Cevap/Unesp terá o único banco de venenos do Brasil

O Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap) da Unesp – câmpus de Botucatu – deu um importante passo em seu processo de consolidação como referência nacional e internacional na área da pesquisa com venenos. A unidade está se estruturando para ser uma nova opção aos cientistas que precisam depositar amostras de moléculas extraídas de venenos e toxinas animais. Será a primeira Instituição brasileira a ter um banco de venenos acessível aos pesquisadores.

O primeiro passo foi dado graças ao recente credenciamento da “Coleção de Venenos Animais” feito pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN) – órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e ao qual são submetidas todas as pesquisas e estudos biotecnológicos desenvolvidos no Brasil. Até então, a Unesp ou outra Instituição brasileira não dispunha de uma coleção específica que atuasse como fiel depositária de venenos animais utilizados em seus estudos, o que dificultava a obtenção de autorização de acesso ao patrimônio genético pelo CGEN e portanto a obtenção de patentes e registro de bioprodutos.

O vice-coordenador-executivo do Cevap, professor Rui Seabra Ferreira Júnior, é o curador da “Coleção de Venenos Animais” e será o responsável pela gestão do banco de venenos. Muitos estudos relacionados a Toxinologia realizados hoje no Brasil estão, de certa maneira, ilegais, pois não possuem autorização do CGEN.

A criação desta coleção veio para resolver este problema. Os próximos passos a serem dados a partir de agora serão no sentido de estruturar um espaço onde os materiais ficarão armazenados e poderão ser acessados pelos pesquisadores a qualquer momento.
“Ainda precisamos definir quais serão os critérios de qualidade e quantidade para que possamos receber os materiais. Outra prioridade será adequar a infra-estrutura necessária, bem como, sistemas de segurança”, comenta Seabra Júnior.

Segundo a gerente de Propriedade Intelectual da Agência de Inovação da Unesp (Auin), Fabíola Spiandorello, espera-se que com o credenciamento do Cevap como instituição fiel depositária de amostras de venenos animais seja um facilitador para o desenvolvimento de pesquisas da área, no que tange ao acesso aos recursos genéticos envolvidos. “Deverá haver um incremento no número de depósitos de pedidos de patente, tendo em vista que um maior número de projetos de pesquisa poderão ser executados. O principal intuito será utilizar os pedidos de patentes como ferramentas para a transferência de tecnologia para companhias que possam desenvolver novos produtos, inovar, com esses conhecimentos”, observa.

A obtenção de autorizações de coleta, transporte, remessa ou acesso a recursos do patrimônio genético é etapa exigida por lei para o início de qualquer projeto de pesquisa, cada qual com suas particularidades. De acordo com Fabíola, essa preocupação deve ser mantida sempre em mente para os pesquisadores que atuam na área de produtos naturais.

O Brasil se notabiliza por sua biodiversidade. São mais de 200 mil espécies já registradas em seus biomas (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa) e na Zona Costeira e Marinha. Estima-se que este número possa chegar a mais de 1 milhão e oitocentas mil espécies.

Na opinião da professora Suely Vilela, coordenadora do Núcleo de Apoio ? Pesquisa em Toxinas Animais da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (NAP-TOXAN-USP), a criação da “Coleção de Venenos Animais” do Cevap será muito importante para a área da Toxinologia. “Esse banco servirá para que nós pesquisadores tenhamos condições de atender a legislação vigente. Apoiamos a iniciativa e estamos ? disposição para colaborar com o objetivo de consolidá-la”, declara, lembrando que atualmente as amostras das pesquisas de seu grupo são depositadas em uma coleção, não-específica, localizada no Instituto Butantan, em São Paulo.

O coordenador-executivo do Cevap e responsável institucional da Coleção de Venenos Animais, professor Benedito Barraviera, destaca que o Cevap tem trabalhado ao longo da sua história investindo em infra-estrutura sólida. “No momento em que os pesquisadores brasileiros dependem do Cevap para cadastramento das pesquisas e depósito das amostras de veneno, nós nos tornaremos uma estrutura indispensável e imprescindível para as instituições públicas e privadas, em especial Ministério do Meio Ambiente”, acrescenta.