Medicina discute violência sexual contra crianças

A violência sexual é devastadora, independente da idade da vítima. No entanto, para crianças e adolescentes os reflexos são ainda mais significativos. Um grupo da Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (FMB) desenvolveu um trabalho com objetivo de conhecer  o perfil das vítimas e agressores das crianças e adolescentes que sofreram violência sexual e foram atendidas no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas da FMB entre 2005 e 2008. As avaliações dos anos seguintes, até 2013, mostram poucas mudanças neste cenário. 

Essa iniciativa resultou em um projeto de extensão intitulado: “Avaliação da aderência aos encaminhamentos oferecidos às crianças vítimas de violência sexual”. Foram incluídos pacientes com idade menor ou igual aos 14 anos, por ser a faixa etária atendida pelo Serviço do HCFMB e que, após terem sido vítimas de violência sexual, realizaram preenchimento do protocolo de atendimento na avaliação do Pronto Socorro.

O resultado apontou que 78,7% das vítimas são do sexo feminino, com idade média de 9 anos; 33,44% residiam com a mãe e pai; o tempo percorrido até a denúncia foi acima de um ano em 18,5%; 85,6% dos agressores eram conhecidos das crianças ou da família, sendo que em 12,5% dos casos o abuso foi praticado pelo próprio pai.

Os casos de violência sexual em crianças, registradas em Botucatu, geralmente têm como porta de entrada o pronto socorro, que realiza o primeiro atendimento, aciona a Polícia Militar e o Conselho Tutelar. Em seguida, a criança é encaminhada ao HCFMB, onde passa por exames mais detalhados e recebe tratamento medicamentoso e psicológico. Além da vítima, seus familiares também recebem atendimento.

Os levantamentos feitos pelo professor Jaime Olbrich Neto, do departamento de pediatria da FMB, juntamente com Ana Esther Carvalho Gomes Fukumoto (ex-aluna da FMB) e Juliana Maria Corvino (aluna de ciências sociais) resultou na elaboração de uma cartilha educativa voltada para alunos de medicina e médicos que realizam o primeiro atendimento de crianças vítimas de violência sexual. Essa nova ação conta com a participação da aluna Luana Domingues de Araújo, do 1º ano de Enfermagem, que atualmente é a bolsista do projeto. 

A cartilha serve para que o profissional saiba como identificar sinais de violência sexual e faça o encaminhamento correto. Também está sendo elaborado material semelhante, voltado aos professores e familiares de crianças e adolescentes, que será distribuído nas escolas onde alunos da FMB têm atividades na graduação (semiologia pediátrica). Antes, porém, está sendo aplicado um questionário colaborativo, em duas escolas, por meio do qual podem ser propostas melhorias à cartilha.

“Vitimas e agressores, na maioria das vezes, convivem em ambientes onde a proximidade torna possível a realização da violência, e os fatores relacionados variam pouco, nas diferentes populações em que se estudou esse tipo de crime. O ato gera marcas permanentes, sejam elas biológicas ou psicológicas”, afirma o médico pediatra, professor da FMB/Unesp e coordenador do projeto, Olbrich Neto.