Repórter Carrapato encontra sua paz no asilo

“Repórter policial Carrapato, que está sempre em cima do fato”! Foi sempre este o jargão usado por um dos mais conhecidos repórteres da imprensa falada de Botucatu: Wagner Pires de Camargo, que hoje aos 63 anos de idade, vive no Asilo Padre Euclides. Tranquilo e muito lúcido, Carrapato há cinco meses vive uma nova fase de sua vida.

Não tem medo de revelar que estava no fundo do poço por causa da bebida e lembra que chegou ao asilo debilitado e numa cadeira de rodas, trazido pelo filho que mora em Ribeirão Preto. Diz que o filho queria levá-lo para morar com ele, mas não aceitou sair de Botucatu. Junto com o filho visitou algumas casas de repouso, mas nenhuma lhe agradou. Foi então que lhe sugeriram o asilo.

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{tam:25px}{n}O asilo{/tam}{/n}
“Inicialmente, relutei, mas vim conhecer o asilo e fiquei impressionado com o espaço físico e a estrutura. Foi amor ? primeira vista e optei por ficar. Entrei aqui numa cadeira de rodas, passei pelo andador e agora estou usando uma muleta. Daqui a pouco encosto ela também. Há muito tempo que não sentia essa paz interior. Tenho tudo que preciso: alimentação balanceada, médico, psicólogo, o meu quarto e o mais importante: carinho. Por isso, nem penso em sair daqui. De vez em quando dou um passeio pela rua, mas não fico muito tempo, pois minha vida hoje é aqui, onde aprendi a enxergar meu próximo mais de perto e encontrei um irmão chamado João Aguiar, que é presidente do asilo e uma pessoa boníssima que não cabe dentro do coração que tem. Depois de tudo que passei na vida, foi no asilo que encontrei minha paz”.

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{tam:25px}{n}A carreira{/tam}{/n}
“Minha carreira no rádio se iniciou quando eu tinha 14 anos, em 1964, aproveitando uma chance que me foi dada pelo então diretor da Rádio Municipalista Emílio Peduti, que era muito mais amigo do que patrão, para ser discotecário. Ouvindo e vendo os profissionais trabalharem passei a me interessar pela área policial, até que fiz minha primeira matéria aos 18 anos e só parei em 2002, por problemas de saúde e por estar um pouco desiludido com o trabalho. Nesse período passei pela Rádio Municipalista, com o Emílio Peduti, Rádio Municipalista com o Plínio Paganini, a quem considerava meu pai e tive uma convivência maravilhosa e na Rádio Clube FM, com o Lunardinho (Ferdinando Lunardi), que tem uma generosidade incomum. Olhe só os patrões maravilhosos que tive. Amo todos eles”.

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{tam:25px}{n}A bebida{/tam}{/n}
“Cheguei a tomar até dois litros de vodca por dia, uma loucura. Para se ter uma idéia, no auge de minha carreira, paralelo ao trabalho policial, eu tinha um programa de rádio chamado “Canta Brasil”, que ia ao ar todas as tardes pela Rádio Municipalista. Só que já entrava alto (embriagado) e levava uma garrafinha de vodca escondida para tomar durante o programa. Isso mesmo! Pra ver até onde cheguei. Não dava mais para continuar trabalhando. Depois que me afastei, perdi muitos amigos e achei que ia morrer. Só estou vivo por obra de Deus e isso me faz acreditar que ele ainda tem um propósito pra mim, talvez para que eu sirva de exemplo para mostrar aos profissionais mais jovens que a fama é muito boa, mas é necessário se cuidar e evitar excessos”.

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{tam:25px}{n}O apelido{/tam}{/n}
“Carrapato foi um apelido que o Gil Gomes me deu, quando estava ainda em início de carreira. Em minha opinião o Gil foi o repórter policial mais completo. Aprendi muito com ele. Eu, realmente, ficava atrás de notícias o tempo todo, sem nunca ser sido desleal com um colega de profissão. Ele me ensinou que a pessoa que tenta prejudicar o trabalho do outro, não tem caráter. A única pessoa que prejudiquei fui eu mesmo. Claro que adorava dar os furos jornalísticos, mas sempre com ética. Um dia o Gil Gomes me disse: “Você até parece um Carrapato rapaz, fica aí grudando nos outros”. E pegou. A partir desse dia o Carrapato passou a fazer parte de minha vida. Como minha área era policial, me aproximei dos oficiais da Polícia Militar e delegados da Polícia Civil, que se tornaram meus amigos e não tinha dia nem hora. Onde ocorria um fato, lá estava o Carrapato. Isso me faz uma falta danada”.

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{tam:25px}{n}A notícia{/tam}{/n}

“Claro que é impossível enumerar aqui quantas reportagens eu fiz. Muitas e muitas que marcaram minha carreira. Uma que “machucou” muito foi quando fui cobrir um assassinato. Ao chegar ao local constatei que a vítima era Carlos Giacoia, um grande amigo. O pior de tudo é que pouco antes do crime eu estava com ele bebendo e brincando. Entrei ao vivo, numa edição extraordinária e foi difícil falar. Por mais profissional que a gente seja, em alguns casos, a profissão de repórter policial nos traz surpresas que mexem com o sentimento”.

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{tam:25px}{n}O cotidiano {/tam}{/n}
“Hoje passo a maior parte do dia no meu quarto escrevendo, ouvindo rádio ou assistindo televisão. Estou até pensando em escrever um livro de memórias. Dou meus passeios e se precisar ajudo outras pessoas que estão aqui. Desde que pisei pela primeira vez no asilo, não tomei uma gota de álcool e quero me manter assim. Quem não conhece o asilo deve fazer uma visita, pois o trabalho que é realizado aqui não tem dinheiro no mundo que pague. Cada pessoa que está aqui tem uma história de vida. Eu tenho a minha e sou mais um”.

Por: Quico Cuter
Fotos: Valéria Cuter