Especialista faz explanação sobre psicopatia infantil

Embora o assunto, por motivos óbvios, seja tratado com muita cautela casos de psicopatia infantil, está tendo mais espaço para ser discutido. Mesmo com o choque que tal assunto causa, é algo que precisa ser dito, visto, e principalmente estudado.

A psicopatia infantil ganhou destaque nacional (já que em outros países esse desvio de personalidade infantil é discutido mais abertamente) após um garoto de pouco mais de dez anos de idade ser apontado como autor do assassinato de quatro pessoas: seus pais que eram policias militares, a avó e uma tia avó, que moravam na mesma casa. Depois do crime teria tirado sua própria vida.

Em entrevista ao jornal Acontece a psicóloga Eliete Trombini, faz um apanhado geral sobre o assunto e como os pais devem proceder quando notarem que seus filhos passam a agir de maneira diferente.

 

Acontece – É possível afirmar que as crianças apresentam comportamento psicopata? E quais são as principais  características?

Eliete Trombini – Não é fácil a sociedade  aceitar a maldade infantil, mas ele existe. Essas crianças não têm empatias, isto é, não se importam com os sentimentos dos outros e não apresentam sofrimento psíquico pelo que fazem, não respeitam os pais, manipulam, mentem, maltratam irmãos e amiguinhos, torturam animais e podem até matar sem culpa.

 

Acontece – Quais as diferenças de comportamento entre as diversas faixas etárias (crianças,  adolescentes e adultos)?

Eliete – A criança apresenta um grau de crueldade em relação aos animais de estimação e em relação aos amiguinhos um comportamento agressivo. Talvez não tenha consciência do mal que está fazendo, segundo a Associação de Psiquiatria.  

O adolescente já vem com histórico de agressividade desde a infância e muitas vezes foi expulso da escola por atos agressivos em relação aos colegas e professores. Ele pode adquirir faca, revólver  e já começar a se envolver com a criminalidade e uso de drogas. Pode apresentar comportamentos agressivos e mudar os amigos e o meio social que ele está habituado a conviver. Uma atenção que deve ser tomada pelos pais ou cuidadores é quando ele não mais quer apresentar os amigos.

Já no adulto é muito mais difícil diagnosticar essa patologia, porque, geralmente, são pessoas inteligentes, agradáveis, extremamente manipuladoras, muito gentis, que se utilizam dessas características para cometer seus atos. Exemplo: um vizinho bondoso, caridoso, sempre pronto a ajudar. Essa pessoa pode ser um psicopata. No Brasil o diagnóstico é transtorno de conduta.

 

Acontece – Qual é o papel dos pais no processo? E dos educadores?

Eliete – Os pais devem  passar por um processo  terapêutico junto com as crianças ou adolescentes  a fim de conseguirmos criar limites e condutas corretas em relação a eles (crianças e adolescentes). O papel dos pais, geralmente, é buscar o profissional da área (psicólogo) por indicação da própria escola, pois o educador percebe que aquela criança manipula o grupo e muitas vezes mente e faz pequenas maldades, sempre se colocando como vítima. A primeira frase que o pai coloca: “ela é criança e não sabe o que está fazendo”, alegando que a professora não entende que o filho ainda é uma criança. Isso é o processo de negação dos pais. Na consulta se faz um levantamento junto aos pais, da conduta dessa criança e do seu cotidiano, como é o comportamento da relação de pais e filhos, como a criança lida com os brinquedos, com os amigos e o grau de afetividade que ele tem com os familiares e com as crianças,  assim como a relação do filho com os animais de estimação.

 

Acontece – Existe algum caso infantil que você possa relatar?

Eliete – Vários casos são encaminhados de crianças que apresentam comportamentos não adaptativos no contexto escolar e alguns casos pais relatando que não conseguem dar limites a seus filhos. Todos os casos são investigados  através de histórico sócio-familiar, em visão sistêmica para que  se descarte a possibilidade da criança ou do próprio adolescente estar somente repetindo padrões familiares. Importante salientar que a maioria dos casos apresenta fatores genéticos sem atuação dos fatores ambientais que possam levar a criança a problemas de psicopatias graves. Esse transtorno de conduta pode ser observado no filme:  “A ira de um anjo” e alguns relatos no Brasil e no exterior.