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A atuação da empresa na cidade faz com que Botucatu já composte 3 vezes mais do que o Brasil

Há dez anos, três jovens empreendedores de Botucatu decidiram transformar um hábito que já fazia parte da rotina em suas próprias casas em uma solução para a cidade: separar os resíduos orgânicos, coletá-los e devolvê-los à terra na forma de composto. Em outubro de 2016 nascia a Ciclo Limpo, empresa filha da Unesp que, ao longo de uma década, vem ajudando a construir uma nova relação dos botucatuenses com aquilo que tradicionalmente chamamos de “lixo”.

De lá para cá, foram 1.350 toneladas de resíduos orgânicos coletadas e encaminhadas à compostagem, que resultaram em 405 toneladas de composto orgânico. O trabalho também evitou a emissão estimada de 1.040 toneladas de gases de efeito estufa e levou a solução da compostagem para 95 bairros e 27 condomínios de Botucatu.

Hoje, a Ciclo Limpo coleta e composta 1 tonelada de resíduos orgânicos todos os dias, por meio de uma rede de 340 pontos de coleta, e que impacta diretamente 2.500 pessoas. Ao longo dos dez anos, já foram realizadas mais de 78  mil coletas.

Mais do que números, os indicadores mostram a consolidação de uma prática que ainda é pouco praticada no país. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), apenas 0,7% dos resíduos orgânicos gerados no Brasil são destinados corretamente através da compostagem.

Em Botucatu, a Ciclo Limpo coleta e composta atualmente cerca de 2% de toda a fração orgânica gerada no município. Isso coloca a experiência local em um patamar 3 vezes maior que a média nacional de compostagem da fração orgânica.

“Quando a gente olha para uma tonelada por dia, pode parecer pouco diante de tudo o que uma cidade gera. Mas, quando olhamos para o que isso representa em dez anos e para o fato de que estamos criando uma cultura de separação e valorização dos resíduos orgânicos, percebemos que existe uma transformação acontecendo”, afirma Julio Pinhel, um dos fundadores da Ciclo Limpo.

De um hábito em casa a uma empresa de Botucatu

A história da Ciclo Limpo começou antes da empresa existir. Julio Pinhel e João Paulo Garcia já tinham o hábito de compostar os resíduos de suas próprias casas quando perceberam que havia uma lacuna na cidade: muitas pessoas queriam destinar corretamente seus resíduos orgânicos, mas não tinham uma solução prática para isso.

A partir dessa percepção, nasceu a proposta de oferecer coleta especializada de resíduos orgânicos para moradores, condomínios, restaurantes, empresas e instituições.

O funcionamento é simples: o usuário separa os resíduos orgânicos na origem, a Ciclo Limpo realiza a coleta e todo o material é pesado e encaminhado para compostagem. Cascas de frutas e legumes, restos de alimentos, borra e filtro de café, saquinhos de chá, folhas, podas e outros materiais orgânicos deixam de seguir junto com os rejeitos e passam a integrar um processo de transformação.

“A nossa ideia desde o começo era mostrar que resíduo orgânico não é lixo. É um recurso que pode voltar para o solo e ajudar a produzir vida novamente”, explica Pinhel.

Ao longo dos anos, a empresa também desenvolveu um sistema de acompanhamento dos resultados. Cada coleta é pesada, permitindo contabilizar quanto material foi desviado da destinação convencional e transformado em composto. Para os usuários, isso significa poder acompanhar concretamente o impacto de uma atitude que começa dentro de casa.

Compostagem também é educação ambiental

Ao longo dos dez anos, a Ciclo Limpo percebeu que seu trabalho não poderia se limitar à coleta e à compostagem. Para que os resíduos orgânicos deixem de ser tratados como lixo, é preciso também mudar a forma como as pessoas enxergam aquilo que descartam.

Por isso, a empresa passou a atuar cada vez mais próxima de escolas, universidades, empresas, condomínios e eventos, promovendo palestras, oficinas, visitas técnicas e atividades práticas de compostagem.

“Percebemos que não somos apenas uma empresa de compostagem. A educação ambiental é uma parte essencial do nosso trabalho. Quando uma pessoa passa a separar o resíduo orgânico em casa, ela começa a olhar de outra maneira para aquilo que antes simplesmente chamava de lixo”, diz Pinhel.

Essa atuação também aproximou a Ciclo Limpo de diferentes iniciativas de educação ambiental e sustentabilidade em Botucatu, ampliando o debate sobre resíduos, compostagem, economia circular e mudanças climáticas.

Dez anos e um novo ciclo

A Ciclo Limpo começou com a ideia de criar uma alternativa para algumas famílias e estabelecimentos de Botucatu. Os resultados alcançados até aqui mostram o caminho percorrido, mas também apontam para o tamanho do desafio que permanece.

O próximo desafio é ampliar essa capacidade e fazer com que uma parcela cada vez maior dos resíduos orgânicos gerados na cidade tenha uma destinação diferente do aterro sanitário.

“A gente celebra muito esses dez anos porque sabe que manter uma pequena empresa de pé, com propósito e consistência, ao longo de uma década, já não é tarefa fácil. Crescer nesse caminho e ampliar o impacto positivo que geramos torna essa conquista ainda mais especial. E, ao mesmo tempo, sabemos que 1 tonelada por dia é apenas o começo. Existe uma quantidade enorme de matéria orgânica que ainda pode deixar de ser tratada como lixo”, afirma Pinhel.

Para ele, a principal conquista da Ciclo Limpo talvez não esteja apenas nas toneladas coletadas.

“Quando começamos, queríamos resolver um problema que existia nas nossas próprias casas. Hoje, dez anos depois, temos milhares de pessoas participando, dezenas de bairros envolvidos e uma cidade que já tem uma experiência concreta de valorização dos resíduos orgânicos. O mais bonito é perceber que isso foi construído coletivamente. A Ciclo Limpo é feita pela nossa equipe, mas também por cada pessoa que separa seu resíduo em casa e acredita que ele pode ter outro destino.”

Ao completar dez anos, a Ciclo Limpo reafirma uma ideia que esteve presente desde o início: resíduo orgânico não é lixo. É matéria-prima para um novo ciclo.

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