Piloto de avião de Agnelli que caiu em São Paulo será enterrado em São Manuel

Corpo foi liberado pelo IML; horário do enterro ainda não foi definido. Acidente deixou sete mortos, entre eles o ex-presidente da Vale.

O piloto da aeronave que caiu no bairro da Casa Verde, na Zona Norte de São Paulo, no sábado (19), será enterrado em São Manuel, cidade no interior de São Paulo, onde morava. Além de Paulo Roberto Baú, morreram no acidente o empresário Roger Agnelli e cinco pessoas de sua família. Os parentes do piloto foram até a capital acompanhar a identificação do corpo no Instituto Médico Legal (IML). 

O corpo de Paulo foi liberado na tarde deste domingo (20) e deve chegar em São Manuel às 18h. O velório será no Velório Ecumênico Nilson Benato e o enterro será no Cemitério Municipal na segunda-feira (21), mas ainda não foi definido o horário do sepultamento. 

Paulo tinha 56 anos e deixou cinco filhos. Nas redes sociais, parentes postaram fotos do piloto e disseram que ele foi "herói". Não há informações ainda sobre se o piloto alertou à torre do Campo de Marte após a decolagem que havia pane na aeronave. 

Outro fator analisado pelos investigadores é o histórico do piloto. Ele teria que ter uma habilitação específica para o modelo que era de Agnelli. A investigação também quer saber se ele reportou panes nos voos anteriores ou se a aeronave passou por alguma manutenção recente.

Agnelli era  ex-presidente da mineradora Vale. Sua mulher Andrea e dois filhos, Ana Carolina e João, o genro Parris Bittencourt e a namorada do filho de Roger também morreram no acidente. A presidente Dilma Rousseff e a Vale lamentaram a morte do empresário por meio de notas. Uma mulher que estava fechando o portão da residência atingida ficou ferida e foi levada ao pronto-socorro da Santa Casa.

Acidente
A aeronave decolou às 15h20 da cabeceira 12 de Campo de Marte e seguia com destino ao Santos Dumont, no Rio de Janeiro,  caindo três minutos após a queda na Rua Frei Machado, 110, perto da Avenida Braz Leme. O monomotor foi comprado pelo empresário em dezembro de 2012 e tinha capacidade para até 3.900 kg e 7 pessoas. O aeroporto Campo de Marte está fechado desde as 15h30. Segundo o major Hengel Ricardo Pereira, do Corpo de Bombeiros, o trabalho de rescaldo foi concluído por volta das 19h30. Quinze carros e 45 bombeiros trabalharam na ocorrência.

O empresário de 56 anos foi presidente da Vale de julho de 2001 a maio de 2011, quando foi substituído pelo atual presidente da mineradora, Murilo Ferreira. Sob o comando de Roger Agnelli, a Vale se expandiu internacionalmente e se consolidou como a maior produtora global de minério de ferro e a segunda maior mineradora do mundo.

Após deixar a Vale, fundou a AGN Participações, uma empresa de logística e mineração. Desde 2012, estava à frente da B&A Mineração, joint venture da AGN com o BTG Pactual com projetos de exploração de fertilizantes, minério de ferro e cobre em Belé (Pará) e em La serena, no Chile.

Além de presidir a Vale, Agnelli integrou o conselho de administração de grandes empresas brasileiras como Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), Latasa, Suzano Petroquímica e Petrobras. Agnelli passou a integrar o Conselho da Petrobras no início do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e saiu em 2007.

Experimental

A aeronave era norte-americana e voava no Brasil de forma experimental – ou seja, em teste para verificação de critérios de segurança e operação. O modelo CA-9, da norte-americana Comp Air Aviation, de prefixo PR-ZRA, não tinha nenhuma caixa-preta, caixa de voz e de dados, segundo a Força Aérea Brasileira. Por ser um monomotor e estar em caráter experimental, os dispositivos não são necessários, conforme a legislação brasileira, para este modelo de aeronave.

O modelo foi comprado por Agnelli e pertencia a ele desde dezembro de 2012, conforme os dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O modelo estava com a documentação em dia e tinha capacidade para até 3.900 kg e 7 pessoas (incluindo o piloto). Ele é feito de fibra de carbono, tem asa alta e trem de pouso fixo. No site da companhia consta a informação de que a aeronave ainda não tem data para certificação nos Estados Unidos.

"Aeronave não certificada, voando em caráter experimental, não possui um nível de segurança confirmado para estar voando, é como se estivesse em teste, por conta e risco do proprietário", explica o comandante Carlos Camacho, que atua na área de segurança operacional na aviação civil.

"Toda aeronave voando representa um risco, mas uma aeronave experimental ele é bem maior. É uma grande irresponsabilidade manter este tipo de quesito, deveriam ser criados ao menos critérios básicos para garantir a segurança de uma aeronave experimental, certificando-as e aprovando-as para voarem no país", defende Camacho.

'Risco'
O advogado Augusto Fonseca da Costa perdeu o filho em janeiro de 2015 em queda de aeronave experimental em Toledo, no Paraná. Ele criou a Associação Brasileira de Vítimas da Aviação Civil, defendendo uma campanha contra a aviação experimental no país.

"Isso é uma irregularidade e iresponsabilidade absurda da Anac ao enquadrar aeronaves como experimentais para se furtar a critérios de segurança. Isso é uma bagunça total. Vários tipos de aeronaves de teste estão voando por aí no país sem critérios. São protótipos de laboratório, em fase de teste, que são colocados aos milhares no mercado, representando um risco ao consumidor", afirma Augusto da Costa.

"Quem compra lê que é experimental mas não tem ideia do que isso significa, não sabe o que é. São produtos sem regras que matam pessoas todos os dias, foi o que matou meu filho", defende o advogado.

G1 questionou a Anac os critérios para a liberação de uma aeronave experimental e o prazo para a certificação, mas até a publicação desta reportagem não recebeu posicionamento. A reportagem telefonou para a agência várias vezes e também mandou e-mails.

No site da Anac consta a informação de que, para a homologação do avião como experimental, será feita uma vistoria técnica após um processo de análise. Para que seja expedida a matrícula e permitido o voo, é necessário uma apólice de seguro.Neste domingo, investigadores da Força Aérea voltaram ao local da tragédia para coletarem novos indícios e buscarem imagens que podem ajudar a levar a fatores que contribuíram para o acidente.

"A perícia encontrou um alto grau de destruição, um nível de destruição muito alto", afirma o coronel Madison Almeida do Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa) 4, órgão subordinado ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), que responde pela área de São Paulo. 

O major Henguel Ricardo Pereira, que coordenou a ação do Corpo de Bombeiros no resgate, afirmou que os corpos estavam "bem prejudicados e mutilados". "No local, a aeronave foi destroçada pelo choque e os corpos estavam multilados e queimados", disse ele. Foram recolhidos sete crânios no local.

(Fonte: G1)