Uma doação para muitas vidas

A família do bombeiro civil Diego Rafael Guimarães, 29 anos, morto anteontem após sofrer acidente de moto em Agudos (13 quilômetros de Bauru), transformou a tragédia em esperança de vida para pelo menos outras seis pessoas ao autorizar a doação de todos os órgãos dele.

A atitude permitiu à equipe do Hospital de Base de Bauru (HBB) captar o coração, os pulmões, os rins, o fígado, as córneas e até os ossos. Em pelo menos cinco anos, esta é a maior captação de órgãos múltiplos registrada na cidade.

O procedimento cirúrgico, que durou mais de oito horas, mobilizou equipes especializadas em transplantes de quatro cidades do Estado. O Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da USP em São Paulo veio de avião para agilizar o transporte e garantir a sobrevida do coração doado.

A tragédia sensibilizou a todos em Agudos, onde Diego vivia com a esposa e o filho de 9 anos. Ontem, familiares e amigos fizeram tatuagem para homenageá-lo (veja abaixo).

Na contramão
O acidente ocorreu na terça-feira, no Centro de Agudos. De acordo com o pai da vítima, o funcionário público municipal Ronaldo Guimarães, 53 anos, o filho foi atingido por um carro que trafegava na contramão.

Ele sofreu traumatismo craniano e precisou ser internado na UTI do HBB, mas não resistiu e teve a morte cerebral registrada por volta das 22h de quinta. Em respeito à vontade dele, a família autorizou a doação dos órgãos.

“Ele sempre quis ajudar as pessoas e já tinha me falado que, se algo acontecesse com ele, nós poderíamos doar tudo. Me sinto muito orgulhoso, pois esta atitude do meu filho poderá salvar outras vidas”, destaca Ronaldo.

Para isso, entretanto, os médicos tiveram que agilizar o procedimento. Aberto o  protocolo de morte encefálica, as grandes centrais de transplante do Estado foram acionadas, segundo a médica coordenadora da captação de transplante de órgãos do HBB, Roberta Finocchio.

De avião
Uma equipe do InCor mobilizou um avião de pequeno porte para fazer o transporte do coração e pulmões. A aeronave pousou no Aeroclube, na manhã de sexta-feira. Ainda ontem, dois pacientes receberiam os órgãos.

“A cirurgia de transplante tem que ser iniciada duas horas após a retirada, pois o coração não aguenta muito tempo fora do corpo humano”, esclarece.

O procedimento de captação começou às 10h e terminou em torno das 18h. Por volta das 14h30, profissionais do InCor já haviam captado o coração e pulmões.

Outras instituições também se mobilizaram. O fígado foi retirado por equipe da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), enquanto os rins e córneas, pela Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital das Clínicas da Unesp de Botucatu.  

Já os ossos foram captados por profissionais do Banco de Ossos de Marília. “É possível usar o material do cálcio que consta no osso para fazer regeneração óssea em pacientes que sofrem grandes fraturas”, explica Finocchio.

Maior captação
A médica reforça que esta foi maior captação de órgãos em Bauru. “Pelo menos dos últimos cinco anos”, diz. “As doações mais comuns são de córneas”, ressalta.

O JC consultou dois hospitais particulares no município e ambos afirmaram que nunca fizeram captações na proporção da que foi feita nesta sexta no Base. Atualmente, a unidade (gerida pela Famesp) é a única que realiza o procedimento na cidade.

De acordo com a enfermeira supervisora da Comissão Intra-Hospitalar  de Transplantes do HBB, Daniela Arruda Santos Leite, nem todas as famílias autorizam as doações por receio ou falta de informação. “É um momento muito difícil para um pai, para uma mãe. A gente explica os procedimentos e tenta mostrar a importância do ato para salvar vidas”, comenta. 


Paixão

O esporte era a grande paixão de Diego Guimarães. “Ele jogou em vários times de futebol da região. Atualmente, estava se preparando para prova de natação dos bombeiros em mar aberto”, contou o pai Ronaldo Guimarães.

Bombeiro civil há três anos, um dos sonhos de Diego era cursar faculdade de Educação Física. Ronaldo o descreve como alguém educado e alegre. “Ele gostava de servir as pessoas”.

Diego deixa os pais, três irmãos, esposa e um filho de 9 anos.


Na pele

Familiares e amigos do bombeiro civil fizeram uma bonita e duradora homenagem: tatuaram no corpo a letra “D” de Diego, junto ao número 5, um par de asas de anjo e uma auréola (anel dourado que fica sobre a cabeça dos anjos).

“O 5 era o número da camiseta que ele usava para jogar futebol”, explica o irmão de criação Matheus Sgarbi, 27 anos. “É uma forma de eternizá-lo em nossos corações. Toda vez que eu olhar para o meu braço, vou lembrar dele”, disse.

Até o fechamento desta edição, ao menos sete pessoas já tinham aderido à homenagem da tatuagem.   

(Fonte: JCNet)