A Inflação para a renda de cada um

Paulo André de Oliveira

Quando o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou o índice de inflação de 4,52% para ano de 2020 parecia que algo estava errado. Afinal o índice de inflação representa a alta dos preços em 2020. Os índices de inflação procuram demonstrar a variação dos preços dentro de uma economia. Parece, na verdade, que não representam a realidade da alta de preços recente no Brasil.  O IPCA (índice de preços do consumidor amplo) é o índice oficial da inflação do Brasil, na prática significa que os preços subiram em média 4,52% em 2020.

O fato é que o índice de inflação tenta representar a inflação de todo mundo, por isso a sensação de que este valor não está correto. Cada pessoa tem uma inflação particular, que pode ser calculada, mas os índices precisam ser abrangentes para poderem ser usados para corrigir contratos, negociar salários e para o Banco Central decidir se deve ou não elevar a taxa de juros.

O índice é uma média ponderada da variação dos preços. Para ser calculado qualquer um do muitos índices de inflação, se parte de uma pesquisa anterior chamada pesquisa do orçamento familiar (POF). O objetivo da POF é saber como as famílias gastam a sua renda em alimentos, habitação, lazer, saúde, transporte num total de doze grupos diferentes de despesa, no caso do IPCA. Esta pesquisa é feita por amostragem, em períodos que variam de 5 a 10 anos, considerando diversas características demográficas entre elas a renda familiar.

Os hábitos de consumo de uma família de renda até R$ 3.000,00 pode ser diferente de uma família de renda de R$1.0000,00. Digo “pode”, porque eles podem ter hábitos idênticos, mas a família de renda maior ainda consegue fazer maior poupança.

A grande diferença está na importância do gasto (peso) no orçamento familiar. Por exemplo, se ambas gastarem R$1000,00 com alimentos, o peso será de 33,3% na família de menor renda e 10% na de maior renda. Qual o peso certo para o índice de inflação que servirá para todos? Bem, temos mais famílias que ganham R$ 3.000,00 ou R$10.000,00? Com certeza até R$3.000,00, logo será mais “pesado” no índice a variação dos preços destas famílias, do que as de R$10.000,00. Além disto, as características regionais devem ser consideradas, pois “buchada de bode” faz mais sucesso em São Luís (MA) que em Porto Alegre (RS).

Então, quando muitos meios de comunicação diz que a inflação dos “mais pobres” subiu mais, significa que o grupo de maior peso para as faixas de renda menor tiveram maior alta. O principal item é a alimentação dentro de casa, que teve variação de 4,56% para a menor renda e 1,68% para as faixas de renda mais elevadas. Tanto os “mais pobres”, como os “mais ricos” tiveram alta nos preços dos alimentos, inclusive poderiam comprar exatamente os mesmos itens, só que a importância dos alimentos é maior para os “mais pobres”. Logo, a alta de preço nos alimentos é igual para todos, mas a inflação é diferente por conta dos pesos.

O índice de inflação divulgado é geral. Existe o detalhamento de cada faixa de renda, região e grupo de produtos. Este detalhamento explica para onde vai a renda do brasileiro. Em 2020, a pandemia forçou uma mudança nos hábitos de consumo dos brasileiros, que fez com que os pesos da POF ficassem distorcidos. Ou seja, além da inflação particular de cada um, a POF realizada em 2017 não capitou completamente as mudanças, que em parte foram temporárias. Portanto, os índices de inflação estão corretos segundo cada método e objetivo, mas as vezes ficam fora de foco na nossa lente pessoal.

 

Professor da FATEC