margem para elevar a taxa de juros para se evitar o problema maior que é a inflação, ainda que, asfixiando ainda mais o consumo das famílias.

 

Professor da FATEC