PM conta como viveu no Presídio Romão Gomes

Fotos: Divulgação

Existe muita curiosidade com relação ao destino dos policiais militares que são acusados de terem cometido crimes variados, como homicídio, roubo, sequestro, extorsão, concussão, tráfico de entorpecentes, entre outros. Um PM que esteja aguardando seu julgamento ou mesmo o já condenado não poderia conviver com presos comuns que correria o risco de ser assassinado. A incidência maior de policiais presos relaciona-se a casos de homicídios que somam 60% dos casos.

Por questões de segurança, assim como preservação da integridade física, os policiais de São Paulo acusado de crimes são designados para o Presídio Romão Gomes, localizado na Avenida Tenente Júlio Prado Neves nº 451 – Vila Albertina, Zona Norte da capital paulista, mesmo aqueles que foram exonerados ou estão na reserva (aposentados).

Os PMs encarcerados vivem em regime de quartel, ou seja, sem serem vigiados por câmeras de segurança, guardas armados, detectores de metal, grades em todos os lugares e presos algemados. A maioria dos detentos se exime de culpa pelo crime que cometeu atribuindo ao trabalho policial e as acusações são “suposições” e não provas.

O presídio conta com diversas empresas que utilizam o trabalho terceirizado dos detentos. As ocupações são as mais variadas, tendo oficinas de tapeçaria, artesanato, serralheria, montagem de equipamentos eletrônicos e churrasqueiras, além da criação de animais como galinhas, cabras, coelhos, calapsitas, porcos, entre outros. Também existem aqueles que se dedicam ao cultivo de hortaliças, apicultura e ao lava-rápido. Tudo o que é produzido no presídio é vendido. Para cada três dias trabalhados, o preso consegue redução de um dia em sua pena.

Do salário pago ao preso, 60% é enviado aos parentes e 10%, depositado em uma poupança que só poderá ser sacada em liberdade. Outros 20% são para melhorias na unidade e 10% depositados em uma conta para apoio aos recém-chegados, como pagamento de despesas da família e com advogados.

A reportagem do Acontece Botucatu entrevistou um PM que trabalhou por muitos anos em Botucatu e esteve preso no Romão Gomes. Por motivos óbvios terá o nome preservado. Relatou algumas normas que fazem parte do cotidiano dos presos, que seguem um regime disciplinar militar rigoroso.

“Se não tiver hierarquia, não tem disciplina. O preso presta continência, canta hinos pátrios, marcha e trabalha. Apesar de ser um presídio é mantida a dignidade e o cumprimento das regras internas. Tem hora pra tudo. Quem não se submete as regras e não tem disciplina, pode ser mandado para um presídio comum e nenhum PM quer ficar a mercê de presos comuns em cadeias públicas”, disse o ex-PM.

Salienta que ficar longe dos parentes é o pior castigo e o primeiro mês de confinamento é o mais problemático. “De repente você se vê excluído da sociedade que serviu por muito tempo e afastado dos parentes e amigos mais próximos. Da noite para o dia passa de herói a vilão. O PM é preparado para ser forte, não para ser preso. Fui preso e reconheço meu erro. Porém, minha pena foi muito maior do que o crime merecia”, comparou.

Outra afirmação é com relação aos presos do interior do Estado. “São os que mais sofrem lá dentro, principalmente, por estarem longe da família. Eles são explorados e maltratados pelos presos veteranos. Só é respeitado quem comete crime de homicídio, desde que as vítimas não sejam mulheres ou crianças. Quem é preso por crime que envolve dinheiro (concussão ou extorsão) ou sexo (estupro) não tem moral nenhum”, conta.

O ex-PM também enfatiza que não são somente os policiais presos no Romão Gomes que são criminosos. “Tem muita gente boa trabalhando na polícia. Posso dizer que é a maioria. Entretanto, tem gente solta por aí que deveria estar condenada por abuso no cumprimento do dever, mas se esconde atrás farda e convive no meio da sociedade”, acusa.

Disse que quando esteve no cumprimento da pena que lhe foi imposta, aprendeu a valorizar mais sua família e o quanto é importante a liberdade. “Nessa profissão de PM a gente trabalha muito e acaba deixando a família de lado e nada é mais importante que ela”, coloca, revelando que não gostaria de voltar a ser um policial. “Por tudo o que passei não me sentiria bem usando farda. Minha ocupação atual nada ter a ver com a polícia”, garante.