Tratamentos com células-tronco avançam na Unesp

Os estudos e usos terapêuticos de células-tronco em todo o mundo vêm aumentando e seus resultados tornando-se altamente positivos tanto para os pesquisadores quanto aos pacientes tratados. No entanto, pouco se sabe sobre o assunto, que na maioria das vezes é exposto de maneira polêmica e com foco nas células extraídas de embriões, que são capazes de gerar maior número de tecidos, mas tem aspectos éticos e técnicos conflitantes.

Na Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (FMB) os trabalhos in vitro, com células tronco, tiveram início em 2001, no Laboratório de Engenharia Celular do Hemocentro. Diversos tratamentos com células-tronco já ocorrem com sucesso e outros podem ser iniciados após a conclusão de pesquisas que estão em andamento na faculdade.

Um ponto importante é que a obtenção dessas células tem se dado por meio da lipoaspiração e outras técnicas de cirurgia plástica, ou seja, métodos que não enfrentam problemas éticos, são mais simples quando executados por profissional cirurgião qualificado e fornecem uma quantidade importante de células.

“A famosa ‘Lipo’ é uma técnica madura, com 34 anos de história. E o fato de extrairmos células-tronco da gordura (tecido adiposo) humana é extremamente positivo uma vez que se trata de fonte rica destas células, podendo ser obtidas do próprio indivíduo”, é o que destaca Elenice Deffune, docente da disciplina de Hemoterapia na FMB, onde também desenvolve pesquisas em torno da engenharia celular há 20 anos. Ela ainda afirma que esse método é mais seguro e o rendimento proporcional do número de células tronco obtidas é muito maior do que aquele aspirado em medula óssea, ou mesmo coletado em sangue de cordão umbilical.

No entanto, ressalva que as aplicações consolidadas de coleta de medula óssea e de sangue de cordão umbilical não podem ser substituídas integralmente pelas células tronco de tecido adiposo, pois as células obtidas em cada método podem ser usadas de modos diferentes, originando tecidos variados para outros tratamentos e estudos.

As células-tronco extraídas do tecido adiposo são consideradas mesenquimais, tem capacidade de se diferenciar e dar origem a diversos tecidos, como o cartilaginoso, ósseo, muscular, cardiáco e neural, além de possuírem inquestionável capacidade de controle de imunidade, sendo utilizadas em doenças intestinais como Chron, doenças auto-imunes e para controlar mecanismo de rejeição dos transplantes de medula óssea, entre outras patologias.

Atualmente, no mundo as doenças cardiovasculares são as que mais recebem tratamento eficaz com células-tronco, seguida das doenças neurodegenerativas – como Parkinson -, porém no Brasil, que possui um protocolo clínico mais rigoroso para a liberação de tratamentos medicinais, muitos métodos ainda estão em fase experimentação.

Para Deffune a captação dessas células-tronco através da lipoaspiração e o seu uso em tratamento são uma evidência positiva dos novos rumos da medicina. “A Engenharia celular encontra-se no centro do círculo virtuoso podendo beneficiar pacientes de diferentes especialidades levando-se em conta resultados concretos obtidos, criteriosa análise, protocolos éticos de fase clínica rigorosamente constituídos exercendo plenamente desta forma a medicina regenerativa e translacional tornando mais justos os investimentos em pesquisa”.

Em fase final de testes para a liberação na FMB, estão os tratamentos para a recuperação de traqueias em parceria com o ambulatório de Cirurgia Torácica. Outra parceria, com o Instituto do Coração (Incor/USP), visa ? futura produção de cartilagens e novos vasos sanguíneos.

Mas, por enquanto, na FMB só são realizados tratamentos em pacientes com feridas crônicas expostas, recorrentes em diabéticos, hipertensos ou pessoas com passado de hanseníase (lepra). “Já tivemos casos de feridas abertas há 47 anos, que passaram pelo nosso tratamento e foram completamente curadas”, completa Elenice.

{n}Mercado farmacêutico{/n}

Segundo a docente da FMB, na Europa já há indústrias farmacêuticas trabalhando em parceria, que compram os resíduos das cirurgias plásticas de extração de gordura a fim de transformá-la em produtos medicinais comercializados já em grande demanda.

“É extremamente importante a criação de critérios para que os procedimentos cirúrgicos não se tornem parte de mecanismos de mercados, mas continuem sendo realizados com profissionalismo e ética”, finaliza.

Fonte: Sérgio Viana
Assessoria de Comunicação de Imprensa da FMB