Cidades dormitório e o movimento pendular

Paulo André de Oliveira

Uma cidade-dormitório é o nome dado à cidade em que habita uma grande quantidade de moradores que trabalham ou estudam em uma cidade vizinha próxima. Esse tipo de cidade se encontra geralmente no interior de regiões metropolitanas, ligadas por processos de conurbação (junção de cidades com seus arredores, que constituem uma sequência, sem, contudo se confundirem) que fazem com que as rodovias sejam utilizadas para transporte diário entre a casa e o trabalho (movimentos pendulares).  Nesse caso, a cidade que atrai o trabalhador ou estudante é chamada de cidade-núcleo.

O conceito de cidade-dormitório é muitas vezes utilizado também na caracterização de uma cidade que não apresenta condições de trabalho para manter parte de sua população fixa. A cidade-dormitório é vista ainda como lugar de marginalização, de periferização e de pobreza, bem como de baixo índice de qualidade de vida. Porém, o conceito de cidade dormitório tem sido questionado, visto que há cidades que, embora apresentem forte movimento pendular de seus moradores, não correspondem a essas características de baixa qualidade de vida. Há, por exemplo, uma expansão residencial de média e alta renda nessas regiões metropolitanas. Além disso, tal processo tem ocorrido também em outras localidades que não a das regiões metropolitanas legitimadas. Diante disso, o nome cidade-região também tem sido utilizado para designar essas cidades, evitando-se sentidos indesejáveis ou pejorativos que possam recair sobre elas.

Uma das medidas utilizadas pelos prefeitos destas cidades é oferecer transporte gratuito ou subsidiado(o governo paga parte do transporte) para que o trabalhador ou estudante se desloque para a cidade-núcleo. Apesar de não ser a situação ideal,  esta medida contribui para amenizar as dificuldades destes cidadãos. O ideal seria atrair empresas para estes municípios, e assim,  aumentar a geração de emprego e renda, contudo trata-se de uma situação complexa. A partir de um determinado momento a tendência é de que as empresas também tenham uma maior atração pela cidade-núcleo, em geral, pelas mesmas razões que a tornaram um polo regional como logística favorável, mão de obra qualificada e aglomeração de empresas de um mesmo setor produtivo.

Para a cidade núcleo estes trabalhadores geram produção nas empresas e podem gerar receita para empresas como postos de combustíveis, transporte,  alimentação, educação entre outras. Para a cidade dormitório ocorre uma transferência de renda  gerada na cidade núcleo para cidade dormitório. Esta transferência de renda pode ser parcial ou total, dependendo do nível de renda,   movimentando o comércio e outros negócios.

Com a queda da arrecadação das prefeituras,  por conta da recessão dos últimos anos,  muitas medidas vêm sendo tomadas para se conter gastos públicos, entre elas,  o corte deste transporte para a cidade-núcleo. É preciso avaliar  o impacto desta medida de forma ampla, pois  quem utiliza deste transporte, em geral,  tem uma renda mais limitada  e pode ponderar que seja compensatória sua migração para cidade núcleo. Com a migração,  deixa de existir a transferência de renda da cidade núcleo para a cidade dormitório e com ela  todo o efeito multiplicador da renda que ocorre no comércio e na própria arrecadação do município.

 

Professor da FATEC