Curta-metragem traz de volta a saga de Dioguinho

Pela terceira vez, um dos maiores matadores de aluguel que nasceu e viveu em Botucatu e região será protagonista de mais um filme. Depois de “As Aventuras de Dioguinho”, em 1916, pela Cia. Paulista de Filmes e, em 1957, outra versão do faroeste caboclo foi feita pela Cia. Sino Filmes. Batizada de “Dioguinho”, fita rodada na fazenda Guatapará, região de Ribeirão Preto.

Agora Doguinho, ou, Diogo da Rocha Figueira, entra numa versão diferente das anteriores, sob a direção de Cleiner Micceno que filmou o curta metragem “Matador”, com produção da Mambo Produções, João Rafael de Oliveira e Felipe Alves. O roteiro transportando a situação original numa versão atualizada, que ocorreu durante o período da escravatura nas plantações de café durante o século 19, para a Ditadura Militar brasileira, na década de 1970.

A história conta que Dioguinho foi um dos mais cruéis matadores de aluguel do Brasil que viveu entre os anos de 1862 a 1918 e deixou impressões profundas na memória coletiva das populações rurais paulistas, principalmente em Botucatu onde nasceu, passou sua infância e adolescência e iniciou sua saga de crimes que o tornaria famoso em todo território brasileiro. As façanhas de Dioguinho são lembradas em livros, revistas jornais, filmes e seriados de televisão.

Era filho do coronel Figueira, comerciante importante na Vila de São Domingos, em Botucatu (hoje Rua Amando de Barros). Sua mãe era costureira e benzedeira considerada na Vila. Aprendeu as primeiras letras na então Escola Botucatuense. Muitas histórias foram contadas sobre Dioguinho por pessoas que conviveram com ele como, por exemplo, Antônio do Rio (avô paterno do jornalista Quico Cuter), jovem imigrante recém chegado da Itália que foi contratado como jardineiro da família e conheceu Dioguinho desde sua infância quando participava de muitas brigas na rua e na escola, principalmente, para defender os mais fracos.

Dioguinho, com 15 anos de idade, foi trabalhar com engenheiros e mestres agrimensores que faziam serviços para a Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), que estava chegando à região de Botucatu, isso por volta de 1878 e aprendeu a profissão de agrimensor. Com 18 anos, casou-se na cidade de Itatinga com a jovem Antônia de Mello, moça de boa formação e foi trabalhar com o seu concunhado Antônio Canrardelli, que na época tinha uma fábrica de candeias (lamparinas). Como era bom agrimensor, foi convidado para trabalhar para fazendeiros de café na região de Tatuí.

O primeiro crime, segundo registros, ocorreu quando completou 20 anos e estava morando em Tatuí com a sua esposa e seu irmão mais novo João Dabney e Silva (Joãozinho). Nesse dia, ao chegar do trabalho, encontrou Joãozinho chorando. Dioguinho perguntou ao irmão o que tinha acontecido e o garoto contou que o gerente de um circo que estava na cidade onde tinha assistido ao espetáculo, o tratou mal, dando-lhe um tapa no rosto.

Ao saber disso, Dioguinho foi acertar as contas com o gerente do circo, levando o garoto (Joãozinho). Ao chegar lá, o gerente confirmou o que fizera dizendo que o garoto queria entrar de graça por meio ludibrioso, pois fora mal-criado e atrevido, havendo discussão. Dioguinho pegou o chicote que levara consigo e açoitou-o. O agredido tentou pegar uma arma, mas não teve tempo. Dioguinho foi mais rápido e o matou com uma punhalada no peito. Seria este o registro do seu primeiro assassinato. Foi processado e a Justiça considerou a morte como legítima defesa.

No segundo crime, a pivô da história foi sua sobrinha. Ela contou-lhe que era apaixonada por um rapaz, mas este depois de tê-la seduzido, não quis mais casar e sumira. Ao ouvir a história, Dioguinho investigando o paradeiro do rapaz, descobriu que estava morando na casa de parentes, na vila denominada “Passe Três”, distrito de Tatuí, hoje Cesário Lange e fez sua segunda vítima a golpe de faca. E não parou mais.

 

Mortes inusitadas

Dioguinho, segundo relatos em artigos diversos foi responsabilizado por dezenas de mortes (há quem fale em mais de 70), algumas curiosas e inusitadas como quando estava caçando com um amigo e atiraram ao mesmo tempo numa perdiz. O amigo disse que ele é que havia matado a perdiz e não o Dioguinho e pegou o troféu de caça para si. Inconformado, Dioguinho deu dois tiros no amigo, matando-o. Isso teria acontecido em Jaboticabal (SP), onde Dioguinho foi sentenciado, tendo se refugiado em Altinópolis (SP).

Outro assassinato foi quando entrou na Venda de Tábua, em Botucatu, ao lado da estação ferroviária e comprou uma espingarda nova. Saiu com a arma para fora e municiou-a. Lá ao longe, caminhava um homem que recém saíra da Venda de Tábua e que levava um balaio às costas: de um lado açúcar e macarrão, do outro fubá. Dioguinho fuzilou-o pelas costas, só para experimentar a espingarda. O balaio foi dado a um menino de 10 anos que assistiu estarrecido ao assassinato.

Teve um caso narrado em que certo Coronel Cirino, de Tietê, ficou muito magoado com sua filha, pois queria que ela um dia se casasse com um filho de gente próspera da Alta Mogiana, mas a filha apaixonou-se pelo seu professor de Francês, que o próprio coronel Cirino contratou para ensiná-la a torná-la uma moça culta. O coronel mandou uma carta chamando o Dioguinho e pediu ao matador que a morte do professor fosse suave.

O bandoleiro atraiu o professor até a casa do coronel (que, estrategicamente, foi viajar com a filha) através de um bilhete e quando este chegou, perguntou se era o professor da filha do coronel e se gostava da menina. O professor teria dito que a amava mais do que tudo. Então, Dioguinho depositou na mesa um revólver calibre 38, depois um punhal e por último pegou uma caneca com água e despejou um pó dentro dela, informando ao professor que aquilo era veneno estricnina. Em seguida, disse ao professor que ele iria morrer de qualquer jeito, mas que teria o direito de escolher se seria com um tiro, uma punhalada ou por envenenamento. Chorando, o professor escolheu a caneca com o veneno, tomando todo o líquido da caneca de olhos fechados. Morreu ali mesmo, na casa da namorada.

Os crimes fizeram a história de um dos mais notáveis bandidos do século XIX época em que a região era a principal produtora de café do mundo e quando a modernidade como os Correios e as estradas de ferro Mogiana e Sorocabana estavam chegando a muitas cidades do interior paulista. Isso fez com que Dioguinho, para sua própria segurança, começasse a cercar-se de capangas conseguindo, assim, mais “fregueses”. E os assassinatos foram se sucedendo fazendo com que adquirisse sítios e fazendas pelo Estado de São Paulo, com o pagamento que recebia pelas mortes encomendadas. E tinha uma maneira peculiar para provar que havia cumprido o trato: cortava uma das orelhas da vítima e entregava ao contratante.

 

“Morte” de Dioguinho

No começo de ano de 1918, o governo do Estado de São Paulo empreendeu uma verdadeira força-tarefa para capturar Dioguinho. As autoridades policiais e da Justiça atribuíam a ele centenas de assassinatos praticados entre os anos de 1884 e 1917. O jornal “O Correio Paulistano”, de São Paulo, anunciou em primeira mão, no dia 26 de abril de 1918, que o cerco ao bando de Dioguinho tinha sido bem sucedido. Segundo a notícia, Dioguinho havia sido baleado e morto no Rio Mogi Guaçu, em terras da Fazenda Santa Eudóxia, município de São Carlos.

Com isso, Santa Eudóxia ficou conhecida como o lugar onde morreu Dioguinho, mas seu corpo nunca foi encontrado. O coronel França Pinto que comandava a força tarefa foi promovido a Secretário de Segurança Publica. Já Antônio Godoy, delegado responsável pelo planejamento da captura, ficou famoso e se elegeu deputado estadual.

O que se conta é que naquele tiroteio, Dioguinho não morreu embora tenha sido alvejado com um tiro e ter caído no rio. Alguns relatos atestam que Diogo da Rocha Figueira, paralítico em conseqüência de ferimentos à bala, viveu por mais três anos em uma fazenda localizada na região de Botucatu. Ele teria sido salvo, recolhido, recebido cuidados médicos e permanecido escondido até o final dos seus dias. Sua sobrevivência teria sido mantida em segredo, possibilidade que atestaria a lealdade do círculo social ao qual o “terror rural” pertencia.

Fotos: Acervo

Antonio Fernando Pereira / Ilustração