Emília: uma mulher com 95 anos de história pra contar

Deus deu longevidade a poucos privilegiados. Maria Emília Camalionte Ortiz é uma dessas pessoas. Com 95 anos completados nesta terá-feira (10) essa mulher especial nasceu em Pardinho em dia 10 de julho de 1917. Um exemplo de vida. Dos filhos, o caçula tem 53 anos e o mais velho: 74 anos. Todos os dez filhos são vivos que lhe deram 20 netos, 17 bisnetos e um tataraneto.

Dona “Emiliona”, como é chamada ainda mantém uma lucidez e uma vitalidade que impressionam. Tem uma visão que a permite praticar a leitura sem necessidade de óculos, gosta de ouvir música, fazer crochê e recitar poesias.

Como grande parte das crianças de sua época, a infância de Emilia não foi nada fácil e mal tinha tempo para brincar. O trabalho na roça absorvia o seu dia e nos raros momentos de lazer reunia seus amigos e amigas para brincava de “escolinha”, onde tinha papel de destaque.

“Eu sempre era a professora”, gaba-se. “Mas eu pouco brinquei. Minha infância foi trabalhar na roça ajudando meus pais na colheita de milho, batata ou arroz ou mesmo fazendo o trabalho de capina, para retirar o mato da plantação. Posso dizer que a enxada estava sempre na minha mão, acho que era minha amiga (ri). Chegava da escola e já pegava a enxada. Naquela época a gente não tinha diversão. A maior diversão era trabalhar para comer”, lembra.

Lembra que um dos momentos que marcou sua infância foi seu espanto ao saber que em São Paulo havia sido construído um prédio de três andares. “Fiquei admirada! A gente estava acostumada a ver casinhas, muitas de madeira. Fiquei a imaginar como seriam três casas, uma em cima da outra. Olha que coisa! Mas, naquela época foi novidade. Era uma menina, acho que tinha uns sete anos e me lembro que fiquei muito espantada e curiosa”.

{n}Senhor Roque Ortiz{/n}

Emilia casou nova, com 18 anos, e conheceu o marido, Roque Ortiz, aos 17. “Eu nunca havia namorado ninguém. Ele (Roque) tinha três irmãos e a família tinha chegado da Espanha, na última imigração. Primeiro conheci os três irmãos dele e não liguei para nenhum. Quando vi (o Roque) ele estava ensacando arroz e fiquei interessada. Ele também gostou de mim e pediu para meu pai e começamos a namorar. Um ano depois a gente casou”, recorda.

O casamento teve uma particularidade interessante. “Nessa época a gente morava em Echaporã e não havia padre. Por isso, o casamento seria só no cartório da cidade. Mas, veja só! No dia do meu casamento o cartório foi assaltado e tivemos que viajar até Assis. Foi lá que casamos. Vê tem cabimento! Era o primeiro casamento que ia ser feito em Echaporã e roubaram o cartório”, conta, rindo.

{n}Dom Zioni{/n}

Em Botucatu Emília tem passagens inesquecíveis, como o relacionamento próximo com o Arcebispo Dom Henrique Goland Trindade. “Era uma pessoa muito querida, assim como foi o sucessor de Dom Henrique, o Dom Zioni (Vicente Marchetti). Quando o Dom Zioni estava buscando dados sobre o Dom Henrique, me procurou e passei muita coisa para ele. Fiquei amiga dele e sempre ia ? Casa dos Meninos onde ficava e sempre ia assistir suas missas”, recorda.

Religiosa atuante recorda um fato marcante. “Ia haver uma missa na Casa dos Meninos e o Dom Zioni iria celebrar, mas eu estava atrasada e nervosa. Não gosto de chegar em missa começada e estava nervosa por isso. Para minha surpresa a missa não havia começado. Quando sentei uma amiga deu sinal ao Dom Zioni e disse: “Agora pode começar”. Pode? Eles me esperaram chegar para começar a missa”.

{n}Atividades {/n}

O dia a dia de Dona Emilia é bastante produtivo. Ela não para. Gosta de estar sempre fazendo alguma atividade e não suporta ficar muito tempo inativa. Nas horas de calmaria procura se distrair fazendo crochê. Ela é a primeira a se levantar e a última a ir para cama, geralmente depois das 22 horas. “Na televisão não vejo novelas. Gosto de assistir a Rede Vida e os jogos do Corinthians, porque sou corintiana, viu? Também gosto quando a Seleção Brasileira joga”, diz.

Seguramente, Emília Ortiz é uma dessas raras personalidades em que qualquer pessoa poderia passar horas ouvindo as histórias que ela tem pra contar sobre os seus 95 anos de vida. Mas, esse privilégio fica para seus filhos, netos, bisnetos, tataraneto e amigos que, com ela, tem relacionamento mais próximo.