Casas de apoio da Famesp: 10 anos de cuidados e acolhimento

Confira algumas histórias que ilustram a importância do trabalho desenvolvido pela Famesp em unidades destinadas a pacientes em tratamento no HC de Botucatu

Diz o ditado que "o amor é o melhor remédio". Essa é a filosofia que move o projeto "Casas de Apoio", mantido pela Famesp, em Botucatu. Ao todo, são quatro unidades, com 104 leitos. Apenas em 2014, por exemplo, foram acolhidos 926 pacientes e 2.823 acompanhantes. Para além dos números, as casas guardam histórias de superação, dor, saudade e amizade. Mais que um trabalho, os funcionários se transformam em parte da família das pessoas que estão lá hospedadas. Para muitos deles, trabalhar nas Casas de Apoio é uma missão, uma forma de trazerem alento aos doentes, como é o caso da cuidadora Antônia Carmona, 65, que foi a primeira voluntária do projeto, quando ainda era funcionária da Unesp.

"Eu trabalhava na Unesp quando inauguraram a primeira casa de apoio e, como não tinha expediente no final de semana, eu vinha para cá ajudar. Fiz plantão durante dois meses, todos os dias, quando abriu a primeira casa. Eu recebi os primeiros pacientes. É muito bom ver o crescimento desse projeto porque hoje ninguém fica desabrigado. Antes das casas existirem, cheguei a levar uma família de Guamiranga, no Paraná, para minha casa, porque eles não tinham dinheiro para pagar pensão e estavam há uma semana, sem banho e sem lugar para ficar, em frente à UTI do HCFMB. Eles ficaram três meses comigo, enquanto o filho se recuperava de um acidente", conta, emocionada. Hoje em dia, Antônia é funcionária da Famesp e trabalha na casa I, que abriga os adultos que estão passando por tratamento contra diversos tipos de câncer, além de seus acompanhantes.

Esse carinho dos funcionários reflete no sentimento coletivo dos pacientes. A casa I é destinada a pacientes oncológicos e hospeda homens e mulheres. A professora Neide Sanches, 60, que mora em Birigui, no interior paulista, e está em tratamento contra um câncer de mama, testemunha o afeto que existe no ambiente. "Eu adorei a casa, as pessoas que trabalham aqui são uma benção para nós. São muito atenciosos. Aqui temos as amigas de quarto, conversamos, bordamos, compartilhamos histórias e a convivência com pessoas que estão passando por problemas semelhantes aos meus. É um apoio importante", relata.

 

 

Histórias de vida e superação
 

Também na casa I, Silvana Borges, 40, e seu filho, vindos de Maceió, em Alagoas, estão hospedados aguardando a cirurgia de transplante de rim. "Vou doar o rim para meu filho, pois ele nasceu com um problema renal e eu sou compatível com ele. Temos parentes em Bauru e viemos para cá porque o Hospital lá teve problemas administrativos e não tinha previsão de fazer a cirurgia. Quando cheguei aqui, fui bem recebida, as pessoas nos atendem com o maior prazer. Estou achando muito bom, porque conheci pessoas de vários lugares e não ficamos só, cada uma dá suporte para a outra", conta.

Já a casa II abriga as crianças em tratamento contra o câncer e seus acompanhantes. Nessa casa está alojado Pedro Botaro, 17, e sua mãe, Sueli Botaro, 49. Pedro veio de Lucélia, no interior de São Paulo, e está fazendo tratamento há um ano contra um tumor no osso do joelho, e desde o começo está hospedado na casa. 

"Desde janeiro do ano passado estou aqui. Quando chegamos ao Hospital, falaram desse projeto para nós e nos encaminharam para a assistente social, que providenciou nossa hospedagem. Acho bem legal a casa, o espaço, as funcionárias que são preocupadas com nosso bem-estar. Não temos parente aqui na cidade e seria bem difícil se não tivéssemos esse apoio", comenta. Para Sueli, nesse momento delicado da doença do filho, a ajuda das Casas de Apoio foi fundamental. "Quando viemos para cá, estávamos perdidos. Tem aquele choque inicial, de saber da doença, de como vai ser o tratamento. O pessoal aqui é maravilhoso, tudo que eles podem fazer pelo nosso conforto, para nos sentirmos bem, eles fazem. Eles nos animam, dão apoio psicológico também durante esse processo. Se não tivéssemos eles aqui, não sei se estaríamos conseguindo fazer esse tratamento, tanto pela distância quanto pelo custo financeiro. Aqui é tudo limpo, bem arrumado, organizado e todos são tratados da mesma maneira", enfatiza.

A casa III abriga as mães que têm bebês internados na UTI neonatal ou mães de crianças em tratamento no HCFMB. Nessa casa, as pessoas podem pernoitar ou ficar durante o dia, aguardando o momento da visita no Hospital. A dona de casa Drieli Lima, 23, que veio de Tarumã, no interior de São Paulo, conta como é a experiência dela na casa. "Meus filhos não estão internados, mas sim em tratamento no Hospital. Ambos são portadores de fibrose cística. O primeiro a ser tratado foi o mais novo, de um ano. Durante a consulta, fui contando para o médico sobre alguns sintomas que percebia no mais velho, e o médico pediu para trazer o mais velho também, que tem seis anos e foi diagnosticada a doença nele também", explica.

Por fim, a casa IV abriga os pacientes que se preparam para fazer diálise peritoneal, que exige uma adaptação em um quarto especial, que é um ambiente esterilizado. Além disso, o local comporta as seguintes associações: Associação de Apoio ao Transplantado de Órgãos e Tecidos e aos Pacientes em Terapia Renal Substitutiva (APTO) e Associação Botucatuense de Apoio ao Hipertenso-ABAH. Conta também com um refeitório para 40 pessoas. Neste lugar também ficam os pacientes transplantados que precisam fazer retornos e os pacientes de hemodiálise, que almoçam no local. Aos familiares desses pacientes é oferecido um lanche e eles podem aguardar o processo de hemodiálise na casa, sem pernoitar. Eles também desenvolvem alguns trabalhos manuais para ajudar a incrementar a renda da família, pois a casa conta com máquinas de costura, agulhas de crochê, tricô e várias miudezas para artesanato. Tudo é doado pela população. Tem um espaço onde constantemente é feito um bazar para arrecadar fundos para essas pessoas. 

Gratidão e solenidade

Rubens de Almeida, o "Alemão", diretor das Casas, salienta que "as casas de apoio ajudam os pacientes, por dar suporte nesse momento delicado, que é um tratamento de saúde, e ajudam o Hospital, porque existe uma exigência legal de ter leitos disponíveis para acompanhantes de crianças e idosos".

Nesses 10 anos, a assistente social do projeto Solange S. de Moraes e Alemão colecionaram muitas histórias peculiares. A despeito das adversidades, fazem questão de salientar que nunca se abateram com as dificuldades e sempre contornaram os momentos de crise com esperança e trabalho. Solange se recorda de histórias sobre os primeiros passos da casa I. "Inauguramos a casa I e começamos a receber os pacientes. Fizemos a secretaria no porão. Só que a demanda começou a aumentar muito, principalmente de crianças. Então, desalojamos a secretaria, colocamos berços e camas para receber as crianças e ficamos quase um ano sem um espaço para nossa secretaria", revela. 

Hoje, o entorno das casas I e II é urbanizado e limpo, mas nem sempre foi assim. Alemão conta que o local era mal cuidado e tinha árvores condenadas, que ele cortou para deixar o local mais seguro. Ele diz que chegou a ter problemas com os populares da região, que ficaram bravos pelo corte das árvores, porém ele pediu paciência e disse que no prazo de um ano tudo estaria replantado e bem cuidado. Agora, a rua dispõe de lixeiras, bancos e um pomar com 50 pés de árvores frutíferas, que a população pode usufruir. Além disso, as pessoas das Casas de Apoio contam com o "Bazar da Solidariedade", onde pacientes e familiares podem pegar roupas doadas pela população, em um local próximo às casas I e II. Antes, ali era abrigo de moradores de rua. Alemão conseguiu a posse da propriedade e a transformou em um bazar onde as pessoas que não têm roupas podem pegar algumas peças em bom estado para usar. 

É notório o carinho com que Alemão e Solange são tratados pelos seus assistidos. O clima de união e, acima de tudo, de gratidão, prevalece no ambiente das casas. Não é à toa que Alemão e Solange são chamados de "pai" e "mãe" do projeto, porque ao longo desses dez anos de existência, as Casas de Apoio funcionaram como uma grande família, que acolhe com braços calorosos todos aqueles que precisam de um lugar calmo e aconchegante para ficar durante o tratamento médico. Para eles, humanizar o atendimento é, antes de tudo, acolher e consolar o ser humano em seu momento de fragilidade, para contribuir com o reestabelecimento de sua saúde física e psicológica.

Cada casa, uma missão

As casas são separadas da seguinte maneira: a Casa de Apoio I acolhe pacientes adultos vítimas de câncer; a Casa de Apoio II é destinada a crianças com câncer; a Casa de Apoio III é voltada às mães que amamentam bebês prematuros, internados no Hospital das Clínicas, e; a Casa de Apoio IV recebe os pacientes transplantados e em diálise peritoneal. As casas contam, cada uma, com aproximadamente 340 m² que abrangem de seis a dez apartamentos, sala para lazer, cozinha e banheiros e também contam com fácil acessibilidade, com rampas para a mobilidade de pessoas com deficiência ou com qualquer limitação de locomoção, por exemplo.

Moção de Congratulações

Neste mês, a Câmara Municipal de Botucatu aprovou uma Moção de Congratulações, assinada pelos 11 vereadores, em homenagem as Casas de Apoio pela sua primeira década de atividades.

(Ass. de Imprensa da Famesp / 4 Toques)