A incerteza da modernidade liquida

Por Paulo André de Oliveira 

A sociedade do século 20 sofreu uma passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo.  Isso não significa que não exista uma produção, mas que o sentido do ato de consumir ganhou outra importância.

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, falecido em janeiro de 2017, na medida em que o futuro se torna incerto, o sentimento coletivo dominante é que se deve viver o momento presente e exclusivamente para si. Nesta instabilidade e ausência de perspectiva o consumismo se torna cada vez mais presente. Bauman cunhou o conceito de “modernidade líquida” para definir o tempo presente.

Escolheu a metáfora do “líquido” ou da fluidez como o principal aspecto do estado dessas mudanças.  A liquidez da sociedade se dá pela sua incapacidade de tomar forma fixa, diria Bauman. Ela se transforma diariamente, toma as formas que o mercado a obriga tomar, não propicia a elaboração de projetos de vida, afinal como ter um projeto de vida quando os antigos empregos para toda a vida já não existem mais? Como planejar sua vida sendo freelancer de um projeto de três meses em uma empresa qualquer? Como fazer um projeto de vida se cortes acontecem semestralmente e se funcionários fixos são cada vez mais trocados por terceirizados ou por contratos de pessoa jurídica?

Mas não seria possível ter uma sociedade menos volátil em que a perspectiva de futuro fosse mais sólida?  Empregos na mesma empresa por toda a vida? Faz algumas décadas que isto já não ocorre em países desenvolvidos como os Estados Unidos ou Japão. Por mais angustiante que possa parecer, estas mudanças ocorrem em todo o mundo e no Brasil não poderia ser diferente. As incertezas estão ai e precisamos conviver com elas.  A sociedade líquida, ao contrário do que ocorreu durante o século XX, não consegue pensar em longo prazo, não consegue traduzir seus desejos em um projeto de longa duração e de trabalho duro e intenso para a humanidade.

Esta sensação da sociedade se reflete, por exemplo, na dificuldade que as pessoas têm em fazer uma poupança para aposentadoria. Não pela falta de dinheiro, que seria a explicação mais simples, mas pela falta de vontade de fazê-la, preferindo o consumo imediato, pois não sabe como será o futuro, ou o vê como algo muito distante. Fazer a própria poupança para o futuro gerenciando os recursos é algo muito difícil para a maioria das pessoas.

Por causa desta dificuldade, muitas vezes é melhor utilizar uma previdência privada, que nada mais é do que uma instituição financeira cobrando para guardar dinheiro para você e ainda criando dificuldades para sacá-lo. O lado positivo disto é que esta instituição gerencia o recurso para render e ainda afasta a possibilidade de um consumo desenfreado ao se ter um montante considerável. A “modernidade liquida” explica que a falta de perspectiva nos leva ao consumismo como forma de compensação.

Com a industrialização veio o desenvolvimento econômico nos moldes do liberalismo e o consumismo alienado, ou seja, é como se as mercadorias fossem entidades abstratas e autônomas, independentes dos esforços humanos. Porque agora o homem não consome mais os produtos que ele mesmo elabora, pois a divisão social do trabalho mudou esta relação com a especialização produtiva, ou seja, o homem se encontra apartado dos frutos de seu próprio trabalho, afinal de contas poucos trabalhadores consomem a própria comida que plantou.

Não é possível criar uma solidez na sociedade, por meio de leis, que afastem toda a incerteza nas relações de trabalho ou na economia, contudo é possível criar leis que se adaptem às mudanças da sociedade e protejam contratos como já vem ocorrendo. A perspectiva positiva, e digamos “menos liquida” não está mais garantida em leis e tabelamentos, mas sim no crescimento econômico.

 

Paulo André de Oliveira é Economista e Professor da FATEC