Na política nem sempre o jogo acaba quando termina

Enquanto muitos choram e lamentam o afastamento da presidente Dilma Rousseff por 180 dias, outros riem e comemoram. E o resultado da admissibilidade para dar início ao processo do impeachment no Senado Federal não deixa margens para dúvidas:  55 a 22. E nessa fase bastaria apenas a maioria simples, ou seja, 41 votos, entre 81 senadores. Mas, o jogo apenas se iniciou. Para que o impeachment seja aprovado será necessário, na fase derradeira, o voto de 2/3 dos senadores, ou seja, 54 votos. Para Dilma voltar à presidência bastariam 28 votos.

Então você, meu querido leitor, poderia ponderar.  Mas a Dilma nessa primeira fase já não teve 55 votos contrários, no caso, um a mais do necessário para o seu impeachment? Acontece, meu caro que estamos dentro do campo político onde nem sempre o jogo acaba quando termina. Não se pode cantar vitória antes do tempo. Nem depois dele.  Ainda tem muita água pra rolar.

Não duvide se os aliados de Dilma conseguirem, na votação final, os 28 votos necessários para sua volta ao poder.  Os que votaram contra o impeachment, dificilmente mudarão de opinião. Agora, alguns dos que foram favoráveis deixaram, claramente, no ar que poderão mudar de ideia, caso entendam que a presidente não cometeu os crimes a ela impostos.

Nessa nova fase, chamada de pronúncia, uma nova comissão será instalada para aprofundar as investigações das acusações. Essa comissão designa um relator que elabora novo parecer recomendando se o acusado deve ser julgado ou não. Esse parecer é encaminhado ao plenário, que mais uma vez, por maioria simples, decide se a presidente deve ser julgada ou não.

Aprovado o parecer, finalmente, é marcado o dia do julgamento. A sessão do Senado será presidida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Enrique Ricardo Lewandowsky. Dessa vez dois terços dos senadores (54 de 81) precisam ser favoráveis ao impeachment para que Dilma seja condenada. Um adendo importante:  as abstenções e ausências são votos válidos contra a condenação.

O prazo para finalizar o processo é de até 180, mas a votação pode ser antecipada se todos os trâmites regimentais forem cumpridos. Entretanto, também pode ser estender além dos 180 dias e nesse caso a presidente voltaria às suas funções; mas se for considerada culpada será, irremediavelmente, cassada e fica inelegível por oito anos.

Então tudo vai depender de como irá se comportar esse governo provisório nas próximas semanas para ganhar o respaldo popular que hoje está longe de ter. Se não cometer nenhum deslize poderá consolidar o impeachment de Dilma. Se falhar colocará Dilma de volta à cadeira presidencial, com uma ressalva: ela passa a ser vítima desse processo, apesar da impopularidade.

E eu, abobalhado assistindo a tudo isso me pergunto. O que é melhor para o Brasil? A resposta é complicada, pois não aprovo o governo da belo-horizontina Dilma Vana Rousseff, mas também estou longe de acreditar que a trupe do tietense Michel Miguel Elias Temer Lulia faça desse Brasil um país melhor e igualitário para todos.  Por isso o processo é uma faca de dois gumes.

Se tivesse dinheiro, poderia fugir desse turbilhão político que assola o país, passando uma temporada jogando dominó em Cinque Terre, na Ligúria, norte da Itália; caminhar pelo Jardim Kawachi Fuji, em Kitakyusho, no Japão; praticar pesca submarina no Arquipélago de Fernando de Noronha; e sobrevoar os 446 km de formações rochosas do Grand Canyon, nos Estados Unidos. Também não descarto esquiar nas ilhas Phi Phi, na Tailândia; ou me deleitar com as belezas do Machu Picchu, no Peru. 

E não titubearia subir a montanha Kirkjufell na Península de Snaefellsnes, na Islândia; dar uma passada no parque geológico Zhangye Danxia, na China; fotografar o Vale Okanagan, no Canadá; dar vigorosas e ritmadas braçadas nas piscinas de Travertino de Pamukkale, na Turquia; ou ainda gravar o canto do uirapuru no coração da bacia amazônica.