Nos consultórios, 1/4 dos médicos do país não aceita planos de saúde

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Especialistas alegam que com a defasagem no valor das consultas,  os 75% dos médicos têm reservado cada vez menos espaço na agenda para pacientes conveniados, priorizando particulares

 

Reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo atesta que um quarto dos médicos brasileiros que atendem em consultórios não aceita nenhum plano de saúde. Atendimento, só no particular.  A constatação aparece pela primeira vez no relatório "Demografia Médica", feito pela Faculdade de Medicina da USP com apoio dos conselhos federal e paulista de medicina (CFM e Cremesp).

Segundo especialistas do setor, nessa última década, os especialistas passaram a se concentrar em consultórios para atender clientes de planos de saúde.  Mas, com a defasagem no valor das consultas, muitos médicos deixaram os convênios e optaram pelo atendimento puramente particular.

"Os 75% dos médicos que ainda atendem planos também têm reservado cada vez menos espaço na agenda para pacientes conveniados, priorizando particulares", diz o professor da USP Mario Scheffer, coordenador do estudo.

Entre os fatores que estão levando médicos a só atender pacientes particulares estão maior remuneração (a consulta chega a custar dez vezes mais do que a paga pelo plano), ausência de burocracia (como prazos para pagamento impostos pelos planos), um menor número de pacientes para atender e mais tempo para se dedicar a ele.

Segundo dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), o valor médio da consulta paga pelos convênios está em torno de R$ 60. As entidades médicas defendem um valor de R$ 130. Em consultórios particulares de São Paulo, os preços variam de R$ 200 a R$ 1.500.  "Muitos pacientes preferem ficar com o médico que confia e pagar a consulta. O que onera são os exames, a internação, não é a consulta", afirma Bráulio Luna Filho, presidente do Cremesp.

Pedro Ramos, diretor da Abramge (Associação Brasileira de Medicina de Grupo), diz que a entidade estuda um novo modelo de remuneração que traga mais equilíbrio e que atenda a todos os atores da cadeia de saúde. "Temos que buscar um meio termo em que todos ganhem."  Ele pontua, no entanto, a necessidade de discutir a remuneração de acordo com o desempenho. "Aquele que melhor cuida do paciente ganha mais. Precisamos também conter o desperdício, que drena 20% dos recursos do setor", afirma Ramos.

 

Carreira

A advogada Renata Vilhena, especialista em direito à saúde, diz que muitos médicos só aceitam usuários de planos quando estão no início da carreira ou até conseguir uma boa carteira de clientes. Depois, passam a atender só no particular.  Segundo Rosana Chiavassa, advogada especialista em relações de consumo, alguns clientes têm pleiteado na Justiça a atualização do valor do reembolso das consultas particulares, como forma de reduzir o prejuízo. "As operadoras costumam congelar os valores numa tabela de zilhões de anos atrás."

Por outro lado, ela lembra que os médicos cobram o que querem pelas consultas. "É um abuso. E o consumidor não tem coragem de negociar, se sente refém da situação."  De acordo com Scheffer, os especialistas primeiro deixaram o SUS para atender usuários de planos de saúde nos consultórios, e agora já não os atendem mais (ou atendem muito pouco).

"Foi retomada uma coisa que a gente achou que estava em declínio: o médico 'liberalzão', que atende quem quer, quando quer e cobra quanto quer", diz. Para ele, isso não é resultado apenas da decisão individual do médico, mas também de falhas das políticas em saúde. "É o pior dos mundos para um sistema universal de saúde. As pessoas cada vez mais têm que colocar dinheiro do próprio bolso."

Fonte:  Folha de São Paulo