Mundo sertanejo está de luto com a morte de Tinoco

O cantor José Peres, ou Tinoco, como ficou conhecido e um dos maiores expoentes da música sertaneja raiz morreu na madrugada desta sexta-feira (4), aos 91 anos de idade. Ele havia sido internado na noite de quinta-feira (3) no Hospital Municipal Doutor Ignácio Proença de Gouvêa – João XXIII, na Mooca, zona leste da capital paulista, em estado de saúde grave e sofreu de insuficiência respiratória, segundo informou a assessoria do hospital.

Tinoco, formou umas das duplas sertanejas mais famosas do país com o irmão João Salvador Peres, o Tonico. Iniciada ainda nos anos 1930, a parceria rendeu quase mil gravações e mais de 150 milhões de cópias vendidas. A parceria só terminou em 1994, após a morte de Tonico, que caiu de uma escada aos 73 anos e sofreu um traumatismo craniano.

A última aparição pública de Tinoco foi na quarta-feira (2) dessa semana na gravação do programa “Viola Minha Viola” da apresentadora Inezita Barroso. No dia seguinte ele passou mal e foi internado. O programa irá ao ar no próximo dia 20, onde ele deverá ser homenageado.

O cantor nascido no Município de Botucatu, especificamente, no Bairro do Guarantã, nos seus 75 anos dedicados ? música manteve sempre estreitas relações com a Cidade. No dia 4 de outubro do ano passada foi homenageado em Botucatu num evento que atraiu cerca de 1.700 pessoas, entre amigos e fãs, que teve início ? s 10 horas com a 17ª Missa Sertaneja celebrada pelo Padre Orestes Gomes, na Igreja Nossa Senhora Menina, na Vila Maria. Os derradeiros momentos da presença de Tinoco em Botucatu foi registrado pelo fotógrafo David Devidé, amigo pessoal e fã do cantor.

“Foi uma das maiores emoções da minha vida”, disse Tinoco na ocasião. Impagável a cena em que Inezita Barroso, entrou na igreja, cantando um dos seus maiores sucessos: “Lampião de Gás”, causando grande comoção na igreja. Após o término da missa aconteceu a “queima do alho” com almoço caipira e renda total revertida ao Tinoco.

{n}Cantor fala da carreira{/n}

Na ocasião dessa homenagem, em entrevista ao Jornal Acontece, o cantor lembrou momentos marcantes da carreira. Disse que não guardou dinheiro e sempre procurou ajudar as duplas em início de carreira, que vinham do interior e não tinham dinheiro para comer ou local para dormir. “Acolhi muita gente, que chegava com uma mão na frente e outra pra trás, mas não vamos falar em nomes, não adianta”, disse. “Quem gostava de dinheiro era o Tonico, eu não. Tudo o que eu ganhava era pros amigos, pra família. Dinheiro foi feito pra ajudar o próximo e não guardei quase nada e quando o Tonico morreu um pouco de mim foi com ele”, emenda.

Ele falou da carreira. “A gente mal sabia ler e escrever e rodava o Brasil inteiro pra divulgar o trabalho e fazia as “moda” que saísse do coração, em cima dos “tema” da vida. A gente passava fome em viagens, bebia água do rio, dormia ao relento. Naquela época não tinha nem estrada, a gente ia de trem, de canoa, de carro-de-boi, mas a gente era feliz. Era Deus que colocava e tirava a gente dos “lugar”. Foi assim por muito tempo até que deu uma melhorada na situação, mas nunca “fomo” rico, não. Nossa riqueza era a música”, diz.

A morte da esposa, que lutou muitos meses contra um câncer, foi a maior perda do cantor. “Foi muito dolorido superar tudo. Fiquei endividado com muito empréstimo no banco. O tratamento era muito caro, mas o pior foi a dor no coração, a dor de perder minha companheira, com quem vivi junto quase 60 anos. Se lágrima fosse dinheiro, eu “tava” rico, mas lágrima não paga dívida. Tive que arregaçar as “manga” e trabalhar mais. Tenho minha aposentadoria, tenho ganhado com direitos autorais (das músicas) e ainda faço shows. Então, a gente vai levando”.

Fotos: David Devidé

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